IMPOSTOR


Sossega, Leão
1, 5, Julho, 2009, 4:40 pm
Arquivado em: convivas, livros, mundo real, negócio de arte, ouvi por aí

Retrato de Gregor Samsa, RSL

Retrato de Gregor Samsa, RSL

.

Tudo é pequeno.

Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hipnotizando a iguana

O que é grande
É a arte
Há vida em Marte.

.

Estranho último poema este, postado cinco dias antes da grande viagem. Dia 1 de julho Rodrigo de Souza Leão partiu além. Um poeta estranho pela peculiar mistura de singelo surrealismo, fina ironia e excruciante melancolia – literária, mas confessional à medula -, em versos de fatura lógica e clara, de rimas simples e musicalidade imediata.

.

Toda a vida em um segundo.

Morrendo a cada
Dez minutos uma vez

O círculo se fecha
E cada vez mais

O que vai indo vai
Pra nunca mais

O que fica é o futuro
Uma criança na foto

Por que nenhuma
Mãe guardou

Nossas fotos
Quando adultos

.

O carioca RSL era uma lenda viva. Deixou muita poesia inédita. Um dos escritores mais incansáveis da rede – onde estava desde 1996, editando o e-zine Balacobaco -, multiplicou-se por 10 e-books, artigos literários, entrevistas com autores e participações por vários sites, como a revista Zunái, que editava com o poeta Claudio Daniel. Aqui, Daniel escreve sua comovente despedida do amigo.

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Caixa de fósforos.

Eu não saio pra ver a vida
Eu vivo ávido de vida
A vida está aqui dentro

Tão dentro que estou morto
Pronto pra pegar fogo

.

Pulei
de uma janela
deitada

Andei
na nata iceberg
do leite

Caí
de pára-quedas
no nada

Subi
cavando
com enxada

.

Foices
ceifando
o sol

naus
ornando
o mar

peristilos
lambem
pilastras

aprendi
arquitetura
Proust

.

Bandeira vermelha.

O sono eterno da pedra
as falésias surfando
o mar de cicatrizes

à cata está o poeta
de alguma imagem rara
ou de alguma metáfora nua

na ressaca da prudência
alguns ficam nas pranchas
carrancas com medo

castelos de areia
crianças à milanesa
o céu maior que tudo

e à maneira do sol
espero o mar crescer
se encher de sudoeste

.

Além da incessante produção – que culminou na elogiada novela Todos os cachorros são azuis, finalista no Prêmio Portugal Telecom -, os últimos anos de Leão foram preenchidos por telas de cores primárias e forte iconicidade, como A insustentável leveza do elefante e esta:

Sentido da vida, RSL

Sentido da vida, RSL

RSL era uma lenda também por falar sem medo [e sem esperança] da condição de esquizofrênico – que o mantinha recolhido em casa, de onde saía muito pouco: sua última aparição pública foi no projeto Artimanhas Poéticas, no início de junho. Neste depoimento ao Jornal do Brasil, Leão pede inteligência no trato com os loucos e critica a forma ridícula como o tema é abordado na infame novela Caminho das Índias.

.

Química cerebral.

Bom dia Lexotan
Bom dia Prozac
Bom dia Diazepam
Bom dia coquetel
Bom dia Amplictil
Bom dia Fenergan
Bom dia sossega-leão
Bom dia eletrochoque
Bom dia Piportil
Bom dia Lorax
Bom dia Lithium
Bom dia Haldol

Boa noite Rodrigo

.

A experiência na esquizofrenia, que o levou à internação em manicômio [tema de Todos os cachorros são azuis], e a luta por destrinchar os eventos criados pelo inconstante convívio entre a ‘normalidade’ social e a realidade de uma mente em parafuso relacionam o poeta em uma linhagem rara na literatura brasileira.

.

Linguagem.

O louco baba um licor de excrescências
O louco faz excrescências
entre o que baba e o que faz

Esta é a linguagem do louco
Ele está no que baba
Na excrescência que ali jaz

O louco não rasga dinheiro
Compra cigarros bem fortes
para que possam matá-los

Antes que a morte lhe mate.

.

Lobotomia.

Na
Caixa
Craniana
Não há nada

Só o nada como artefato

Nada
Um peixe
E suas barbatanas

Homens dão viradas olímpicas
Nadam
E o nada continua ali

Vazio
Entre duas mãos
E o bisturi

.

Vida.

A mim foi negado tudo.
Até o absurdo.

.


O cânone desta escrita de autobiográfica investigação psiquiátrica alinha do Lima Barreto de O cemitério dos vivos à Maura Lopes Cançado de Hospício é Deus, passando pelo Renato Pompeu de Quatro-olhos, o Carlos Süssekind de Armadilha para Lamartine, a Orides Fontela de Teia e o Lourenço Mutarelli de A arte de produzir efeito sem causa. Literaturas desalinhadas na crítica acadêmica, que ainda nos deve um estudo sério sobre a intersecção arte-loucura-biografia na literatura brasileira.

.

O dado de sete lados.

Psiquiatras vêem doença em tudo.
No azul do veludo
de uma neurose:

numa operação de fimose.

Por osmose
(numa réplica de crocodilo)

vêem o Murilo.
Mendes é o nome dele.

Vêem a Paranóia (de Piva)
e os sete cantos de um dado imaginário.

Podem me chamar de otário:
no sentido horário

e no anti-horário.

.

Conforme o amigo Daniel, Leão se foi “de ataque cardíaco, provocado por medicação excessiva; não sabemos se foi suicídio, imperícia médica ou destino. Sugiro que você publique algo sobre a literatura do Rodrigo; ele ficaria mais feliz se falassem de seus livros do que do seu drama pessoal”. De acordo, embora em desacordo com sua morte – que silenciou de forma abrupta nossa nascente conversa. Mas seus poemas estão aqui. Lindamente vivos.

.

lápide sem inscrição
já feita

já feita a luzificação
da alma eleita

trâmites e processos do sol
no dia d

flechas e cartas de amor
fagulhando hou-

sebad
e que me marcou só sei eu

que pleiteio um fim
também

muito afim de mim

Rodrigo de Souza Leão, 1965-2009

Rodrigo de Souza Leão, 1965-2009

.

mobiliando o silêncio
com aquários vazios

vê-se inexistente
uma cor na parede

o que se vê
é um pássaro com sede

de poleiro em poleiro
fazendo voar a gaiola



Saudações corinthianas!
1, 2, Julho, 2009, 7:10 pm
Arquivado em: convivas, mundo real, pra que escrever?



Assinei o BO
1, 29, Junho, 2009, 6:41 pm
Arquivado em: convivas, hq, livros, negócio de arte, oncotô, sci fi


Leon Wilczenski entre suas favoritas

Leon Wilczenski entre suas favoritas

Uma festinha em 2035

Uma festinha em 2035

Apesar do último dia 25 ter se encerrado com a triste notícia aí embaixo, a tarde foi marcada por uma nota quente: a assinatura do contrato da primeira graphic novel que roteirizo. Detalhes sobre a HQ, só adiante [afinal ainda faltam umas 70 páginas pra eu finalizar a dita]. Mas já dá pra dedurar os partners na aventura: o visionário investidor e argumentista Eric Acher e o extrordinaire artista Fabio Cobiaco.

Pelos quadrinhos acima, dá pra ver que o Coby é um monstro. O que fica patente quando se observa seu processo de trabalho: ele passa o pincel branco sobre o nanquim preto – mais ou menos como se esculpisse a cor, tirando do preto o relevo em branco. Por enquanto, convido o leitor destas imposturas a visitar o blog e o flickr do Cobiaco pra conhecer a obra em progresso – que devemos publicar em 2010. Vai ficar foda.



