O último cacique

Orlando, Leonardo e Cláudio Villas-Bôas

Acabei de ver Xingu, de Cao Hamburger, belo filme sobre a odisseia de três irmãos rumo ao Brasil Profundo. A produção tem alguns esquematismos, certa solenidade e peca um pouco nos diálogos, mas os atores são convincentes, a fotografia é excepcional e a narrativa emociona em vários momentos – como no primeiro contato dos Villas Bôas com os indígenas e na emblemática cena final. Pena que o filme esteja indo mal das bilheterias, porque é muito mais criativo – e necessário – que boa parte das produções em cartaz. À saída, lembrei que fiz, para a revista MIT, a última entrevista com o líder do trio, Orlando Villas Bôas, que aos 88 anos escrevia sua autobiografia. A história de um homem que viveu um dos últimos descobrimentos do Brasil: o do índio

Você tem 30 anos e um emprego bem mais ou menos numa multinacional. Divide um quarto de pensão com os irmãos que, como você, vindos do interior paulista, não se acostumaram a morar encaixotados na capital. A Segunda Guerra está quase no fim; a Europa, destruída, não sopra para você o menor glamour; os EUA se tornam a maior potência do Ocidente e voltam seus olhos gulosos para o mundo inteiro – inclusive para o Brasil, cheio de áreas ainda não exploradas. Por aqui, o país vive uma febre desenvolvimentista.

Mas você não está interessado em subir na vida, não quer saber de progresso, não está nem aí para a civilização, para mulheres, iates, automóveis. Procura o que, em 1943, ainda não era artigo raro: aventura. Fica sabendo que há uma expedição chamada Roncador-Xingu, que pretende conquistar o Brasil Central. Você sonhava em ser um herói. Mas não sabia ainda de que tipo.

Quando os jornais anunciaram que estava sendo organizada uma expedição ao Xingu, me apresentei ao coronel Vanique e disse que gostaria de participar”, conta Orlando Villas Bôas, 88, paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, à Mitsubishi Revista. Lentamente, às vezes parando para ganhar fôlego – acaba de passar por delicada cirurgia –, ele relata: “O coronel disse que não queria gente da cidade. ‘Analfabeto tem mais resistência’, falou. Mesmo assim, deixamos nossos empregos: eu trabalhava na Esso; o Cláudio na telefônica e o Leonardo em uma importadora. Deixamos crescer também a barba, praticamos bastante falar errado e fomos para Barra do Garça, margens do Araguaia, Goiás, onde nos apresentamos como analfabetos. Fomos contratados na hora, como peões. Tudo estava numa bananosa, ninguém organizava nada. Um dia um piloto atolou o avião no campo e nos chamou para ajudar. Conversa vai, atola, desatola, viram que não éramos analfabetos. No dia seguinte virei secretário da base, Cláudio chefe do pessoal e Leonardo chefe do almoxarifado.

A MAJESTADE DO XINGU

Aweti, ikpeng, juruna, kalapalo, kamayurá, kayabi, kayapó, kuikuro, matipu, mehinaku, nahukwá, suyá, trumai, waurá, yawalapiti. Antes dos irmãos Villas Bôas, esses nomes não significavam nada. Ao contrário: as tribos do Xingu simbolizavam obstáculos ao progresso pretendido pelo governo Vargas. A expedição Roncador-Xingu, de cunho militar, propunha ganhar toda aquela área – nem que na marra. Quando nota que os militares forçariam a barra – cada soldado levava um mosquetão de 50 tiros, para limpar o caminho –, Orlando escreve ao Marechal Rondon expondo a doutrina Villas Bôas: se o índio não poderia ser integrado, ser desintegrado era um absurdo. Rondon, ele próprio descendente de índios terenos, mexe seus pauzinhos, e logo os Villas Bôas são destacados comandantes da missão Xingu.

Breve, os índios começam a ser conhecidos de verdade. “Não como os comanches de filme, não os índios dos blocos de carnaval, não os comportados índios que aparecem no quadro da primeira missa” – conforme escreve Moacyr Scliar em seu A Majestade do Xingu: “nus, o corpo pintado, penas de pássaro e batoques atravessados nas orelhas, no nariz, nos beiços, são criaturas da natureza, em harmonia com o cenário”.

Por 32 anos, os irmãos irão demonstrar que, se alguém ali destoa do cenário, são os brancos. Assim é que eles ensinam os rudes sertanejos, cooptados do garimpo para a empreitada – alguns com 15 mortes nas costas – a abaixarem armas e até mesmo correrem risco de vida para demarcarem as terras indígenas. (Na época, muitos grileiros espalhavam roupas contaminadas com varíola para erradicar os índios mais rápido.) Antes mesmo do primeiro contato com seus anfitriões, os Villas Bôas intuem que estão em propriedade particular. Este respeito ao espaço territorial nativo é que fará o sucesso da expedição, conforme Orlando conta, em tantas histórias.

