Memória versus esquecimento


A última “invenção” de Steve Jobs, o iCloud, promete salvar toda a sua vida em rede. Quem precisa de tanta lembrança? Pra cada inventor que cria coisas como a infinita e-memory, como o cientista Gordon Bell, há quem afirme: o melhor caminho para pensar é esquecer – caso do escritor Joshua Foer e do professor Mayer-Schonberger (todos bebendo na fonte do memorável Borges). Pensata-playground para a revista V (também dá pra ler aqui, página 68)

Lembrar demais nos faz idiotas? (Ilustra by Guilherme Lepca)

Imagine se deparar de repente com uma foto sua meio ruim. Foi o que me aconteceu quando fui fazer uma palestra sobre literatura em uma cidadezinha do interior do Brasil. O mediador da conversa, um afável professor de História, ao me apresentar se pôs a ler um currículo que eu havia escrito… treze anos antes. Foi engraçado e assustador. O texto escrito para a orelha do meu primeiro livro dizia coisas como “Bressane detesta axé, pipoca e leite“. Na época eu achava orelhas de livro idiotas – mas hoje acho mais idiota fazer gracinhas nas orelhas de livro. Mais idiota ainda, decerto, é acreditar em tudo o que se lê na rede; tanto é que o desorientado mediador começou o papo literário lançando-me a candente questão: “Por que você não gosta de pipoca e leite?“.

Mais eternos que os diamantes, só as bobagens que publicamos na internet. Pode apostar: aquela couve que ficou no seu dente em uma despretensiosa feijoada no início do século e foi fotografada por um amigo e jogada em um velho blog, quando vocês eram estudantes divertidos, ainda estará lá, impavidamente verde, tão logo um possível empregador der uma busca sobre você no Google e clicar no vigésimo primeiro link. A rede é o Supremo Elefante: nunca esquece de nada.

Imagine acordar amanhã e descobrir que toda a tinta do planeta se tornou invisível e que todos os bytes desapareceram“, pede o escritor Joshua Foer no livro A Arte e a Ciência de Lembrar Tudo: Memórias de Um Campeão da Memória (Rocco). Continue lendo

Life’s a beach

Querido eu:
se você estivesse aqui
veria as bundas das meninas
que postam seus sorrisos no Facebook
a carne jovem de Waimea
e a carne gorda de Waimea
nas lentes gordas de Waimea

Meu velho eu
isso aqui no verão deve ser muito mais farofa
mesmo que estar sendo e ter sido
se igualem na lente comilona
a lente que guarda pra depois
aquilo que não come hoje

Meu bróder eu
enquanto não criam a telepresença
rimo o requebro de Elvis Presley
que tinha uma casa aqui em frente
às ondas gordas quebrando anônimas
e às sirenes paranoicas do North Shore
(você já está mais pra lá do que pra cá, dizem)

Um gordo de bigode com seu detector de metais
vasculha tesouros na areia e os guarda no bolso
Um magrelo de cabelo branco, junkie de cristal
zanza de bike com uma cacatua branca no ombro
quando passam por mim, o pássaro abre as asas
Há quem guarde conchas, quem colecione nuvens
eu só queria me guardar praquela havaiana
mas não acho conexão, meu velho eu
estou superconectado à praia
me engordando de lembranças

Se eu fosse eu
se o sol fosse outro sol
se o sal uma bala de prata

Trabalhamos pro amanhã, meu querido
subindo mais e mais eus para a Nuvem
imagens que jamais veremos de novo
o dia em que você foi mais feliz
e mandou um joinha pra você mesmo
insistindo em clicar usando flash
pra se revelar depois uma sombra
– estive em Waimea e lembrei de mim
e de todos os dias em que morri

This is the way the world ends
Not with a bang but a burp

Que bunda tinha aquela havaiana, caro eu
pena que não fotografei

A mais triste vitória


Sócrates (1954-2011)

Artigo publicado no caderno Aliás, do Estadão, em 11-12, lembrando de Sócrates à luz [ou à sombra] do Corinthians pentacampeão

Domingo foi estranho. Logo ao acordar, fiquei sabendo pelo amigo Xico Sá que nosso querido ídolo Sócrates se foi. Fui assistir ao jogo com a amiga Phydia me sentindo estranho, o coração amarrado.