Morreu um parente
1, 26, Junho, 2009, 1:19 am
Arquivado em: mundo real, som na caixa



Em 1984, você andava pelo Largo 13, Santo Amaro, Sumpaulo, e de longe, olhos semicerrados, via a estranha mancha vermelha semovente. Se aproximando, percebia que a mancha era formada por dezenas de jaquetas. Paradas, nos camelôs, ou gingando nos corpos de todos os formatos do povão na correria: as jaquetas vermelhas de Michael Jackson usadas nos clipes de ‘Thriller’ e ‘Beat it’. Aí descia os olhos e via as meias brancas sobre os tênis pretos e sob as calças cigarrette – a indumentária do rei do pop, copiada em dúzias de concursos em programas de auditório, onde tantos, como nós, tentavam ser ele.

É estranho pensar que o homem desapareceu completamente da paisagem, nos roubando um gigantesco repertório gráfico, musical, coreográfico, comportamental etc. MJ era um pouco aquela tia doidona e genial que volta e meia inventa uma moda ou se mete em encrenca, nos tirando do cotidiano previsível com a sensação de irrealidade: ‘Soube da última do Michael Jackson?’.

A última do Michael Jackson é morrer do coração – algo mais estranho que imaginar um mundo sem Pelé. MJ se recusava a um acordo com a norma. A idéia de convencionalidade nunca caiu bem para um sex symbol virgem que começa a trabalhar com 5 anos de idade e desde então se dissolve entre macho e fêmea, entre fluidez humana e movimentos robóticos, entre bicho-papão e menino, entre negro e branco. MJ foi o primeiro self made ET da história da arte.

Pai de todos os artistas transformers, lugar-comum que desafia qualquer clichê, não por acaso seu gesto imortal é engrenar a ré dando a ilusão de se mover à frente – como uma vez Xico Sá descreveu o moonwalking, MJ ‘foi o primeiro negro a andar no lado escuro da Lua’.

Sair fora assim, duas semanas antes do que seria a sua última turnê, me parece a última tirada de onda de um master freak. Be careful of what you do ’cause the lie becomes the truth. Não vou estranhar nada se Michael Jackson ressurgir daqui a 50 anos vestindo uma jaqueta vermelha comprada no Largo 13 dançando ‘Billie Jean’, o maior hit de pista alltimes. Na boa – vou torcer por isso.



Premer para puxar parte
1, 25, Junho, 2009, 12:13 am
Arquivado em: convivas, oncotô, pra que escrever?, verso

for J

for J

Primeira aula de levitação“, ilustra Eva Uviedo.
Em cartaz no elevador ‘H’ do SescPinheiros, rua Paes Leme, 195



Soltando as cachorras
1, 21, Junho, 2009, 9:46 pm
Arquivado em: mundo real, perfil, periodismo, som na caixa

A violência nasce da palavra 'bastardo'

A violência nasce da palavra 'bastardo'

Sabia que ia render. Fazia tempo estava na cola de uma conversa com Mr. Catra, o autor de “Vacilão” e outras gemas do funk relato [dito proibidão]. Allan Sieber e Arnaldo Branco tinham tocado uma entrevista hilária pra saudosa F. André Maleronka mandou uma matéria inusitada sobre as visitas do Negão ao Clube Paris, na EleEla [aqui também um rolê com o funkeiro pela Baixada Santista]. E recentemente Matias Maxx desenrolou um ótimo perfil na sempre esperta +Soma. Faltavam umas Páginas Pretas.

Quando soubemos que ele passaria por SP mês atrás, não ficamos de vacilação. O lugar do apontamento era sinistro: o hotel Shelton, centro. Lá, vi Kakau, que tinha chegado pro makin’of, tirando uma fumaça das idéias do cidadão carioca – e a preparada logo entrou no bonde da entrevista. Morrendo de sono por ter virado a noite e depois guiar do Rio a SP, Mr. Catra não se fazia de fazido e posava pro clic de Marcelo Naddeo quase despencando: antes de tirar a camisa, anunciou a barriga “máquina de lavar” ["embaixo tem uma mangueira, tá ligado?"] e mandou ver a pançola, na base do foda-se.

Fotos feitas, o funkeiro nos convidou pra sua suíte – bem mais simples que a usada no ensaio -, onde se esparramava enrolado na lady Raiane, uma japa loura de 20 e poucos anos. A entrevista era volta e meia cortada por visitas bizarras como as de MC Creide e seus assistentes anões, fãs, filhos e o serviço de quarto, que trouxe um big burger, fritas e coca traçados em minutos. Mas tranki. Em geral é difícil conduzir uma conversa como a Negras, em que se trata de todo tipo de assunto, da primeira vez à morte da bezerra. Enfumaçado e zuado de sono, o Negão fazia tudo parecer fácil.

Muita gente boa veio me reclamar das Negras [aqui no site da Trip estão na íntegra], na minha humble opinion uma das melhores entrevistas que fiz. “Pra que dar um espaço tão grande a um boçal desses?” é a indignação constante. Defendo talvez 10% das idéias de Mr Catra. Não comungo do seu machismo, do seu monarquismo nem de seu confuso ideário religioso – embora assine embaixo de sua tese sobre o comércio de drogas ["libera e controla tudo"], algo que nos 21 anos das Páginas Negras da Trip nenhum entrevistado teve cojones pra defender [isso sem falar na lista de artistas ou intelectuais que na hora do microfone malocam o flagrante].

Jornalisticamente, porém, isso não quer dizer nada: um bom entrevistado se basta pelo que fala. Desse ângulo, Mr. Catra é o personagem ideal. Tem histórias pra contar e idéias pra defender. E assume tudo no seu nome. Entertainer nato, um frasista de fina verve, cada sentença sua nasce talhada pra ser olho, intertítulo, chamada de capa. Muito medalhão por aí você dechava sete horas e não trincha um statement nem torcendo o papo [o grande Fernando Paiva já dizia: "Jornalismo é a arte de fazer imbecis soarem inteligentes"]. Alma de Chacrinha no biotipo de Mano Brown, Mr. Catra sintetiza as contradições do Brasil. É um gênio e uma besta ao mesmo tempo. Numa boa: sua figura é seu discurso.

Nas 12 horas que passamos, manteve o mesmo espírito fanfarrão e nervoso, paizão e canalha. Sem deixar cair a peteca do risco: no percurso de 100 km por três bailes da perifa paulistana, ele dirigia o próprio carro [pra não atrasar os shows, deu picos de 150 km/h ali na Jacu-Pêssego], fazendo com que tivéssemos que segui-lo literalmente pelo cheiro. Nesse mundo do showbiz conheço pouca gente que consegue ser a mesma pessoa o tempo todo. Pro bem ou pro mal, Mr. Catra é 100% de verdade. Daquele jeito.



Easy when you know
1, 18, Junho, 2009, 10:43 am
Arquivado em: Bora lá, convivas, negócio de arte


Sure it is by Eva Uviedo

Sure it is by Eva Uviedo


Aquarela da Eva na Escola São Paulo, rua Augusta 2239. Semana que vem a parceirinha estréia wallpaper com poema deste impostor no elevador do Sesc Pinheiros. Subam



Os colaboracionistas
1, 15, Junho, 2009, 8:48 pm
Arquivado em: oncotô, periodismo, som na caixa

Plug & play: Céu, Thalma, Ganja, Tatá, Catatau, Kassin, Junio, Helinho

Plug & play: Céu, Thalma, Rômulo, Ganja, Tatá, Catatau, Kassin, Junio, Helinho

>> Materinha de capa pra Trip do mês

A cena musical brasileira 2009 é uma orgia: ninguém é de ninguém e todo mundo toca com todo mundo

Esqueça as paradas de sucesso, os prêmios que louvam os medalhões de sempre, os ganhadores de disco de ouro e aquele papinho “ah, mas a cena hoje não tem mais Chico, Caetano…”. Conversa. O riquíssimo panorama musical contemporâneo não tem nada a ver com a riquíssima cena dos anos 60. São outros públicos, outro jeito de a música chegar no ouvinte, outras propostas sonoras, a globalização aproximou músicos distantes, os grupos não são hermeticamente fechados e se abrem para novas combinações – e não há um inimigo comum, fardado e censor, a combater.