Em 1953, voltamos a procurar os hostis txukarramães. Fomos encontrá-los à margem esquerda do Xingu, uns quatrocentos. Levamos presentes, mas poucos para as mulheres – raramente participam do primeiro contato. Como não trouxemos muitos presentes para elas, brigaram com os maridos e foram para a mata. Os homens ficaram nervosos e pediram que chamássemos as mulheres. À noite, sob violento temporal, começaram a gritar. Vinte txukarramães apareceram com bordunas amarradas às costas, sérios, pintados de preto, para a guerra. Cerca de cem homens com tochas acesas nas mãos. Disseram que as mulheres estavam bravas e tinham ido embora, ordenaram que fôssemos chamá-las. Um deles me enfiou uma borduna na barriga e gritou: ‘Kubenkridi abakobim’ (‘Matem os brancos’)…

Comecei a gritar na língua txukarramãe: ‘Mulheres voltem. Não somos bravos. Trazemos presentes’ (‘Menire memboi. Kubencrid maitire’). De repente, chegou uma velha. Silêncio. Os índios guardaram as bordunas e abriram o círculo, alguém acendeu o fogo. A velha cuspiu na mão e passou no meu rosto, para espantar maus espíritos. Aí, afastou-se, voltou com as mulheres, 228 ao todo, que exigiram que nos soltassem. Só voltamos à aldeia três meses depois. E, desta vez, levamos muitos presentes para elas. Com mulher txukarramãe não se brinca”.

BANQUETE SERTANEJO

A cada 150 quilômetros devem se abertos campos de pouso para os aviões. São mais de 3 mil quilômetros pelo sertão, até o sul do Pará. Uma picada na serra do Roncador leva 11 meses para ser aberta. “Andar três quilômetros por dia já era excelente. Os xavantes hostilizavam a tropa, espantavam os burros… Tivemos 18 escaramuças com os xavantes, os mais bravos. Nos livramos bem, não demos um tiro. Quando a coisa era séria, atirávamos para cima.” Comem peixe e caça: anta, capivara, porco do mato. “Éramos uma expedição muito pobre. Um dia os homens não quiseram sair da rede, estavam com saudade de arroz – há dias que só comíamos macaco.

Durante a expedição que criou 65 cidades e travou contato com mais de 100 tribos, apoiados pelo antropólogo Darcy Ribeiro e o sanitarista Noel Nutels (que erradicou dali a varíola), os irmãos fundam a Funai e o Parque Nacional do Xingu, preservando culturas antigas. São indicados ao prêmio Nobel da Paz, em 1971 e 1976: mais que impedir que a civilização engolisse a culturas indígena, pacificaram as nações em guerra há dezenas de anos.

O Parque do Xingu hoje abrange mais de 2,8 milhões de hectares – França e Inglaterra juntas – e localiza-se no norte do Mato Grosso, numa região de transição entre o Planalto Central e a Amazônia. Em suas terras vivem 17 nações, quatro mil pessoas. A proposta dos Villas Bôas proporcionou aos índios a possibilidade de se preparem adequadamente para um processo que nunca deixou de ser visto como inevitável – a integração.

QUARUP

Depois de 32 anos na selva, fluente em sete línguas e quatro dialetos indígenas, Orlando volta a São Paulo para colocar na escola os filhos Orlando Filho, advogado, 30, e o filósofo Noel, 26 (homenagem ao sanitarista Noel Nutels, protagonista do livro de Scliar). Só retorna ao Xingu em 1998, para assistir ao Quarup – cerimônia da passagem deste mundo para a “aldeia das estrelas” –, feito em homenagem a Cláudio, falecido em 1998, e Álvaro (ex-presidente da Funai), em 1996 (Leonardo havia morrido em 1961). “Cláudio e Álvaro eram mais jovens, não deveriam ter morrido antes de mim”, lamentou ele durante o maior Quarup já realizado para brancos, contando com a presença de 3 mil índios de 13 diferentes tribos.

Hoje, em sua casa no Alto da Lapa, em São Paulo, recuperando-se de uma internação em fevereiro de 2002, Orlando acompanha firme as discussões em torno da ocupação da Amazônia, como conta sua esposa Marina Villas Bôas, 64, companheira desde quando foi, aos 26, ser enfermeira no Xingu: “Essa casa nunca pára, o telefone toca o dia inteiro”. Para Orlando, “a onda do politicamente ecológico é piada. Não existe exploração de madeira da Amazônia mediante contratos de risco. Se o Brasil não abrir os olhos, vão desmatar tudo”, adverte, exaltado, para arrematar, sempre apaixonado: “Por que essa concorrência desenfreada com os primeiros donos da terra?”.

UM HERÓI BRASILEIRO

Para um homem que sempre foi um aventureiro brigador, como é se aposentar deste mundo que desaparece – o mundo dos descobridores? “Vontade de voltar ao Xingu não falta. Mas tenho muito cansaço, isso me aborrece. Os médicos dizem que passa… Sempre fui tão ativo. Hoje sou um velho de 88 anos com uma saudade imensa do sertão. Só espero chegar à idade avançada sem ficar senil. Entre os índios não há velhos caducos: quando eles percebem que a degradação se aproxima e vão depender de alguém, abreviam a morte. Ainda não desisti. Só me aborrece não ter implantado uma política para proteger o índio.