Como todo corinthiano sabe, e como todo anticorinthiano desconfia, ganhar ou perder não importa, o que importa é estar junto: eis o significado de ser um fiel. Claro que ser pentacampeão brasileiro é incrível. Mas o travo, dividido na mesma cerveja com os alvinegros na casa em que via o jogo, amargava tanto na melancolia pela perda do símbolo maior quanto no despropósito em torcer para uma equipe contrária à filosofia socrática.

Esse Corinthians de Tite e seu futebol titebitate é o oposto do talentoso esquadrão dos anos 80, de craques como o Doutor, Zenon e Casagrande, secundado pelo brio de Biro-Biro, Wladimir e Zé Maria. Talento oscilante – já que aquele time, se foi bicampeão paulista sobre o São Paulo, uma das melhores equipes da época ao lado do Flamengo, também caiu para a segunda divisão em 1981 e nunca venceu um Nacional. Mas trocaria a burocracia dos passes laterais de 2011 por uma única tabela genial de 1982, ou um só desconcertante passe de calcanhar do Magrão.

Politicamente, este pentacampeão é bem diverso daquele bicampeão: se este é um clube forte, cujo maquiavélico cartola estica ao máximo o conceito de pragmatismo ao ser ao mesmo tempo filiado ao Partido dos Trabalhadores e funcionário de Ricardo Teixeira, aquele, um clube provinciano, sonhava com o poder repartido entre pequenos – tanto que, com ideário semelhante ao PT original, entrou para a história com a democracia corintiana, que mandava mais que os cartolas. (Em entrevista dada em 1983, Sócrates declarava ter votado em Lula para o governo paulista; dizia também que gostaria de morrer em um domingo, com o Corinthians campeão.)

A morte de Sócrates divide a história do Corinthians em dois tempos opostos – trajetória parecida com a do próprio PT, partido ao qual, hoje, interessam mais os fins que os meios. Ao time dos anos 80, iluminado por relâmpagos de criatividade e suportado por uma massa de sofredores, contrapõe-se este todo-poderoso Timão que vence nada utopicamente em campo e, fora dele, vive de tenebrosas transações. Ontem tínhamos um Corinthians de oposição, identificado com as massas que combatiam a ditadura, e essas identificadas com os princípios do PT, a ocupar estádios alheios por falta de casa própria – como os 160 mil que apoiaram Lula no estádio de Vila Euclides, São Bernardo do Campo, 1979.

Em 2011, temos um Corinthians de situação, ganhador, que plantou o técnico Mano Menezes na seleção, o ídolo Ronaldo no Comitê Organizador da Copa e o presidente Andrés Sanchez como diretor de seleções da CBF. Tá tudo dominado. E se, enfim, pode ter um estádio, é graças à mãozinha do ex-presidente Lula; afinal, aquela massa de sofredores se transformou na ascendente classe C, que hoje vai ao Pacaembu de SUV importado, paga uns R$ 200 por ingresso e outros R$ 300 por uma camisa lotada de patrocínios – fazendo da marca Corinthians a mais valorizada do futebol brasileiro. Se a utopia democrática prega que todo poder emana do povo, os petistas Lula e Sanchez, mais pragmáticos que idealistas, souberam capitalizar o poder da Fiel com esperteza.

O nublado 4 de dezembro de 2011 marcou o fim de uma era. Ao fazer lembrar a beleza de seu futebol, a morte de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira obscureceu o título do time que lhe deu fama, agora representado por um jogo medíocre. Pervertendo a máxima “nenhum jogador é maior do que o jogo“, o Doutor ensinava a ser sem nunca ter sido: descendente da nobre estirpe dos artistas boêmios, sempre viveu com orgulho de seu lifestyle, mais cioso de sua classe em pensar do que em só jogar, defendendo que todo atleta seria responsável pelas opiniões e pela cerveja que cativa – nada de capitalizar em cima do biblicamente correto, como 99% dos jogadores de hoje.