Existe um inimigo invisível: a multiplicação e a dispersão de sons e imagens. Qualquer músico pode criar uma página na rede, encontrar um buraco para tocar, bancar um CD bacana por R$ 3 mil. No entanto, se você não toca axé, pagodão, sertanejo, gospel ou rock emo e quer um som criativo e consistente, pegue sua senha. Talvez por isso tivemos tanto trabalho para chegar a esses nove ‘novos’ – a idéia não é só mapear os cabeças pensantes e cantantes da vez, mas observar nomes sólidos. Por isso temos figuras mais maduras que as elencadas pela revista Realidade nos anos 60.

“Nenhum homem é uma ilha, todo de si mesmo; cada homem é um pedaço do continente, uma parte da terra principal”, escreveu em 1624 o poeta inglês John Donne. O verso ilumina nossa busca pelos homens-arquipélago dos anos 00, no lugar dos músicos-estelares dos anos 60. Hoje, quem se isolar dos aspectos menos artísticos de seu trabalho some. Não funciona ficar no canto criando, à sombra de uma gravadora ou de um produtor. O artista precisa se mover para todos os lados, às vezes se ocupando de tarefas nada artísticas – pensar a arte do CD ou do site, a produção de um show, a agenda de um evento. Não basta ser gênio. Há músicos que são DJs, curadores de eventos, jornalistas, publicitários, artistas visuais, produtores, arranjadores, escritores, trilheiros, atores. Tudo ao mesmo tempo.

Agora que ficou consolidado que o CD é suporte para o trabalho ao vivo, antes meio que fim, ficou mais liberado todo mundo tocar com todo mundo. Solidariedade Ou Morra: a cena musical deriva concretamente da dinâmica das redes, que se tornaram o novo paradigma da comunicação (online e interativa, da internet e dos videogames), substituindo o de difusão (próximo dos festivais de TV e programas de rádio). Faz sentido a aproximação de artistas e bandas de gêneros musicais distantes. Isso não tem nada a ver com movimento: a liga é mais forma que conteúdo, mais modo de trabalho que programa artístico.

Obra aberta
O esquema “banda trabalha seu disco com a gravadora e sai em turnê” não funciona. Embora os álbuns sejam fundamentais à coerência de cada projeto, grupo ou artista solo, há tanta coisa rolando entre cada lançamento que se poderia dizer: o mais bacana é a obra em progresso – não à toa o sempre esperto Caetano Veloso pescou o conceito e o puxou para nomear o blog que deu origem a seu novo CD, Zii e Zie [por sinal bem chatinho].

Entre álbum e outro surgem parcerias inusitadas, projetos paralelos que ganham força e roubam os holofotes. Assim como não existem gêneros definidos, não há pólos centrais que aglutinam coadjuvantes em redor. Como em um filme do Quentin Tarantino ou em um livro do Roberto Bolaño, um personagem secundário em uma cena pode ser o principal narrador na seguinte, e vice-versa. Existem mais artistas-redes do que artistas-difusores.

O panorama musical dos anos 00 é fragmentário, interdependente, contextual. O último manifesto importante da música brasileira originou o último movimento organizado – o manguebeat. De certo modo, a morte de seu principal astro, Chico Science, explodiu a multiplicidade de talentos de sua banda, a Nação Zumbi, fornecendo subsídio a um modo de produção em que importa mais a galáxia retroalimentada que a estrela única puxando e espalhando luz. Em vez de se engessar em um modelo, os remanescentes da Nação se espalham entre álbuns da banda e projetos paralelos como Maquinado, 3naMassa, Sonantes, Los Sebozos Postizos, Autônomo etc, sempre com parceiros diferentes, reproduzindo o troca-troca e pega-pega típico da cena de rock indie de São Paulo, Rio e Porto Alegre.

Daniel Ganjaman, de uma célula “irmã”, o Instituto, reflete: “Não existe entre nós essa idéia de movimento; existem são diversas movimentações acontecendo ao mesmo tempo, para todos os lados, entre as mesmas pessoas e novas”. Rômulo Fróes teoriza: “Agora é que está finalmente acontecendo a Tropicália. A idéia de que todos iam criar tudo, apresentada pelos tropicalistas, só se realiza plenamente na nossa era”.

A real
Para descobrir os carros-chefe da nova geléia geral brasileira, voltamos ao passado pra beber em uma reportagem clássica da Realidade – que, em 1966, apostou em nove talentos. Mesmo: Chico Buarque tinha apenas 23 anos e era conhecido pelo hit “A banda”; Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos com 24, tentavam a sorte em festivais. Já os Nove atuais são figurinhas carimbadas a quem acompanha movimentações de palco e Myspace.

Todos são compositores; alguns ainda burilam o segundo álbum, outros são mais rodados – e dos nove, só Thalma (talvez a mais famosa, por conta do trabalho como atriz global) tocou com todos. No gráfico a seguir, você percebe as ligações perigosas entre os Nove e quase 50 artistas. Os links representam parcerias de canções e/ ou álbuns e/ou produções e/ou projetos paralelos e/ou parcerias em shows. Graficamente, demonstra-se como a tropicália dos anos 60, a vanguarda paulistana dos 70/80, o rock dos anos 80, o Manguebeat de 90, a cena hip hop e o rock dos 90/00 estão entrelaçados – a velha tese de que não existe ruptura na cena artística brasileira, em especial a musical.

>> O tal gráfico e os miniperfis dos noves dentro estão nas bancas ou aqui



I lobby you
1, 11, Junho, 2009, 12:09 pm
Arquivado em: periodismo


lovebrownie by Ericatz

lovebrownie by Ericatz

Romantismo digital X putaria manual

No meio da oferta indiscriminada de amores expressos, prazeres excusos e uma boa foda a um toque no mouse, o amor romântico ainda existe? EleEla ouviu oito artistas para entender os descaminhos do coração – e dos hormônios – nos tempos em que fuçar no Orkut de um (a) pretendente pode ser, mais que uma rima, uma solução

O romantismo está fora de moda. As pessoas têm medo de se mostrarem românticas e não têm mais tempo para densas histórias de amor. Em tempos de celular, MSN, Orkut, Facebook, e-mail, Flickr e Twitter, os relacionamentos precisam mesmo ser superficiais. A tecnologia matou o mistério – e ainda bem. O mundo não comporta espaço para Romeu & Julieta: o casal da vez agora é Putão & Piriguete. Tudo bem que muita gente sinta falta de enlouquecer de verdade, de se entregar, de se jogar de cabeça. Há até quem diga que os jovens estejam com medo de se apaixonar. É assim mesmo – afinal, não é possível amar ao mesmo tempo em que se cresce na vida. O melhor negócio em 2009 é ser pragmático: clicar em um link – e, por via das dúvidas, já deixar uma ou mais janelinhas abertas. Nunca se sabe…

>>> E aqui [ou aqui, integral] segue a materinha pra EleEla que escrevi com o auxílio luxurioso dos amigos Thalma de Freitas, Clarah Averbuck, Nina Lemos, Helio Flanders, Junio Barreto, Omar Salomão, Tatá Aeroplano e André Caramuru. A foto acima é um lovebrownie criado pela Ericatz, pede pra apimentar seu Valentine’s…



Nevermind the gap
1, 9, Junho, 2009, 2:48 am
Arquivado em: convivas, fuetos, negócio de arte, pra que escrever?


Entre o nada e o lugar nenhum

Entre o nada e o lugar nenhum

Mais furos no vazio no flickr do Elohim, aqui. Foda. Acho que isso quer dizer alguma coisa, mas o sentido me escapa.



