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Sossega, Leão
1, 5, Julho, 2009, 4:40 pm
Arquivado em: convivas, livros, mundo real, negócio de arte, ouvi por aí

Retrato de Gregor Samsa, RSL

Retrato de Gregor Samsa, RSL

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Tudo é pequeno.

Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hipnotizando a iguana

O que é grande
É a arte
Há vida em Marte.

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Estranho último poema este, postado cinco dias antes da grande viagem. Dia 1 de julho Rodrigo de Souza Leão partiu além. Um poeta estranho pela peculiar mistura de singelo surrealismo, fina ironia e excruciante melancolia – literária, mas confessional à medula -, em versos de fatura lógica e clara, de rimas simples e musicalidade imediata.

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Toda a vida em um segundo.

Morrendo a cada
Dez minutos uma vez

O círculo se fecha
E cada vez mais

O que vai indo vai
Pra nunca mais

O que fica é o futuro
Uma criança na foto

Por que nenhuma
Mãe guardou

Nossas fotos
Quando adultos

.

O carioca RSL era uma lenda viva. Deixou muita poesia inédita. Um dos escritores mais incansáveis da rede – onde estava desde 1996, editando o e-zine Balacobaco -, multiplicou-se por 10 e-books, artigos literários, entrevistas com autores e participações por vários sites, como a revista Zunái, que editava com o poeta Claudio Daniel. Aqui, Daniel escreve sua comovente despedida do amigo.

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Caixa de fósforos.

Eu não saio pra ver a vida
Eu vivo ávido de vida
A vida está aqui dentro

Tão dentro que estou morto
Pronto pra pegar fogo

.

Pulei
de uma janela
deitada

Andei
na nata iceberg
do leite

Caí
de pára-quedas
no nada

Subi
cavando
com enxada

.

Foices
ceifando
o sol

naus
ornando
o mar

peristilos
lambem
pilastras

aprendi
arquitetura
Proust

.

Bandeira vermelha.

O sono eterno da pedra
as falésias surfando
o mar de cicatrizes

à cata está o poeta
de alguma imagem rara
ou de alguma metáfora nua

na ressaca da prudência
alguns ficam nas pranchas
carrancas com medo

castelos de areia
crianças à milanesa
o céu maior que tudo

e à maneira do sol
espero o mar crescer
se encher de sudoeste

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Além da incessante produção – que culminou na elogiada novela Todos os cachorros são azuis, finalista no Prêmio Portugal Telecom -, os últimos anos de Leão foram preenchidos por telas de cores primárias e forte iconicidade, como A insustentável leveza do elefante e esta:

Sentido da vida, RSL

Sentido da vida, RSL

RSL era uma lenda também por falar sem medo [e sem esperança] da condição de esquizofrênico – que o mantinha recolhido em casa, de onde saía muito pouco: sua última aparição pública foi no projeto Artimanhas Poéticas, no início de junho. Neste depoimento ao Jornal do Brasil, Leão pede inteligência no trato com os loucos e critica a forma ridícula como o tema é abordado na infame novela Caminho das Índias.

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Química cerebral.

Bom dia Lexotan
Bom dia Prozac
Bom dia Diazepam
Bom dia coquetel
Bom dia Amplictil
Bom dia Fenergan
Bom dia sossega-leão
Bom dia eletrochoque
Bom dia Piportil
Bom dia Lorax
Bom dia Lithium
Bom dia Haldol

Boa noite Rodrigo

.

A experiência na esquizofrenia, que o levou à internação em manicômio [tema de Todos os cachorros são azuis], e a luta por destrinchar os eventos criados pelo inconstante convívio entre a ‘normalidade’ social e a realidade de uma mente em parafuso relacionam o poeta em uma linhagem rara na literatura brasileira.

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Linguagem.

O louco baba um licor de excrescências
O louco faz excrescências
entre o que baba e o que faz

Esta é a linguagem do louco
Ele está no que baba
Na excrescência que ali jaz

O louco não rasga dinheiro
Compra cigarros bem fortes
para que possam matá-los

Antes que a morte lhe mate.

.

Lobotomia.

Na
Caixa
Craniana
Não há nada

Só o nada como artefato

Nada
Um peixe
E suas barbatanas

Homens dão viradas olímpicas
Nadam
E o nada continua ali

Vazio
Entre duas mãos
E o bisturi

.

Vida.

A mim foi negado tudo.
Até o absurdo.

.


O cânone desta escrita de autobiográfica investigação psicopatológica alinha do Lima Barreto de O cemitério dos vivos à Maura Lopes Cançado de Hospício é Deus, passando pelo Renato Pompeu de Quatro-olhos, o Carlos Süssekind de Armadilha para Lamartine, a Orides Fontela de Teia e o Lourenço Mutarelli de A arte de produzir efeito sem causa. Literaturas desalinhadas na crítica acadêmica, que ainda nos deve um estudo sério sobre a intersecção arte-loucura-biografia na literatura brasileira.

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O dado de sete lados.

Psiquiatras vêem doença em tudo.
No azul do veludo
de uma neurose:

numa operação de fimose.

Por osmose
(numa réplica de crocodilo)

vêem o Murilo.
Mendes é o nome dele.

Vêem a Paranóia (de Piva)
e os sete cantos de um dado imaginário.

Podem me chamar de otário:
no sentido horário

e no anti-horário.

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Conforme o amigo Daniel, Leão se foi “de ataque cardíaco, provocado por medicação excessiva; não sabemos se foi suicídio, imperícia médica ou destino. Sugiro que você publique algo sobre a literatura do Rodrigo; ele ficaria mais feliz se falassem de seus livros do que do seu drama pessoal”. De acordo, embora em desacordo com sua morte – que silenciou de forma abrupta nossa nascente conversa. Mas seus poemas estão aqui. Lindamente vivos.

.

lápide sem inscrição
já feita

já feita a luzificação
da alma eleita

trâmites e processos do sol
no dia d

flechas e cartas de amor
fagulhando hou-

sebad
e que me marcou só sei eu

que pleiteio um fim
também

muito afim de mim

Rodrigo de Souza Leão, 1965-2009

Rodrigo de Souza Leão, 1965-2009

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mobiliando o silêncio
com aquários vazios

vê-se inexistente
uma cor na parede

o que se vê
é um pássaro com sede

de poleiro em poleiro
fazendo voar a gaiola


4 Comentários até o momento
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Porra.

Comentário por sarmatz

A literatura carioca ficou mais desbotada, com certeza.
abs

Comentário por JULIO CORRÊA

O cara foi no grande momento da carreira dele. Uma pena.
Esses últimos versos dele “O que é grande / É a arte / Há vida em Marte” mostram o tanto que ele ainda podia criar. Uma pena mesmo.

Resta-nos o (muito) que ele escreveu.

Comentário por Laura Assis

Fazer o quê? A arte perde.
Perdemos nós.

Não se perdem os poemas que ele escreveu.
Não se perdem os livros quase desenhados.
e a intensidade louca que ele imprimia em tudo que tocava.

Comentário por Ana Marques




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