O fotógrafo Pedro Martinelli, que clicou a expedição no início dos 70, o vê como “um herói brasileiro”. De certa forma, Orlando personifica o ideal brasileiro de heroísmo: cordial, o cara que resolve as paradas na conversa, sem precisar atirar. Atualmente ele resume as lembranças de mais de meio século de aventuras em uma autobiografia – mais um livro para fazer companhia aos outros 12 que publicou, em parceria com Cláudio. Recentemente, Orlando teve a idéia de se lançar à Academia Brasileira de Letras. No entanto, com a saúde um pouco mais frágil – não se esqueça de que esse homem venceu 287 malárias –, teve de se candidatar a uma vaga na UTI do Incor, deixando a ABL para lá.

A imortalidade dos brancos pode esperar. Para os índios, você, Orlando, já é eterno.

Um vinho com Samico


Samico na cozinha de seu sobrado, em Olinda

Dono de uma arte extremamente pessoal, de contornos misteriosos, Gilvan Samico é o maior gravador brasileiro vivo. Mas só agora, aos 83 anos, o retraído pernambucano ganha um livro em que se revelam sua vida e obra singulares. Passamos uma tarde com o mestre em Olinda para a revista Personnalité e o resultado é este

Samico levanta um martelo e requisita meu smartphone: “Me dê essa desgraça, homem, me dê por favor, vou acabar com seu sofrimento!“, ordena. E solta uma gargalhada profunda: era a enésima vez que o aparelho desligava sozinho, interrompendo nossa conversa nele gravada. O smart Samico não tem sequer e-mail, detesta computador e só fala ao telefone amarrado. “Sou arcaico“, orgulha-se. Quando a reportagem bateu à sua porta – um sobrado de 300 anos vizinho ao Mosteiro de São Bento, em Olinda, Pernambuco –, esperava encontrar um ermitão. Relatava-se que o lendário gravador é muito tímido, não gosta de dar entrevistas e mal fala com a própria mulher. Quase tudo verdade, como o leitor saberá à frente.

Porém, talvez mais à vontade pelo fato de conhecer a fotógrafa Lia Lubambo desde “pirraia“, como dizem em pernambuquês, Samico abriu-se. A começar pela oficina em seu quintal, onde plaina e lixa as madeiras que usará em suas obras – ora reunidas, pela primeira vez em seus 83 anos e 60 de carreira, na classuda edição Samico (editora Bem-Te-Vi).

Está vendo essa madeira? É amarelo-cetim. Quase todas as matrizes são nela“, descreve, enquanto abotoa a camisa branca. Ele veste bermuda em tecido cru – e crocs cinzentos. “Pequiá-marfim eu também usava, só que entrou em extinção, só achei esse resto aqui num armazém, com prego e rachadura. Elas vêm da Amazônia. Só que agora o amarelo-cetim também entrou em extinção… Menina, vai cair daí!“, adverte a fotógrafa Lia, equilibrada num pé só sobre um degrau. “Rapaz… é muita muriçoca, né? Desculpe“, diz, estapeando-se, à caça dos terríveis mosquitinhos dos vastos quintais de Olinda.

'Constelação da Serpente', Samico

Samico também se orgulha de demonstrar: detém o controle total de sua produção. O processo passa pela invenção de enormes máquinas de impressão e dos próprios instrumentos (como uma goiva que não deixa que o fio da madeira enrole e encubra o desenho enquanto a superfície da placa é cortada) até a mistura da tinta (com pouco óleo, para aderir foscamente ao papel). Vai também da escolha e limpeza da madeira, passando pela ilustração – uma gravura pode resultar de cem desenhos diferentes, e cada desenho leva uns 20 dias –, à lenta aplicação das goivas e dos buris aos veios da peça; segue-se o tingimento de áreas da matriz, e, afinal, a gravação sobre uma folha de papel japonês de inalteráveis 1m por 60 cm.

Cada matriz multiplica-se em 120 exemplares, mais as 12 cópias do artista. O processo demora um ano, ou vários anos: o próprio Samico imprime exemplar por exemplar, nem todos de uma vez. Samico, que detesta a palavra “cópia”, diz que todo exemplar é único, tal como único é o preço para todas as obras – vendidas por ele mesmo: o artista é avesso a marchands ou galerias. Assim tem vivido – “e muito bem” – nos últimos 40 anos. Continue lendo

Ideia de jerico


Em 2012, a Corrida dos Jericos vai de 25 a 29 de abril. Ano passado acompanhei essa corrida delirante, movida a carrões tunados, sexo, drogas – e muita lama – para a revista Alfa. Em Rondônia, numa cidade chamada Alto Paraíso, a 200 km da capital Porto Velho. As fotos são de Anderson Schneider

“Um jerico bom, pisar fundo, largar na frente e ter estrela.” Esses são os preceitos de Sílvio Stédile para vencer a Corrida de Jericos de Alto Paraíso, um dos eventos mais impressionantes do noroeste do Brasil. Em Rondônia, um jerico não é apenas o filho do jumento com a égua, um bichinho estéril, animal de carga por excelência. Jericos são cruzamentos, sim, de peças de vários automóveis, resultando num veículo robusto, perfeito para carregar toras de madeira, principal riqueza da região.