Germana e o Diabo Verde na terra do pastel de carne-de-sol
1, 2, Junho, 2009, 9:22 pm
Arquivado em: Bora lá, egotrip, ficções, livros, mundo real, oncotô, perfil, periodismo, pra que escrever?


>>> Perfil da Merza, na Serafina do mês. Vai a versão integral e sem tergal [puerra, vitorfasanaram o meu 'lembro' por 'lembro-me'...].

Chapa quente

Atrás do balcão da Mercearia São Pedro, 40, só não bebe quem já morreu. Saiba como o pé-sujo mais clássico da Vila Madalena se tornou o epicentro da vida artística paulistana

por Ronaldo Bressane*

mercearia-2

Sou um zangão que mora em uma garrafa peluda. Uma garrafa peluda de cachaça Germana, estacionada a três metros do solo. Uma garrafa peluda entre tantas garrafas peludas nas últimas prateleiras do bar. Os pêlos são formados por décadas de acúmulo de pó e partículas não-identificadas sobre a superfície oleosa das garrafas que adornam as prateleiras acima do balcão, da caixa registradora e da chapa da Mercearia São Pedro. O álcool me conserva bem: pela quantidade de coisas que passaram por meus cinco olhos, imagino que devo ter uns 40 anos.

Cheguei depois de muito zanzar pelas lombas da Vila Madalena – era bom ficar no alto desse morro, na rua Rodésia; repare, os nomes das ruas da Madalena são quase todos assim, curtos e hippies como os vestidos das suas moças, Wizard, Harmonia, Girassol, Purpurina, Simpatia. Daquela lomba, vizinha da Escola Maximiliano dos Santos, do Fórum de Pinheiros e de algumas psicodélicas praças em que já vi cada coisa que nem te conto, se domina toda a Vila. Quando aqui me aferrei, a Mercearia era só a venda tocada pelo seu Pedro, descendente de sírios. Ele nunca imaginou que seria o bar mais tradicional do mais boêmio dos bairros de São Paulo.

Lembro quando o menino Marcos Issa Benuthe, hoje com 50, ficava aporrinhando seu Pedro, que queria usar o terreno da rua Rodésia, 34, para uma casa de materiais de construção. Seu Pedro lotou a venda de privadas, canos, azulejos e uns bagulhos esquisitos. O moleque, então com 10 anos, batia o pé: o espaço seria mais bacana se freqüentado pela vizinhança, não só por pedreiros e mestres de obras. Pouco a pouco, a vendinha seria dominada mais pelos molhados que pelos secos. Finado seu Pedro em 1996, hoje Marquinhos responde pela noite e o irmão Pedrão toca o dia, ladeados pelo atlético primo Marcelo, o gerente afobadinho Neto e mais 22 profissionais.

O garçom mais velho é o França, “o menor garçom do mundo”, para o escritor Joca Reiners Terron: está ali há uns 20 anos e, segundo Marquinhos, “não se sabe muito bem quando nem de onde surgiu, deve ter vindo dentro de alguma garrafa de uísque paraguaio”. Tirando o piauiense cinéfilo França e o cozinheiro pernambucano Antonio, todos os outros garçons são – como preza a média paulistana – torcedores do Corinthians. O bar é dos mais assediados durante clássicos ou jogos da Seleção; na Copa de 2002, houve uma mesa em que se entornou por vinte horas seguidas, das 6h às 2h. Quando Sócrates baixa por lá, em geral antes ou depois de ir fazer seu programa na TV Cultura, é tratado com mesuras de chefe de estado. Certa vez, quebrando o pau com o plácido irmão Raí (o tricolor bebe muito menos que o alvinegro), ao tentar convencê-lo de que não entendia nada de futebol Sócrates apelou ao cúmulo anacrônico de citar o mito da caverna de Platão. Agora você entende por que os comentários do Magrão são tão surpreendentes no Cartão Verde.

Geração Nojenta
O bar assistiu a um monte de modas boêmias desfilarem e continua exatamente igual, quiçá com os mesmos amendoins e grãos de bico de 40 anos atrás. O chopp sem colarinho, o strogonoff com Chateau Duvalier, o vinho alemão de garrafa azul, a meia-de-seda, o trio rúcula-mozzarela de búfala-tomate seco, o pseudobotequim carioca, invenção paulista, agora copiado pelos próprios cariocas… tudo foi soprado pelo vento dos insuperáveis pastéis de carne-de-sol, hoje sob a espátula de seu Antonio, o chapa-quente mais sério da área (“nossa envergadura moral”, assevera Marquinhos).

Do mesmo modo, daqui de cima das ampolas peludas vi uma série de ondas culturais virem e irem. A primeira das bandas a bater ponto foi a Raízes de América, uma das favoritas da intelectualidade pé-sujo da Vila nos anos 70, quando o bairro ainda era habitado principalmente por estudantes da USP, professores e artistas plásticos, e sequer imaginava ser invadido por playboys em busca de bistrôs descolês ou ateliês de design que vendem uma cadeira ao preço de uma cozinha.

O cinema pré-Collor, ainda nos 80, foi a segunda onda: a Vila Madalena propunha-se berço de várias produtoras e Marquinhos, cinemaníaco programador do extinto Cineclube Oscarito, exibia filmes como Frankenstein punk, de Cao Hamburger, tendo o bar como audiência e o paredão da escola em frente como tela. O cineasta alemão Peter Sempel (Flamenco mi vida), amigo de Nick Cave, era outro que vivia mostrando a fachada. Os cartazes de cinema que ornam as paredes e as resistentes VHS datam dessa época. “Sempre aparece um cliente que precisa alimentar seu velho videocassete”, diz Marquinhos.

É, Nick Cave foi fiel habituê durante o par de anos que morou em SP. Um vídeo fofo no Youtube mostra o compositor australiano embalando o filho brasileiro num bucólico fim de tarde dos anos 80, quando a Madalena parecia vila do interior [update: o vídeo foi misteriosamente retirado do YT]. Hoje quem esvazia engradados ali são músicos como Otto, Junio Barreto, Nação Zumbi, Instituto, Cidadão Instigado, Hurtmold, Orquestra Imperial, Vanguart – que freqüentam o bar tanto na modalidade esquenta quanto na afterhours.

O fechamento oficial é 2h, mas meus cinco olhos já viram a luz do sol pegar muita gente de calça curta. Lembro quando o cineasta Paulo Caldas ouviu a pesada porta de ferro se desenrolando e teve um flashback de quando ia rebocar o pai em um risca-faca em Pernambuco, “meu próximo filme vai terminar com uma porta de ferro baixando e batendo assim!”. Caldas entornou o caldo e lágrimas de memória ainda por muito tempo, e Marcelo Rubens Paiva, Beto Brant e Lírio Ferreira foram alguns que assistiram à cena – do lado de dentro da porta. Pois é: às vezes o bar fecha, mas a conta, não. E a régua demora pra passar.

Cineastas, músicos, artistas plásticos, jornalistas, fotógrafos e carreiristas à parte, o lugar é mesmo território de escribas. Muito por conta de a Mercearia, além de videolocadora e armazém, ser sobretudo uma das livrarias essenciais de São Paulo. Os primeiros a desaguarem no convés capitaneado por Marquinhos foram Reinaldo Moraes e Matthew Shirts, final dos 80. Na década seguinte, autores da (mal) falada Geração Noventa juntaram-se aos bons, levados por Joca Terron e Marcelino Freire após tentativas de unir a nascente cena literária em botecos como o Platibanda e o X, pizzarias como a Mandrágora, livrarias como a Da Vila e um extinto Fran’s Café da Fradique Coutinho, onde hoje funciona a editora Hedra.

Pegou: em 2003, Joca lançou HotelHell pela editora gaúcha Livros do Mal, de Daniel Pellizzari e Daniel Galera, que mais tarde também estreariam livros entre aquelas mesas. Pelo menos uns 100 livros tiveram ali sua primeira vez, tomando do bar Balcão a primazia de botequim literário e devolvendo o estatuto de esbórnia à noite de autógrafos – esse evento que recende a vinho de segunda e parece festa de aniversário comemorada em cartório.