Com a bola no pé, mesmo sem vencer na seleção de 1982 (superior às de 1994 e 2002), sua rara originalidade o colocou na galeria dos melhores da história. Em sua desfaçatez pela competitividade do esporte – considerava o futebol uma arte -, Sócrates ensinava que o erro pode ser mais sublime que o acerto. “Nunca ter falhado/ Não importa/ Tentar outra vez/ Falhar outra vez/ Falhar melhor“, diria o alvinegro Beckett.

Domingo foi estranho, por isso, um dia corinthiano: é da natureza de um fiel ser triste ao ser alegre. Em um dia cinzento, o rebelde Sócrates nos legou uma lição de dissonância e paradoxo. Nada mais alvinegro, então, que se harmonizem os polos contrários dando o nome de Sócrates Brasileiro ao estádio de Itaquera – em vez de ceder naming rights a uma empresa de olho na grana da Fiel. O time e sua torcida são muito maiores do que o presente clube. Ainda que o Doutor, crítico dos métodos da CBF, também não fosse muito com a cara da atual diretoria do clube, seria bacana ver Sanchez & companhia ter a romântica capacidade de produzir um gesto dessa grandeza. Seria socraticamente corinthiano.

*

Escrevi o texto abaixo para meu blog na Alfa depois da primeira internação de Sócrates. Tinha certeza total de que ele sairia dessa – daí fechar essa outra lembrança do Doutor em tom mais esperançoso.

Corinthians homenageia Sócrates: punho erguido

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não está legal. E o mundo está preocupado com o médico que voltou ao hospital como paciente: jogue Sócrates no Twitter e perceba o tamanho do admiração e do amor que o mais brasileiro dos jogadores provoca na arquibancada, mesmo 30 anos depois de sua retirada dos gramados onde desfilou seu estilo peculiar que o colocou entre os maiores craques da história. Voltou ao hospital, em estado grave, para tratar de uma hemorragia causada pela cirrose – e esta, causada pelo alcoolismo. Sócrates nunca escondeu ser fã de birita.

Nem quando era jogador. Ao contrário: mentor da Democracia Corinthiana do lendário time dos anos 80, preconizava que todo atleta seria responsável pela cerveja que cativa. Nada de passar uma de politicamente correto nem ficar se explicando à imprensa que bebeu menos caipirinhas do que todo mundo viu (é com você, Fred).

Hoje aposentado dos campos – embora vez ou outra tirando onda nos churras dos amigos; quase imóvel joga mais do que todo o atual escrete alvinegro –, o Doutor é raríssimo representante do clube dos ex-craques que pensam com a própria cabeça e ainda sabem escrever. Bom, fora o também médico Tostão, você lembra de mais alguém? Mas, ao contrário do abstêmio ex-10 do Cruzeiro, Sócrates descende da nobre estirpe de atletas e artistas boêmios, sempre viveu assim e tem orgulho de seu lifestyle.

Se, jogando, o Magrão já parecia um homem de outro tempo – do tempo em que homens não fugiam da responsa e usavam a inteligência para driblar de beques a censores –, por que não o seria na arte de jogar conversa fora? Na tal entrevista que deu ao Fantástico, ao ser perguntado pelo repórter se seria alcoólatra, respondeu com um misto de bonomia e desfaçatez: “Sim, claro”. Certeza de que por pouco não mandou um “Tá me tirando, véio?”.

Encontrei duas vezes o Doutor. Na primeira, para uma entrevista ao meu documentário Só Quem É Sabe O Que É (co-dirigido com Phydia de Athayde e Artur Voltolini), sobre a torcida do Corinthians durante a queda na série B. Em duas horas matamos, creio, meia-dúzia de long necks enquanto o barba discorria sobre a identificação das torcidas organizadas de futebol e os reinos bárbaros europeus, além das diferenças entre a torcida do Flamengo (“ela baila, ela brinca”) e a do Corinthians (“ela é séria, ela joga”), os grandes clubes que defendeu no Brasil (fora uma furada passagem pelo Santos).