E essa cidade de 17 mil habitantes virou a capital da jericolândia: por ali transitam 1500 desses animais motorizados. Muitos construídos por Stédile, vereador, dono de uma fábrica de jericos e um dos astros da corrida que aconteceu no último domingo de fevereiro de 2011, atraindo 50 mil pessoas. Essa espécie de F-1 amazônica, na verdade, é mero pretexto para a festa do sábado, que transforma a pequena Alto Paraíso num óbvio trocadilho.

“Inferno verde” é expressão nascida no livro homônimo do escritor pernambucano Alberto Rangel. Prefaciado por Euclides da Cunha, o obscuro clássico descreve como a natureza torna pouco fácil a vida do homem na Amazônia. O termo surge com intensidade quando se observa do avião as gigantescas extensões de árvores entrelaçadas que pareceriam infinitas não fossem interrompidas por rios, igarapés – e imensas porções de nada. Terrenos desmatados para o plantio de alimentos como soja (Rondônia é o maior produtor do país); para a extração de madeira (o Estado é recordista em extração ilegal) ou para a pecuária (exporta mais carne que o Rio Grande do Sul).

As notícias que vêm de Rondônia também não aliviam sua fama infernal. As manchetes vão das explosivas rebeliões no canteiro da hidrelétrica do Jirau, maior obra em progresso no país (R$ 13 bilhões), a crimes como o de Alto Alegre, em que um seringueiro teve as partes pudendas removidas no facão por um marido ciumento. “Tu vai ver o que é o piseiro, meu irmão!”, assim um conterrâneo recebe Alfa no aeroporto. Ressabiado, o repórter pergunta se o termo tem a ver com violência. Ele ri: piseiro quer dizer festa.

A coisa consiste em uma rave automobilística. Começa em ponto morto no mormacento meio-dia de sábado, engrena à tarde e acelera forte à noite, só estacionando depois da corrida de domingo. Já no almoço centenas de veículos paralisam a entrada de Alto Paraíso, todos com os alto-falantes trincando ao som de sertanejo, axé, funk, tecnobrega, forró e poperô. Pick-ups, SUVs, carros e motos chegam empoeirados à avenida principal – bem, só há mesmo uma avenida. A lama vermelha das picadas e terrenos desmatados se gruda nos pneus, nas latarias, nos sapatos, nas roupas, nos cabelos, na pele, se enfia sob as unhas, vira uma permanente nuvem que irrita olhos e gargantas. Continue lendo

Clico ou não clico?


Novo livro do escritor Nicholas Carr afirma que o mergulho intenso na rede muda crucialmente o funcionamento do nosso cérebro. Pensata-playground para a revista V, novamente com a parceria do jovem Fabio Cobiaco

A internet me deixou burro muito burro demais, cantaria Arnaldo Antunes se transpusesse para hoje o clássico titânico “Televisão”. É a leitura proposta pelo impactante A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros (Agir, 311 págs.). Escritor especializado em tecnologia e ciência, Carr colabora no jornal The New York Times e no blog Rough Type, entre várias publicações. Mas, para escrever seu livro, um dos best-sellers nos EUA em 2011 e finalista do Pulitzer, Carr desconectou-se. Cancelou a conta no Twitter, deixou em suspenso a página no Facebook, fechou o leitor RSS, restringiu o Skype e as mensagens instantâneas, e – o mais dolorido de tudo – desligou o e-mail durante o dia inteiro.

Por meses minhas sinapses clamavam pela sua dose de net“, ele contou, em entrevista à V (por e-mail). “Às vezes eu caía numa farra na web um dia todo, mas com o tempo a fissura cedeu.” Alguns velhos circuitos neurais pareciam ressuscitar, enquanto os mais novos, ligados à web, se acalmaram. “Comecei a me sentir menos como um rato apertando uma alavanca e mais como um ser humano; meu cérebro respirava de novo“, lembra o escritor.

Carr contemporiza que, como autônomo, pode se dar ao luxo de passar um tempo desconectado – mas a maioria das pessoas não tem esse privilégio em sua profissão. “Nos últimos anos a rede se tornou instrumento fundamental na vida social, acadêmica e profissional das pessoas. Entretanto, seu uso sadio e adaptativo pode dar lugar ao excesso e à falta de controle, gerando severos impactos na vida cotidiana de alguns usuários“, analisa o psiquiatra Daniel Spritzer, que intega o Grupo de Estudos de Adições Tecnológicas em Porto Alegre.

Pioneiro na pesquisa brasileira de DI – dependência em internet –, Spritzer explica que determinados comportamentos são potencialmente aditivos; bom exemplo é o envolvimento com jogos de azar. “Estas dependências comportamentais afetam áreas específicas do cérebro também afetadas no uso de drogas“, afirma. “Como numa dependência química, o dependente de internet ou jogos eletrônicos, por ter a necessidade de passar cada vez mais tempo em contato com o objeto do seu desejo, apresenta sintomas de abstinência emocionais e físicos se ficar privado dele. Vai hipervalorizar este comportamento em detrimento de outras situações e relacionamentos, antes considerados muito importantes na sua vida“, aponta Spritzer. Continue lendo