A Noventa, também nomeada Nojenta por detratores (abstêmios, lógico), arrastou aos domínios da pinga com pernil autores de todo o país, além de gringos como o cubano Pedro Juan Gutiérrez, o mexicano Guillermo Arriaga e o colombiano Efraim Medina Reyes. Há quem se recorde da notória mesa do Algonquin novaiorquino presidida por Dorothy Parker, nos anos 20, quando assiste à milenar cena em que França serve cerveja no copo americano da agridoce Ivana Arruda Leite reinando em uma mesa de dúzias de escritores. O Prêmio Jabuti de Marcelino [pelos Contos negreiros] é um dos troféus que adornam as prateleiras, entre uma caixa de charutos e um pacote de giletes da década de 70.

Memórias bêbadas
Na perigosamente infinita fila do banheiro, entre os bebuns que abundam no mesmo metro quadrado, uns reclamando do serviço (reclamar só piora… na Merça, é você quem corre atrás dos garçons), lembro quando as poderosas moças do teatro da Praça Roosevelt invadiram o cenário e, ao som de “Te amo espanhola”, botaram pra correr o enxame de marias-teclado que ziguezagueavam atrás de uma história perdida ou um escritor achado.

Enquanto polinizo uma embalagem de Diabo Verde, lembro quando certa dama casada foi encurralada entre a geladeira de sorvete e a de cerveja por um autor na febre do rato e escapuliu com as vestes tintas de Chicabom. Lembro de uma neurótica que arrancou a camisa e deu com o sutiã na cara de um fulano: “Marquinhos foi até lá e disse pra ela, com toda a sua fleuma síria – ‘Minha filha, não quer um chicotinho não? Tenho uns ótimos aí pra vender’”, conforme narra Reinaldo Moraes em “Privada”, um dos contos de Uma antologia bêbada – Fábulas da Mercearia, livro todo ele escrito e acontecido ali.

Lembro quando o poeta carioca-paraguaio Douglas Diegues e o artista El Domador de Jakarés lançaram o movimento do Portuñol Selbaje; lembro quando Wander Wildner, Paulo César Pereio e Mário Bortolotto cantaram totalmente bêbados “sou quase um alcoólatra” em um show que rendeu a Marquinhos a multa de R$ 24 mil (maldita Lei do Psiu); lembro quando Antonio Prata vislumbrou um Aleph na prateleira de detergentes, entre os de maçã e os de limão. Lembro quando o cartunista Jaguar me ensinou que o segredo para jamais ter ressaca era nunca parar de beber, enquanto aprendia que, para os sócios, o bar se chama A Merça – como o apelidam Rafa Coutinho, Rafael Grampá, Fábio Moon & Gabriel Bá, a jovem guarda do cartum. E lembro quando Xico Sá vituperou contra o excesso de frescura dos jornalistas mauricinhos, ébrios de prudência, cool jazz e vinho com ecos amadeirados e toques de cassis, pouco antes de se atirar aos pés de uma deusa calipígea e de lá só voltar depois de decorar-lhe com a língua o esmalte, a geografia e o perfume.

Lembro até dos desmancha-rodinha que chafurdaram na desgraça: do cantor que foi confundido com um galhofeiro que cantava a mulher do dramaturgo e teve de catar um molar debaixo de um carro estacionado em frente; do cronista sustentado pela mãe que de tanto arrotar seu pretenso talento foi ficando cada vez mais só e fanho numa mesa de canto… destino das malas é sempre partir. Os causos são inumeráveis: nomes? Passo; o espaço acabou. Humilde zangão, não vou dedurar tudo o que vi e arriscar o lugar cativo na minha peluda, doce garrafa peluda. Só quando as garrafas passarem pela depil total, aí sim é sinal de voar atrás de outro bar.

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* Ronaldo Bressane, 39, é escritor; lançou Céu de Lúcifer em 2003 – na Merça



A volta dos boêmios
1, 1, Junho, 2009, 12:29 pm
Arquivado em: filmes, livros, periodismo


Carr, Kerouac, Ginsberg, Burroughs

Carr, Kerouac, Ginsberg, Burroughs

>>> Direto do Estadón de ontem, que traz ainda bela entrevista com Gary Snyder e outra com Walter Salles

Beat em três tempos

Livrarias recebem lançamentos essenciais para compreender a geração que mudou a literatura norte-americana do século 20 – e que, desde o lançamento de
On the road, vende como uísque barato

Eles sempre foram assim: estão por aí, então desaparecem, ficam um tempo longe, parecem esquecidos… daí ressurgem atropelando, causando, quebrando tudo. É desse jeito desde que William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Jack Kerouac cruzaram suas erráticas e alucinadas existências em suspeitos bares e apartamentos da Nova York dos anos 1940, formando a Geração Beat. O assunto estava adormecido até que dois lançamentos da L&PM (Visões de Cody, de Jack Kerouac, e Geração Beat, de Claudio Willer) e um da Cia. das Letras (E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques, de Burroughs/Kerouac) devolvem à ordem do dia a ambição por transformar vida em literatura, e daí em vida de novo, típica daqueles iluminados vagabundos. Que só queriam escrever – mas estão forrando o bolso de muita gente (o deste resenhista inclusive).

A beat vende. Nem todo mundo gosta de encarar a feia verdade, mas o fato é que a contracultura virou a cultura oficial. Basta olhar ao redor. A rebeldia proposta pelos beatniks é o discurso vigente na propaganda – em que ‘cair fora’ nada mais quer dizer do que ‘cair dentro’. Vampirizando a mitologia boêmia, a indústria cinematográfica produziu alguns raros bons filmes (Naked Lunch, de Cronemberg) e muitos péssimos (Beat, de Gary Walcow). E logo mais Walter Salles ataca com um documentário e a adaptação de On the road.

De olho no lance, as editoras não param de jogar títulos para os leitores famintos por sexo, drogas e hard bop. LP&M e Cia das Letras, através de seus editores (Ivan Pinheiro Machado e Luiz Schwarcz, este ex-Brasiliense), são as principais responsáveis pela divulgação do movimento no Brasil. Embora a L&PM venha cumprindo o papel de editora beatniquim, parte da obra publicada pela Brasiliense encontra-se fora de catálogo. Segundo a coordenadora editorial Alice Kobayashi, a Brasiliense está se reestruturando e avalia a possibilidade de reedição dos beats – por enquanto, a opção é fuçar em sebos para encontrar raridades como o Junky, de Burroughs em tradução de Reinaldo Moraes.

Quem é quem

Aos que chegaram à festa agora, esse livrinho (120 págs.) de Willer é indispensável, ao lado de Kerouac, rei dos beats (Antonio Bivar, Brasiliense) e de Alma beat (vários autores, L&PM). Poeta e editor presente na encruzilhada brasileira entre surrealismo, beat e contracultura, Willer traduziu tanto o Uivo de Ginsberg quanto Os cantos de Maldoror de Lautréamont. Didático e lírico, Geração Beat esmiúça vidas e obras da sacrílega trindade (Burroughs/Kerouac/Ginsberg) e de coadjuvantes essenciais (Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Michael McClure, Gary Snyder), além de aproximar a beat da vanguarda de vários países (como o nadaísmo colombiano) e estabelecer pontes entre os norte-americanos e a contracultura brasileira – de que são figuras importantes Roberto Piva, Chacal, Paulo Leminski, Torquato Neto e Mário Bortolotto.