Já na segunda vez, na Mercearia São Pedro, em nove horas de trabalhos ele certamente bateu o recorde mundial de cervejas derrubadas (por óbvios motivos não me lembro do astronômico número de ampolas que lotou nossa mesa). Na Merça ele é tratado como rei: tirando o tricolor França e o chapeiro Seu Antônio, torcedor do Náutico, todos os garçons são corinthianos – o Doutor nem precisa levantar o braço para receber a bola, que lhe é servida quase de joelhos. Nunca me esqueço do entusiasmo com que contava uma recente viagem à Amazônia. “O avião não chegava, nunca chegava, nunca que chegava, e eu morrendo de sede, olhava aquele mundããão de rios e florestas e ficava imaginando um oceaaano de cerveja”, ria, abrindo o erre ribeirão-pretano.

Ele afirmava – e eu acredito, porque o Calcanhar de Ouro é homem do tempo em que se fiava o homem pelo bigode – que só bebia cerveja. Sim, a mesma birita vendida pelo treinador Mano Menezes nos intervalos comerciais da nossa selecinha. Vinho, às vezes, com a namorada. Destilados, cigarros e outras substâncias, nunca – bem, pelo menos, não ultimamente. Uma hora a conta chega, e o Doutor tem ciência disso, tanto que ressabiava-se com os recentes exames que havia feito, constatando sua cirrose. Tinha moderado – de verdade – a manguaçagem, o que influenciou na acidez e na aridez dos comentários no Cartão Verde e na coluna na CartaCapital. Essa ranzinzice é jogo de cena: numa mesa de boteco, a timidez some, em meia hora vira seu amigo de infância. Mas, se você for tricolor, desculpe – vai ser zoado a noite toda, com direito a gozações estendidas ao irmão Raí, personagem onipresente em suas piadas.

(Nos últimos meses, tinha trocado a onipresente cerveja pelo vinho. Xico Sá, seu colega de Cartão Verde, me revelou que, ao visitá-lo no hospital em sua primeira internação, os médicos lhe confidenciaram que o fígado de Sócrates havia sido bastante avariado não só pelo álcool como também pelas infiltrações de cortisona e xilocaína que lhe eram aplicadas para amenizar inchaços e dores das pancadas sofridas nas pernas.)

Eu, que descobri o futebol o vendo jogar na gloriosa Copa de 1982, em que nossa derrota demonstrou o quanto o erro pode ser mais sublime que o acerto (“Nunca ter falhado/ Não importa/ Tentar outra vez/ Falhar outra vez/ Falhar melhor”, diria Beckett), torço sinceramente para que o Doutor vire a partida e saia outra vez tirando onda. Tenho certeza de que ele vai achar um caminho nesse jogo, vendo, como só ele via em campo, algo de que nunca suspeitamos. Ele vai descortinar, eu sei, um lance impossível no vazio entre o primeiro copo e o apito final. Cerveja sem álcool gostosa, quem sabe?

‘We do low rock. Fuck rock, actually’

Raro lero com Mark Sandman, líder do Morphine, maior power trio da história:

Mais completo show do Morphine disponível no YT, 26 minutos em Nova York, 1996:

Trailer do documentário Cure for pain, sobre Sandman, lançado no começo de 2011:

Um fax de JG Ballard


Mr. Ballard não usava computadores – embora fosse um dos grandes escritores de ficção científica da segunda metade do século 20. Que falta ele faz hoje! Fico pensando o que diria ele dos protestos dos habitantes de Alphaville – algo bem parecido com a rebelião de classe média de Terroristas do Milênio.

Segue um fax que ele me mandou com as respostas à minha entrevista sobre sua reedição de Crash, que encontrei fazendo uma limpa na minha estante. Por pouco não encontro um papel em branco. Pra quem não entender a ‘grafia’ de Ballard, o papo está aqui.

Reality is the greatest imaginable fiction


Um original de Luiz Gê


Um pouco diferente do último quadrinho da HQ Eu quero ser uma locomotiva, de maio de 1975: neste, rabiscado 36 anos depois, a mocinha está toda feliz em ser triturada pelo trem tarado. Logo mais posto a entrevista que fiz com o mestre, que relança seu clássico Avenida Paulista – publicado em 1991 na saudosa Revista Goodyear, em breve reeditado pela Companhia das Letras.