Um estrangeiro na legião


Hugo Pratt, na Argentina, em 1950

Criador do mítico personagem Corto Maltese, o italiano Hugo Pratt é homenageado com exposição em Paris que trata de suas obscuras ligações com… a maçonaria. Conheça esse verdadeiro herói dos quadrinhos, que viajou pelo mundo todo e deixou profundas marcas no Brasil. Um perfil escrito para a revista The President com o auxílio luxuoso do bróder Fabio Cobiaco – que desenhou uma HQ inédita protagonizando Pratt

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Quando você pensa em um desenhista de quadrinhos, imagina um sujeito que permanece horas ancorado à prancheta. A imagem é correta em 99% dos casos: grandes artistas da HQ levam um dia para desenhar apenas uma página, e pavimentam a existência com essa rotina. O 1% responde por nomes como Hugo Pratt – um globetrotter italiano que levou uma vida tão extraordinária quanto as aventuras que desenhou. Um ano após ser tema de grande exposição em Paris, a mesma cidade vê outra surpreendente mostra de seus trabalhos. Aberta de 15 de fevereiro a 15 de julho, Corto Maltese et les secrets de l’initiation: imaginaires et Franc-Maçonnerie à Venise autour d’Hugo Pratt apresenta peças inéditas e parte de seu fabuloso tesouro de mapas, objetos e livros de inspiração maçom.

Nascido em 1927 em Rímini, mesma cidade-natal de Fellini, Hugo Pratt herdou o misticismo da mãe, que tinha origem judaica e turca: Evelina Genero era estudiosa de ciências esotéricas, da cabala à cartomancia. Diversamente, o pai, Roland Pratt, um fascista de ascendência inglesa, era um homem prático, que, ao ser convocado em 1936 para lutar pela Itália na Etiópia (então Abissínia), largou mulher e filho em sua cosmopolita casa em Veneza. Hugo só foi morar na África no ano seguinte, e em 1941 o pai o forçou a se alistar nas hostes colonialistas.

O evento marcou sua vida, pois o jovem Pratt tomou contato não só com militares italianos como ingleses, etíopes, senegaleses e franceses – verdadeira legião estrangeira: o charme daqueles uniformes, quepes, cores e rostos diferentes está presente em toda sua obra. No entanto, desde cedo o fascínio pelas liturgias militares era sombreado pela tendência à deserção e ao individualismo. Nessa época começava a ler histórias de aventura e quadrinhos – em especial Terry e os Piratas, de Milton Caniff, hit da Era de Ouro dos gibis americanos.

Pratt pulou fora das forças coloniais em 1941, enquanto o pai se inscrevia na legião que combatia os independentistas. No fim daquele ano, Hugo e a mãe foram internados em um campo de prisioneiros civis, sob administração francesa; já o pai havia sido preso pelos ingleses e estava detido em um campo de concentração. No fim de 1942, no mesmo instante em que Hugo e a mãe eram levados à Itália em um navio da Cruz Vermelha, o pai de Pratt morria na cadeia, de um tumor no fígado.

De volta a Veneza, Hugo matriculou-se no colégio militar Città di Castello; em 1943, sentiu o chamado da aventura e, contaminado pela época confusa, se alistou na brigada Lupo, da efêmera República de Salò (nome do governo de Mussolini no território não conquistado pelos Aliados). Revoltada, a mãe foi puxar as orelhas do filho na caserna: após uma cena memorável, com direito a guardachuvada na testa do descerebrado adolescente, pressionou Hugo a voltar a Veneza.

Em 1944, tentando ganhar uma garota, Pratt se fazia passar por um piloto sul-africano quando foi preso por oficiais alemães, que o alistaram na Polícia Marítima – da qual escapou um mês depois. Numa reviravolta espetacular, em fevereiro de 1945 Pratt alcançava as forças aliadas. Bateu continência na 28a Brigada Garibaldina Ítalo-Iugoslava, depois no 8o regimento britânico e enfim, graças ao inglês fluente, na 5a Armada Americana. Em 24 de abril entrava em Veneza à frente das tropas aliadas – para as quais organizou um belo de um carnaval.

O fascistinha Pratt em Veneza; e com o papai na Etiópia

No armistício, Pratt editou com os artistas Mario Faustinelli e Dino Battaglia a revista Asso di Picche (Ás de Espadas), onde já desenhava profissionalmente. Em 1946 Pratt trabalhava no porto de Veneza e se divertia jogando na primeira divisão de rugby quando resolveu viajar para Roma com o vago propósito de se alistar na Legião Estrangeira – projeto que caiu no vazio. Em 1947 vagou por Áustria, Inglaterra e França; em Trieste, tentou embarcar clandestino para os EUA, mas a polícia o impediu e o devolveu a Veneza. Afinal, seu talento foi pescado pelo renomado editor Cesare Civita, da Editorial Abril argentina, e em 1949 Pratt partia para Buenos Aires, onde iria viver por treze anos.

A vida cisplatina foi determinante para a formação cultural de Pratt. Ali conheceu cartunistas como Hector Osterheld e os irmãos Del Castillo, além dos escritores Jorge Luis Borges, Rodolfo Walsh e Roberto Arlt, e músicos de tango e jazz, como Dizzy Gillespie, com quem terá longa amizade. O período portenho seria marcado por inúmeras confusões amorosas que redundaram em muitos trabalhos – e filhos. A primeira mulher foi Gucky Wogerer, iugoslava com que casou em Veneza em 1953 e teve os filhos Lucas e Marina. Gucky foi trocada pela assistente de Pratt, a alemã Gisela Dester – e esta, pela musa de Ann of the Jungle, a belga Anna Frogner, mãe de Silvina e Jonas.