A multiplicidade de nomes não é exagerada. A imagem de um escritor solitário numa torre de marfim é absolutamente contrária à beat. Conforme Willer, o conceito que fundamenta cada texto e cada movimento da geração é o da amizade. “Adesão a um programa literário ou artístico nunca é impessoal. Mas na beat a amizade foi transcendental, no sentido romântico do termo. (…) Das amizades resultou a criação coletiva, nisso apresentando semelhança com o surrealismo. Criavam juntos (…), copidescavam-se (…), se tematizaram, citaram, prefaciaram, além de não economizarem dedicatórias (…), também viajaram juntos (…), alucinaram juntos, partilhando visões (…), ajudaram-se na busca por editores e espaços; convidaram-se para eventos. E fizeram sexo juntos (…). Porém, amizade e solidariedade foram maiores do que plataforma ou programa.”

O encontro

E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques ilumina o início dessa amizade. Achado arqueoliterário, a parceria entre Burroughs e Kerouac só apareceu em 2008, três anos após a morte de Lucien Carr, pivô do obscuro “assassinato que deu origem aos beats”. Em 1944, Carr, então um adolescente que enlouquecia homens e mulheres por conta de sua beleza rimbaudiana, esfaqueou o amigo David Kammerer, um vagal intelectual quarentão que queria porque queria consumar sua obsessão sexual pelo garoto, a quem conhecia desde os 11 anos.

Carr jogou o corpo de Kammerer no rio Hudson e em seguida procurou Burroughs, então com 30, e Kerouac, 22, para se confessar. Depois entregou-se à polícia – que chamou a dupla para depor como testemunha. Matriculado na Universidade de Columbia, Carr havia apresentado Kerouac a Ginsberg (na época com 18 anos), que passaram pelo mesmo campus; já Kammerer tinha sido colega (e amante) de Burroughs quando estudaram em Sant Louis.

O crime detonou os primeiros escritos da trindade. Ginsberg escreveu poemas e peças autobiográficas; Burroughs e Kerouac, esta novela (170 págs.) em capítulos alternados, recusado por inúmeras editoras até que fosse enterrado sob as tábuas do assoalho da casa do autor de On the road, esquecido por décadas e proibido pelos autores de vir à tona até a morte de Carr – afinal, o Rimbaud de boteco se tornaria anos depois o poderoso diretor de jornalismo da United Press International.

Aparentemente mais um item no extenso parque temático beatnik, o pequeno romance é realmente bom. Vale sobretudo pela combustão espontânea, a narrativa adrenalinada, os diálogos espertos e a convulsiva descrição da Nova York dos anos 1940. Já estão aí a volúpia descritiva, a busca pelo êxtase profano/religioso e o doloroso sentimento de exílio característicos do melhor Kerouac. E impressiona como, bem antes de Junky e Almoço nu, o sarcasmo e a mirada suspeita de Burroughs surgem com personalidade – até em procedimentos próximos ao cut-up, técnica que aproxima violentamente fragmentos narrativos usada com maestria em narrativas como The Soft Machine (infelizmente nunca traduzida no Brasil).

O pré cut-up explica o título: “E os hipopótamos…” é frase que a dupla ouviu em um bar, proferida por um locutor de rádio ao narrar um incêndio em um zoológico. Carr, Ginsberg, Kerouac e Burroughs mortos hoje, o livro demonstra como um crime pode projetar uma sombra criadora sobre um grupo de escritores – para quem “um incêndio no zoológico” seria definição exata.

Pós-escrito

Se Hipopótamos seria o Gênesis beat, Visões de Cody vale por todo um Pentateuco para Kerouac – e também só foi publicado após sua morte. Ninguém melhor que o próprio autor para apresentá-lo: “Minha obra encerra um livro de vastas proporções como o Em busca do tempo perdido, de Proust, com a diferença que as minhas memórias são escritas na corrida em vez de mais tarde doente numa cama”.

Verdade: o retrato em 600 páginas do muso Neal Cassady, fora-da-lei essencial cujo jeito de falar rápido, engolindo as palavras, iluminou a escrita beat – ao lado do hard bop, das anfetaminas e das viagens incessantes –, é também um livro de memórias prolixamente detalhadas e um grandioso hino aos Estados Unidos dos caçadores de aventura.

A história? Uma reedição dos fatos de On the road, vistos sob novos ângulos, contando até com tediosas trascrições e recriações de conversas entre Keroauc e Cassady. Sem começo, meio ou fim precisos, os longos fluxos de consciência de Cody são parentes da action paiting de Jackson Pollock e das invenções poéticas e jogos sonoros de James Joyce.

Considerada a magnum opus de Kerouac, não é narrativa fácil (embora tenha sido traduzida com excelência por Guilherme da Silva Braga). Perto da ligeireza de Hipopótamos e da velocidade de On the road, Cody me parece sinceramente um pé no saco: os fanáticos que me desculpem, mas dá pra cortar umas 300 páginas na boa, não iriam fazer falta (falta fez sim um editor). A geração beat criou toda uma mitologia hoje transformada em um frenético supermercado a lançar leituras dispensáveis – sem falar nas dezenas de biografias, livros de fotografias e reedições louvadas como se fossem a salvação da literatura. Um olhar crítico não faria mal.

Acompanham a edição de Cody um divertido prefácio de Eduardo Bueno, tradutor de On the road, e um esclarecedor posfácio de Allen Ginsberg, “Visões do grande rememorador”. Com este, Hipopótamos e Geração Beat, o leitor dispõe de combustível suficiente para uma viagem beatnik – isso se não puser o pé na estrada antes de virar a próxima página.



Famoso também é gente
1, 27, Maio, 2009, 10:08 pm
Arquivado em: livros, mundo real


Siamese twins, de Alla Tkachuk

Siamese twins, de Alla Tkachuk

Saiu o Inverdades, do André Sant’Anna, o gênio da burrice. Mestre em pegar assuntos complexos e ir reduzindo à migalha, André tricota personagens até se transformarem em estereótipos, estereótipos se tornarem signos, signos virarem meros ritmos. Binária, sua literatura quebra comportamentos requintados com equações de primeiro grau, provando que, apesar de toda nossa empáfia, ainda somos uns símios.

‘A letra do samba-enredo da escola de pequeno porte contava a história, a vida e a obra do acadêmico Paulo Coelho.’

Esse livro de contos do André é provavelmente sua obra mais engraçada, que é outra coisa que ele prova: o texto mais experimental pode ser o mais hilário. A idéia simples por trás dos 15 contos é pegar personagens da ‘vida real’ – na real ex-humanos que viraram convenções em carne e osso, fantasmas de reality show – e observá-los por um olhar situacionista, sem alarde nem ênfase.

‘Todo sábado, depois da feira, depois da xepa, depois de vender o último tomate, o Ronaldo ia jogar uma pelada lá no campinho do parque. O Ronaldo jogava razoavelmente, mesmo sendo meio gordinho.’

Essa banalidade do real lembra o mal-estar causado por obras como as do pintor Alla Tkachuk . Dá vontade de rir dos ditadores em action paintings, mas também dá um certo estranhamento. É o que rola no triste “Gases”, que narra o problema que Nelson Rodrigues tinha com a flatulência. Ou “Lula, lá, de novo”, contando a festinha da reeleição do Quase-Cinco [nome de guerra do presidente entre os amigos de sindicalismo].

‘Por volta da meia-noite, Duke Ellington deixou a cova e se sentou sobre o túmulo, observando a lápide vizinha, de Miles Davis.’

A lente da inverdade de André é dinâmica: ora imagina situações [como o papo de Miles com Duke no além], ora observa celebridades através de anônimos que poderiam ter sido famosos [como um peladeiro Ronaldo vidrado numa tal Daniela Cicarelli], ora recria cenas clássicas [os Beatles fumando um beck no Palácio de Buckingham, a festa em que Mick Jagger conheceu Luciana Gimenez, João Gilberto reclamando do som de um show em São Paulo].

‘No banheiro do palácio da rainha da Inglaterra:
- George, porra, passa o baseado.
- Peraí, acabei de acender.
- Vai logo, senão chega o guarda.
- Deixa de ser paranóico, John. Daqui a pouco você vai ser Lord Lennon.’