Meu negócio é mulher, Froidão, mulher!



Ionesco não mora mais aqui

O rinoceronte negro foi extinto
diz a manchete do jornal
que, dizem, logo mais também será extinto
e o jornal ainda avisa:
o rinoceronte branco pode estar igualmente fora de combate

Tanto o rinoceronte negro quanto o rinoceronte branco eram cinzentos
a diferença é que o negro comia árvores e frutos, e o branco, grama
O rinoceronte negro atingia 1,50 m de altura e até 3,80 m de comprimento
seus dois chifres podiam medir 50 e 70 cm
ele usava os cornos pra se defender
quando brabo, era uma máquina de destruição
apesar de, como o albino Hermeto, não enxergar muito bem

O rinoceronte não cantava: dava barridos

Os chifres do rinoceronte foram sua nêmese
ele era caçado pra ter os cornos extraídos
triturados ao pó e bebidos em um chá
que combateria a impotência dos irmãos humanos

Felizmente ninguém mais se preocupará com bandos de rinocerontes pelas ruas
Enchendo as avenidas
Saindo das casas
Até pelas janelas

Levava 480 dias para um rinoceronte negro ser gestado
Geralmente nascia só uma cria
que era amamentada pela mãe até os dois anos

Um rinoceronte negro pesava três toneladas mas só vivia até os 35
ele não comprava uma pick-up paquiderme na crise dos quarenta
nem ficava deprimido ao broxar com uma rinoceronta
nem sofria de Alzheimer se ficasse velho demais
e se pensasse, dentro da nuvem de seu esquecimento
“o rinoceronte realmente existiu
ou foi um pesadelo de Ionesco?”

Como eram belos
Como eu gostaria de ter uma nudez decente, sem pelos, como a deles
sua pele encouraçada
e aquela soberba cor

A lucidez póstuma do poeta

A insustentável leveza do elefante, de Rodrigo de Souza Leão

Perfil de Rodrigo de Souza Leão para o caderno Ilustríssima, Folha de S.Paulo de 6-11-11. A exposição Tudo vai ficar da cor que você quiser, com suas pinturas e também textos em prosa e poesia, fica entre 9-11-11 e 15-1-12 no MAM/Rio.

Sossega, Leão

Louco lúcido, prosador auto-irônico, pintor inconsciente, poeta (talvez) suicida

“TUDO É PEQUENO/ A fama/ A lama/ O lince hipnotizando a iguana/ O que é grande/ É a arte/ Há vida em Marte.” Estranho poema este, o último postado por Rodrigo de Souza Leão em seu blog Lowcura. Cinco dias depois morria o jornalista, músico, poeta, prosador e pintor, em circunstâncias nebulosas, numa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro. O poema parece uma despedida, e, além deste texto, RSL deixou uma “carta final” à família. Mas teria morrido de causas naturais, o que afastaria uma possível hipótese de suicídio. A morte é um dos mistérios que cercam a vida deste carioca nascido em 1965: um ponto final que, paradoxalmente, colocou em circulação sua obra, hoje objeto de culto.

A peça Todos os cachorros são azuis, adaptação de Ramon Mello para o teatro do romance homônimo (7Letras, finalista do Prêmio Portugal Telecom), estreou em julho e foi aplaudida até por críticos carrancudos como Barbara Heliodora. Este e os romances O esquizoide – Coração na boca (Record) e Me roubaram uns dias contados (Record), todos editados somente após sua morte, serão vertidos ao cinema por Felipe Bragança, com o ator Cauã Reymond no papel de RSL. Por fim, uma exposição com suas pinturas será aberta em novembro no MAM: o custo da mostra Tudo vai ficar da cor que você quiser (R$ 30 mil) foi viabilizado com as doações coletivas de um site de crowdfunding – no catálogo, Mello, curador da obra de RSL, conta que as doações até ultrapassaram o orçamento da exposição, R$ 30 mil.

Tudo começa com um grilo na cuca; ou, talvez, com um chip no cérebro.