Para pagar pensões e contas do lar e do bar, Pratt produzia alucinadamente. Ao acelerar o trabalho, seu traço vagou da precisão rigorosa do nanquim ao impressionismo gestual da aquarela, estilo iniciado com os Junglemen e os personagens Sgt. Kirk e Ernie Pike. Ao lado do também gigante dos quadrinhos Alberto Breccia, Pratt começou a dar aulas na Escuela Panamericana de Arte de Buenos Aires. Naquela atribulada década, sob desvarios amorosos, golpes militares e pesos desvalorizados, o desenho se tornou o único eixo da vida de Pratt. Quando a EPA abriu filial em São Paulo, Pratt veio passar vários meses no Brasil – onde geraria mais descendentes.

O Sgt. Kirk, um dos primeiros personagens de Pratt

Pressionado pela crise econômica, em 1959 Pratt foi viver em Londres, contratado pela editora Fleetway para escrever contos de guerra. Ali conheceu Patricia Frawley, uma americana de Wheeling, Virginia – a relação frutificará em uma de suas melhores obras, Wheeling. Em seguida, partiu em longa viagem pela Irlanda. Afinal juntos em Veneza, Pratt se casaria com Anne no religioso (ele ainda era civilmente casado com Gecky). Colaborou um tempo no Corriere dei Piccoli, mas, em 1963, decidiu voltar à Argentina. Em 1964, Pratt fez extensa jornada pelo Brasil – Mato Grosso, Bahia, Amazonas – seguindo a rota de Percy Harrison Fawcett, o explorador britânico que morreu em 1925 em busca de uma mítica cidade perdida no Amazonas.

Acabou vivendo um mês numa tribo de xavantes e, sortudo, o gringo descolou uma índia para chamar de sua – que lhe dará um filho, Tebocua, do qual só virá a saber tempos mais tarde. Na autobiografia autorizada O desejo de ser inútil, Pratt discorre sobre este curioso descendente.

Me comunicava com os xavantes através dos desenhos. Ficavam fascinados com minha mão, me faziam desenhar sem parar. Para compreendê-los, organizei um pequeno dicionário xavante. E até fiz parte de suas sociedades secretas! Os homens se reuniam e era suposto se ocuparem de magia – mas na verdade só ficavam sentados fumando. Quando perguntei que magia havia afinal naquilo, me explicaram que os ritos mágicos eram mero pretexto para ficarem sossegados, entre homens, longe das mulheres e das suas histórias. No fundo, era o mesmo princípio dos clubes da alta sociedade britânica: não havia tanta diferença entre um guerreiro xavante e um coronel do exército das Índias! Depois de um tempo, me integraram numa família. Havia tantas famílias quanto mulheres; os homens eram mais numerosos e, assim, praticavam a poliandria – uma mulher para quatro maridos. Foi assim que na Amazônia tive um filho. Hoje, Tebocua é um belo jovem cor de capuccino, olhos verdes. Quando ri, põe a mão na boca: entre os xavantes mostrar os dentes é sinal de agressividade. Uma vez lhe levei uma lata de anzóis, e seu negócio hoje vai tão bem que ficou rico: é um dos homens mais importantes da tribo.

Em 1964 Pratt reconheceu a paternidade de outras cinco crianças: Victoriana Aureliana Gloriana dos Santos, fruto de um caso com Doroteia dos Santos – uma filha-de-santo baiana –, e seus quatro primos. É por isso que em Salvador, além da professora de dança Gloriana dos Santos Pratt, você pode encontrar um Lincoln Pratt, um Wilson Pratt, um Washington Pratt…

Capa de L'Uomo del Sertao, em que Pratt detalha o ciclo de Lampião

Na Inglaterra, Pratt aprimorou a técnica de confrontar a rusticidade do nanquim à delicadeza da aquarela – malícia que levará à perfeição nos anos 80, na série Périples Imaginaires. Nos anos 60, seu estilo ainda transitava entre força e leveza – de um lado, a violência dos contrastes de preto e branco, os gráficos eficientes em ângulos agudos do nanquim; de outro, as formas evanescentes, os cenários transparentes e as cores fugidias da aquarela. Mas, ao lado da extraordinária habilidade no desenho, Pratt tinha um inusual talento em escrever argumentos originais, roteiros fluidos e diálogos espirituosos, bem-humorados. Em 1967, ao voltar à Itália, Pratt conheceu Florenzo Ivaldi, um editor genovês fissurado em fumetti (como se chamam os quadrinhos em italiano), que lhe deu carta branca para criar o que quisesse na revista Sgt. Kirk. Assim, na história A balada do Mar Salgado, Pratt deu à luz Corto Maltese.