Outro procedimento é o do ‘e se…?’. Aí saem peças como a carta de despedida de Sandy, o monólogo de Bush bêbado num pub inglês, o desfile medíocre da sociedade brasileira assistindo a um medíocre desfile de carnaval. [Estas saíram na Trip - e o publisher volta e meia pedia um corte no texto do André, pra não chatear algum amigo...] Minhas favoritas são o angustiado retrato de Charlie Parker – ou ‘O perseguidor’ de Cortázar para crianças freaks – e o relato da morte de Jimi Hendrix; bons de doer.

‘Jimi estava muito cansado e queria voltar pra casa. Mas toda noite era assim. Alguém estava sempre arrastando Jimi pro mau caminho.’

Agrippinamente, André devolve a condição de ‘reais’ aos famosos: a glória, sabe-se, oferece ao afamado o efeito colateral de envernizá-lo com fantasia, arrancando sua condição humana. Ao dedurar a estupidez atávica aos ícones pop com lógica cruelmente infantil e linguagem de tia fofoqueira, André faz com que o leitor ria e chore com esses seres falsos. Meio que pensando: poxa, coitados… famoso também é gente.



Chinese do it better
1, 26, Maio, 2009, 4:24 pm
Arquivado em: filmes



Os pudicos americanos, os exagerados nórdicos e os bregas brasileiros precisam aprender com esse chinês a filmar uma foda de verdade. As cenas de sexo dirigidas por Ang Lee não são um mero desfile de corpos bonitos sob uma trilha envolvente e sinuosos movimentos de câmera. Como nesse maravilhoso Lust, Caution, as seqüências entre a espiã e o carrasco tratam de poder, confiança, conspiração, compaixão, medo. Às vezes, o nome disso tudo é amor. Às vezes, só representação. Mas o que divide uma coisa da outra?



Mestre é o mundo
1, 20, Maio, 2009, 7:08 pm
Arquivado em: perfis, periodismo, som na caixa


>>> Perfil do amigo de Nazaré da Mata para a Vida Simples

Da zona da mata pernambucana ele engendra o novo do velho. Depois de arcaizar o manguebit com o Mestre Ambrósio, o guitarrista, rabequeiro e cantor Siba reinventou-se na Fuloresta do Samba e agora repensa a viola sertaneja no belo álbum Cordas de Bronze. Próximo passo? Embebedar o rock com cana-de-açúcar

siba

Tudo começa com um assovio. O assovio do pai, seu Luiz, sujeito surgido num lugar chamado Olho d’Água de Dentro, Pernambuco fronteira com Alagoas. O assovio do seu Luiz ecoando pela casa canções de Luiz Gonzaga tecia a atmosfera da infância de Siba, dito mestre. “Mas não sou mestre; não fiz mestrado, só licenciatura”, ri o recifense de 40 anos. “Prefiro chamar os outros de mestre. Mestre é o mundo.”

Seja: do assovio do pai à flauta na escola, quase uma década. Vivia um mundo duplo – a folia da cosmopolita Mauricéia, cidade onde todo mundo é músico, e o mundo arcaico familiar, do pai advogado assoviador, da mãe professora e pintora, dos avós boiadeiros e aboiadores, chegados num canto de viola. Lá pros 14, Siba descobriu Jimi Hendrix, Cream, Led Zeppelin, Black Sabbath. Descolou uma SG gêmea da guitarra de Angus Young, do AC/DC, e o cabelo cresceu. Já lhe interessavam os riffs exatos e o poderio de uma banda, mais que o fraseado rebuscado ou a farofa do espetáculo roqueiro. “Gostava e gosto de hard rock, mas me sentia deslocado nesse meio”, recorda. “Fui percebendo que, só partindo de minhas referências, não chegaria ao nível daqueles caras”, reconhece.

Os tiozinhos de camisas pretas que me perdoem, mas heavy metal é uma fase na vida. Siba soube. Ao mesmo tempo em que foi estudar música na Universidade Federal, um acontecimento singular limitou a separação dos heróis da guitarra e a chegança dos forró heroes: a morte de Luiz Gonzaga. “Não digo que tenha sido um clarão que me iluminou… mas, observando aquela comoção toda em Pernambuco, senti que ali devia haver um caminho para outra coisa”, lembra. Mais tarde, já com vinte anos, outro marco nesse desvio de prumo foi a visita ao Chã de Cambará, sede do Estrela Brilhante, grupo de maracatu de baque virado chefiado por Mestre Batista em Aliança, cidade vizinha a Nazaré da Mata.

Levou-o John Murphy, etnomusicólogo da Universidade do Texas, autor de A performance do cavalo-marinho. Pois é: foi um gringo que o botou em contato com os próprios vizinhos. “Ali atravessei uma noite e descobri artistas em que reconheci as qualidades dos meus heróis do rock: o carisma cultivado, a confiança no próprio valor em relação ao público… De repente percebi que havia um centro do mundo perto de casa!” Estava aberta a trilha para que o guitarrista fuçasse outro instrumento: a rabeca.

Roqueiro rabequeiro
A rabeca é central no cavalo-marinho, folguedo clássico pernambucano que Siba desvendou nessa época. “Fui sortudo por ter um mestre rabequeiro, seu Luiz Paixão. Nesse universo da mata, a rabeca foi minha porta de entrada, porque estudava instrumento de corda mas ainda não cantava.” Embora Siba seja dos raros frontmen a tocar o rude violino, recusa-se a levar o peso de inspirador para jovens rabequeiros. “Antonio Nóbrega deu uma contribuição grande, e José Eduardo Gramani, professor da Unicamp, também trouxe novo olhar sobre a rabeca no início dos 90.”

Liderando o Mestre Ambrósio, Siba é legítimo espécime surgido do último movimento cultural no país: o manguebeat, ou manguebit, geração em cuja linha de frente formavam Chico Science e Fred Zero Quatro. Ao contrário do rock nacional dos 80, que se apoiava no rock anglo-saxão e recusava se identificar à musicalidade brasileira, a “geração sem sobrenome” propunha cavar um espaço distante tanto dos medalhões do rock e da MPB quanto da música comercial, baseada no sertanejo, no pagode e no axé music. De novo, no entanto, o mestre confunde pra explicar.

“No começo dos 90 começou-se a ouvir de novo música brasileira”, lembra. “Já se havia reabituado o ouvido com a língua portuguesa, as rádios tocavam o som nacional – ao contrário dos 80, quando parecia que a gente vivia noutro país. Era um prelúdio da globalização, uma reação àquela padronização da música anglo-saxônica. Assim, de certo modo, o axé e o sertanejo comercial prepararam o terreno para o manguebeat. Aliás, poucos lembram, mas a banda que originou a Nação Zumbi, o Lamento Negro, era mais próxima do samba-reggae que do maracatu”, ensina.

Como Science, nessa época Siba se interessava por jazz e afrobeat. Na expressão elétrica africana, que lia o som de raiz através da estética do rock urbano, pressentiu um atalho para potencializar o forró de pé-de-serra, a ciranda, o cavalo-marinho, o coco, os maracatus de baque virado e de baque solto. Ao lado de Helder Vasconcelos, Mazinho Lima, Eder O Rocha, Maurício Alves e Sérgio Cassiano fundou o Mestre Ambrósio.

Uma das primeiras bandas a assinar com uma multinacional, a Sony, assediada tanto pela onda do forró universitário quanto pelos roqueiros indies, foi um dos grupos mais populares do manguebeat. Durou quase uma década. A estética de longo alcance do movimento não chegou a atingir em cheio o povão. Ao mesmo tempo, no fim dos 90 o mercado mundial se modificava – as grandes gravadoras murcharam, as vendagens de discos miaram e o mp3 vingou: o CD passou a ser meio, não fim.