Corto Maltese em Una Ballata del Mare Salato

Marinheiro nascido em La Valette, em Malta, 1887, filho de oficial inglês e cigana sevilhana, Corto mora em Antígua, nas Antilhas, mas sua residência oficial é Hong Kong. Estrangeiro na legião, Corto veste-se com apuro, usando referências navais de jeito casual: se o cigarro permanente lhe dá ar de dândi, o enorme brinco na orelha esquerda passa a pecha de pirata. Em aventuras densas de referências históricas, Corto cruza com personagens reais como os escritores Joseph Conrad, Jack London, James Joyce, Ernest Hemingway e Herman Hesse, o jornalista John Reed, o pistoleiro Butch Cassidy, o piloto alemão Barão Vermelho, o padre tarado russo Rasputin etc.

Lacônico, leal, simpático com os desfavorecidos, elegante e nada violento, Corto viveu a infância no bairro judeu de Córdoba, onde descobriu ter nascido sem a linha da vida; por isso, riscou com gilete uma linha na palma, significando determinar o próprio destino. Em Fábula de Veneza, Pratt pela primeira vez faz seu personagem navegar pelo imaginário franco-maçom – uma das muitas menções ao ocultismo, que aponta sua obra como uma das mais intrigantes da arte serial. Desde o início, Corto Maltese é um sucesso; superpremiada, a série teve suas 29 histórias traduzidas em dezenas de línguas e vendeu milhões de cópias pelo mundo, fazendo de Pratt um homem rico – ele foi um dos primeiros cartunistas a deter controle exclusivo dos direitos autorais.

Corto em aquarela, técnica dominada magistralmente por Pratt

Em fevereiro de 1969 Pratt viajou à Etiópia em busca do túmulo do pai, que achou em um pequeno cemitério próximo a Dire Dawa: mesmo lugar onde morreu o poeta francês Arthur Rimbaud. Prosseguiu viagem por Tanzânia e Quênia e, ao voltar à Europa, no fim de 1969, resolveu morar em Paris – onde colaborou na semanal Pif Gadget e desenhou os 21 episódios seguintes de Corto Maltese. Mas o cartunista beatnik não cedeu aos encantos da Cidade-Luz e, em 1970, foi ao Marrocos com o amigo desenhista Antonio de Rosa; em 1971, fez longa viagem pela Irlanda.

Em 1974 viajou para Wheeling, Virginia, EUA, a fim de receber a chave da cidade das mãos do prefeito, em homenagem à série homônima. Em 1976, viajou ao Canadá e em seguida à América Central. Dois anos depois, fez importante viagem à Angola: neste ano saem L’Uomo dei Caraibi, L’Uomo del Sertao e L’Uomo della Somalia, série encerrada em 1991 com L’Uomo del Grande Nord, mais tarde adaptada no cult movie Jesuit Joe.

Os anos seguintes foram de grande produção das séries Corto Maltese e Gli Scorpioni del Deserto, muitas ilustrações e diversas incursões por publicidade, rádio e TV – desenhou sobre carros de Fórmula 1, cartões de telefone, suas histórias foram cantadas por gente como Sergio Endrigo e Paolo Conte… Enfocado por inúmeros documentários na TV e no cinema, Hugo Pratt virou estrela pop, e até foi retratado pelo amigo Milo Manara na série HP e Giuseppe Bergman.

Corto em Uma Fábula de Veneza

Nos anos 1980 o bon vivant viajou por Irlanda, EUA e Canadá e, já estabelecido como um dos maiores mestres de HQ da história, deu-se ao luxo de apenas escrever o roteiro de Verão índio para a arte de Manara. Em 1984, após receber a Legião de Honra do governo francês, deixou Paris para se estabelecer na Suíça, em uma grande casa de Grandvaux, perto de Lausanne, onde afinal pôde alinhar os 35 mil livros de sua mítica biblioteca. Entre 1985 e 1995, fez inúmeras viagens por Somália, Patagônia, Djibouti, Canadá, ilha de Páscoa, Espanha, Samoa, ilha Cook, Nova Guiné, Austrália e Singapura: todos lugares em que ambientou aventuras em gibis e livros como Vento di terre lontane e Le pulci prenetanti.

O ocultismo, coadjuvante nas primeiras histórias, nas últimas se revelou tema central. A obra de Pratt fervilha de referências literárias, artísticas, cinematográficas, históricas e… maçônicas. Se a sociedade secreta está no fundo de Fábula de Veneza, a intriga de El Gaucho conta uma briga entre lojas maçônicas, e vemos em As Célticas uma cerimônia de iniciação maçom. Em 1994, na edição final de Wheeling, seu testamento maçônico, Pratt defende o humanismo e a superação de conflitos culturais, ilustradas pelo ritual iniciático de um indiano, baseado em um personagem histórico: trata-se de um iroquês chamado Thayendanegea que foi recebido entre os maçons londrinos em 1776. Vista em conjunto, a obra de Pratt é irrigada por choques e encontros com povos diversos e seus rituais: guaranis e xavantes sul-americanos, apaches e cherokees norte-americanos, sociedades pré-colombianas, tribos africanas, da Melanésia e de Nova Guiné.

Página de Wheeling

Na exposição ora em cartaz em Paris, os franco-maçons apresentam Pratt como irmão de Voltaire, Mozart, Goethe, Kipling e Casanova. A mostra tem pranchas originais de vários álbuns, entre eles Fábula de Veneza, aquarelas, e também o cordão de Pratt e dois de seus aventais maçônicos – entre eles o de grau de mestre secreto, ornado com um Z. Também podem ser vistas as máscaras africanas que o inspiraram em As Etíopes (Corto Maltese na África) e ainda uma espada maçônica imantada de história: havia sido roubada em 1924, durante o saque da Loja de Veneza pelas milícias de Mussolini… lideradas pelo próprio pai de Pratt.