Toda essa metamorfose não chegou a atingir um artista inquieto como Siba. “Artistas do meu tamanho, nem grande nem pequeno, não ficam à vontade em um só formato.” Um combo incomum como o Mestre Ambrósio não se conformava às imposições burocráticas de uma multinacional. Ao mesmo tempo, a pluralidade de interesses de cada um dos seis implodiu a banda. Três álbuns depois, em 2002, separaram-se – “importante frisar que ninguém brigou”, coloca. “Mesmo assim, não acredito em volta. A não ser que fosse um show comemorativo.”

Com o fim do grupo, encerrava-se também a temporada de sete anos de Siba em São Paulo. Na música “Sêmen” ele cantava: “Como posso saber de onde eu venho/ se a semente profunda eu não toquei?”. Mudou-se de rabeca e cuia para Nazaré da Mata. Ali nascia a Fuloresta do Samba, grupo formado por velhos maracatuzeiros e cirandeiros da região.

“Entendi que havia uma mensagem forte dos meus avós e meus pais tornando diferente minha referência musical em relação ao mundo. Daí quis trabalhar com esses músicos de rua, que não tinham nada a ver com palco ou estúdio. Precisava colocar minha vida nisso! Só agora sinto amadurecer uma parceria profunda com esses companheiros de tradição. Claro, nunca se pode alcançar a semente… a gente é sempre a resemente”, rima.

“A relação de Siba com os brincantes de cavalo-marinho e maracatu-rural, para citar dois estilos que conhece como poucos, não é demagógica, nem paternalista, nem condescendente, nem deslumbrada”, apresenta o antropólogo Hermano Vianna. “É claro que ele respeita seus mestres, mas os mestres também o respeitam, não apenas como discípulo aplicado, e sim como mestre (de outras novas brincadeiras) também. Os dois lados da relação permanecem diferentes – e é porque são diferentes que têm algo de interessante para dizer um para o outro –, mas o contato é de igual para igual”, conclui.

A idéia era partir de uma gramática musical específica: percussão, metais, que respondem à pergunta da voz; daí agregar outros metais para compor uma paleta sonora mais expressiva. “Sempre com o foco na música direta”, diz Siba. “Pra cantar pra um público semianalfabeto, precisei chegar a uma linguagem profunda, mas simples – foi das conquistas que mais comemorei. É música pra dançar, precisa ser um soco no nariz: como um riff de rock”. Assim ele explica sua busca pelo básico – que não prescinde de pérolas como a faixa-título, “Toda vez que dou um passo, o mundo sai do lugar”, a composição favorita.

Hoje Siba divide seu tempo entre o bairro do Poço da Panela, bairro boêmio encravado em Casa Forte, Recife, e a comunidade de Nazaré da Mata, com esporádicas vindas a São Paulo ou a São Luís – onde mora o filho de três anos, Vicente, de quem mata as saudades diárias via Skype. Nas horas de folga, se enfia nos livros: leitor de João Cabral (“do Cabral mais cerebral, menos oral”, sublinha), volta e meia volta a Homero, mas agora está focado nos poemas de Jorge Luis Borges e nos artigos do antropólogo Viveiros de Castro.

Bicho caseiro, se não rala na estrada, pára no casulo. “Minha rotina é igual à de todos: sou meu próprio empresário. Parte da tarde passo em celular e computador; manhã e noite é pra criação. Acham que eu viro noite tocando maracatu, escrevendo verso na rede..”, ri. E pra quem pensa que viver rodeado de cana dá inspiração… “Não bebo muito; gosto de um conhaque antes do palco, tomo uma cachacinha, mas não sou farrista profissional”, esquiva-se – a única iguaria que o tira do sério é o ensopado de tatu preparado por dona Maria, mulher do parceiro Biu Roque, seu “padrinho-afilhado” na Fuloresta.

Seqüestraram a tradição?
Fato é que, quanto mais longe Siba bebe na tradição, mais moderno ele fica. Como se observa nos paradoxais versos da canção “Big Brother mental”, parceria com Roberto Corrêa: “Pergunto a todo momento/ será que meu pensamento/ vem de mim mesmo ou de fora?/ Num museu abandonado/ minha memória se esconde/ guardando não sei onde /tudo o que fiz no passado/ e o meu cérebro lotado/ de TV e de internet/ está clicando delete/ para apagar os arquivos/ que guardam os quadros mais vivos/ do meu tempo de pivete”.

Para quem já viu Siba rimar sem parar por mais de cinco horas seguidas – nos lendários desafios carnavalescos, quando seu Boi da Gurita Seca briga com o Boi do Cupim de Maciel Salustiano –, difícil crer que o mestre tenha algum problema na memória. “Ôxi! Claro que sim. A gente lida com informação demais o tempo todo, muito aparato fora do corpo, vai perdendo o uso. Agora, se um dia eu esquecer das minhas letras, tô lascado!”

Há sete anos Siba troca idéia com Corrêa. O primeiro álbum a juntar a viola de cocho e a viola caipira do mineiro com a rabeca e a viola elétrica de sete cordas do pernambucano chegou em 2009, com canções intimistas e temas instrumentais que tocam, numa prosa metafísica afeita a Guimarães Rosa (inclusive nos neologismos como “desentrevendo”), tanto temas da terra e do tempo quanto da busca pela poesia. Contudo, a caça à tradição não tem nada a ver com a repisada palavra “resgate”.

“Não acho que seqüestraram a tradição não!”, brinca o mestre. “Isso tem a ver com o jeito do brasileiro se ver. Transferimos à cultura a relação hierárquica: assim, tudo que lembra traços rurais é colocado em patamar inferior. Isso impede que as pessoas reconheçam o valor das coisas próximas”, analisa. Para 2010, está tramando com Fernando Catatau, da banda Cidadão Instigado, o projeto de um power trio de rock – ele seria o guitarrista, Catatau o baixista. “A idéia é aglomerar os músicos da Fuloresta ao redor desse power trio, criando uma dinâmica de rock. Tenho focado bastante nisso…”, segreda Siba, que aponta como show inesquecível uma apresentação no carnaval de 2009 em que à Fuloresta agregou-se o peso da Nação Zumbi.

E soma: “Engraçado como tantos no Brasil conhecem detalhes da história do blues, do rock, mas de nossas próprias músicas ninguém quer saber… Não se começa de fora da tradição. Nem que seja da tradição de quebrar a tradição. Entendo tradição como um gosto compartilhado – e certo sentido de espaço, tempo e história nessa escolha. Você pode olhar a tradição de duas maneiras: ou avançar negando, como no próprio rock; ou, na nossa tradição aqui, em que a retomada é constante, aguçando o sentido do passado para atualizar o presente”.

Tem jeito não, a aura de professor-menino de chapeuzinho é dura de dissolver. Nem quando se toca no assunto do imponderável da poesia. “Uma das coisas que herdei da família foi a concepção do poeta como ser sobrenatural”, recorda este fã do personagem Zé Limeira, poeta do absurdo reinventado por Orlando Tejo.

“A poesia improvisada era tida como outro mundo, mágica, superior. Aos poucos, passei a ver como ofício. Claro, existe o mistério da criatividade, incontrolável. Só que esses momentos acontecem com a prática constante. Tem um momento que não é prática nem técnica. Isso está em todo tipo de arte que implica na realização de um instante: existe esse tempo antes, da reflexão, do suor. A magia só não explica; só a técnica, também não. É questão de sintonizar lá dentro as duas coisas”, sugere o elegante professor, sempre com ar de príncipe tímido.

Tímido como o apelido, Siba. Que é apelido de apelido: vem de “sibito baleado”, gíria nordestina pra um cabra magro, parecido a um sibito – pássaro bem pequeno, que solta um pio ossudo tipo um assovio de vento. “Melhor Siba que ser conhecido por Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, já pensasse?”. Não disse que tudo começa com um assovio?