Em 1994 se manifestaram os primeiros sinais do câncer no intestino e em 1995 Hugo Pratt escrevia sua última história, Morgan – uma aventura romântica durante a Segunda Guerra na Itália. O artista morreu em 20 de agosto de 1995, repousando agora no pequeno cemitério de Grandvaux. Após longo tempo mal publicadas no Brasil, as obras de Hugo Pratt passaram a ser editadas pela Nemo, que no final de 2011 lançou o enigmático episódio Juventude – em que Corto Maltese discute o conceito de honra com Jack London, Rasputin e um general japonês durante a guerra russo-japonesa.

Apesar de a editora prometer mais dois episódios para 2012, torcemos para que seja republicado um clássico do nosso ciclo do cangaço, Sob o Signo de Capricórnio, em que Corto encontra bandidos reais como Corisco de São Jorge e fictícios como Tiro Certeiro – curiosamente, esta história se transformou numa canção de Jorge Dü Peixe gravada pela Chico Science & Nação Zumbi. Aliás, para quem acompanhou as aventuras de Hugo Pratt, não seria surpresa nenhuma se, dia desses, o próprio Lampião fosse revelado como mestre maçom: conforme ensinou o criador de Corto Maltese, uma vida só é muito pouco.

Fiquem agora com a fina arte de Fabio Cobiaco.

Serpentário


Os cabos no quarto de despejos
são cobras em busca de conexão
perdida, de uma tomada elétrica
ou um plugue que as ressuscite

As cobras no quarto de desprezos
são feras que gemem, amargas:
onde as máquinas de antanho?
onde os gadgets do meu sertão?

As feras no quarto de espelhos
são plástico, cobre, fibra óptica,
aço, alumínio, borracha e vidro
enrolados em um sonho tétrico

em que transmitem a mensagem
capital, a narrativa dos desejos
perdidos outra vez para sempre
quando, sub-reptício, fecho a porta.

Old fashioned

Mr Cohen, na época em que era chamado de Capitão Mandrax

Com Old Ideas e o romance A Brincadeira Favorita, o perfeito cavalheiro do pop volta à cena. Perfil do estilo de Leonard Cohen para uma revista Alfa de antanho

Leonard Cohen concede uma entrevista no Mayfair Hotel de Nova York quando, de repente, no meio de uma frase, levanta-se, abre o cinto, desce o zíper, abaixa as calças, dobra-as cuidadosamente e acomoda-as no espaldar de uma cadeira. “O dia estava pegajoso e ele não queria amassar o vinco da calça”, conta Mikal Gilmore, um dos principais críticos de música norteamericanos. Mesmo de cueca, Cohen continua de jaquetão escuro, camisa branca engomada, gravata sóbria, meias e sapatos, desenvolvendo uma teoria séria e serena sobre o fim do mundo. Pouco antes, havia ligado para a recepção pedindo bebidas geladas e instalado Gilmore na poltrona mais confortável do quarto. A cena é uma síntese do temperamento do poeta, compositor e romancista canadense: equilíbrio sutil entre elegância, gentileza, nonsense — com uma melancolia inescrutável. “Há algo em Cohen que o diferencia de todos os outros artistas, escritores, filósofos e celebridades que encontrei”, diz Gilmore em Ponto Final, sua clássica compilação de perfis de personalidades dos anos 60. “O homem é um verdadeiro cavalheiro, cortês e atencioso, e é evidente que esses atributos lhe são naturais. Ele não se comporta assim só para passar boa impressão: essas qualidades lhe são inerentes e explicam como se conduz no mundo.”

Quando saiu de um monastério budista, em 2001, após seis anos de silêncio, Cohen descobriu que a antiga empresária havia deixado um rombo de milhões em sua conta. A solução foi voltar à ativa com os álbuns Ten New Songs e Dear Heather além de uma turnê de quase 300 shows — que rendeu o belo Live in London — só interrompida ano passado por exaustão. Apesar de zen, o velhote não pára de aparecer na mídia. Este ano é publicado no país o romance A Brincadeira Favorita (além deste, The Beautiful Losers, ainda sem título em português, também é prometido pela editora Cosac Naify), no fim de 2012 será lançada a biografia escrita por Sylvie Simmons (autora da bio de Serge Gainsbourg) e o novo álbum Old Ideas acaba de chegar.

Seu primeiro álbum de estúdio em oito anos flana por folk e blues e flerta com o jazz. “I’d like to speak with Leonard/ He’s a sportsman and a shepherd/ He’s a lazy bastard living in a suit.” (Gostaria de falar com Leonard/ Ele é um esportista e um pastor/ Ele é um bastardo preguiçoso vivendo em um terno), se detona em “Going Home”, que abre o disco. Alternando ironia com desilusão, ele diz em “Darkness“: “I got no future / I know my days are few” (“Não tenho futuro/ Eu sei que meus dias são poucos”). Continue lendo