GRILO

Um dia ele surtou e saiu correndo pelas ruas de Botafogo. Dizia que havia sido atingido por um dardo disparado por um japonês, que introduzira um chip no seu cérebro. Nesse mesmo dia foi internado em uma clínica psiquiátrica, onde ficou por três semanas“, conta seu pai, o médico Antonio de Souza Leão. Já aos 17 anos RSL havia sido diagnosticado com esquizofrenia paranoide, agravada por transtorno obsessivo compulsivo. Tratando-se com neurolépticos, conseguiu se formar em jornalismo e arranjar emprego como auxiliar de escritório na Sasse (seguradora da Caixa Econômica); a chatíssima ocupação foi decalcada no livro de estreia, Carbono pautado: Memórias de um auxiliar de escritório (Virtualbooks – a Record pretende relancá-lo em 2012).

Não era a primeira arte de RSL: ele tinha sido vocalista da banda Pátria Armada, confessadamente inspirada na Legião Urbana. “Renato Russo foi seu maior ídolo”, diz o pai. Torcedor do Flamengo, clube onde praticava triatlo, RSL era vaidoso, mantinha a forma dando voltas na lagoa Rodrigo de Freitas, vestia-se quase sempre de preto, tinha o apelido de Elvis e muitos amigos e namoradas na Faculdade da Cidade. Esta vida “normal” foi irremediavelmente perdida naquela tarde em Botafogo: dos 23 anos em diante, nunca mais saiu à rua sozinho. Continue lendo

Fora de lugar

Karen Blixen por Stephen Alcorn

A história de Karen Blixen, uma dinamarquesa que viveu aventuras na África que, quando voltou à terra natal, não se reconhecia mais como européia. Vivia entre a realidade e a fábula. Matéria de capa da revista MIT

Karen Blixen era uma mulher fora de lugar. Do começo ao fim de sua longa vida, a inadequação de existir foi sempre uma chave para a interpretação do mundo. Hoje é uma das senhas que permitem o entendimento de uma vida e uma obra tão fascinantes quanto enigmáticas.

Karen Dinesen Blixen nasceu em 1885 em Rungstedlund, Dinamarca, numa família de longas tradições aristocráticas porém já decaindo para a classe média. A mãe, a unitarianista Ingeborg Westenholz Dinesen, foi a primeira dinamarquesa eleita para uma câmara de vereadores. Quando Karen tinha 10 anos, seu pai, o militar, escritor e desportista Wilhelm Dinesen, suicidou-se – provavelmente movido por um ataque de nervos causado pela sífilis. Karen estudou em Copenhage, Zurique, Paris e Roma, e desde sempre o sangue ferveu na direção da literatura e da aventura. Começou a publicar cedo, aos 22, já usando um pseudônimo: Osceola, nome de um famoso líder indígena seminola (o pai de Karen havia vivido um ano entre os índios chippewa; outra hipótese para o suicídio teriam sido as saudades da vivência selvagem na América).

Karen levava uma juventude um tanto sufocante – e, enquanto publicava contos nos jornais locais e participava de modorrentos jogos de salão, sonhava com um título aristocrático e uma vida menos ordinária. A chance para fugir da doce porém chata existência burguesa veio através de um primo sueco, o barão Bror von Blixen-Finecke. Karen havia se apaixonado por seu irmão gêmeo Hans, que não queria nada com ela; Bror, mais focado em aventuras, tampouco pretendia levar uma vidinha de casado; assim, um arranjo entre os independentes jovens poderia ser interessante.

O pacote de casamento incluía uma fazenda no Quênia, no planalto ao norte de Nairóbi (na verdade, um sítio de 2 milhões de m2, mais tarde de 20 mi). A decisão de ir para a África foi determinante em toda a vida de Karen – e recebida com espécie na sociedade dinamarquesa; afinal, no início do século 20 não era nada natural que mocinhas da sociedade se metessem em um continente ainda desconhecido e selvagem. Continue lendo

It’s better than I ever even knew

Tirando a Mallu, o blog estava com posts muito feios. Pra dar uma força, chamei a Lana Del Rey, nossa Nancy Sinatra nascida em Twin Peaks. ‘Elvis, where are you when I need you most?’

Boa playlist pra quem já furou o iPod na ‘Videogames’.

E pra quem não ouviu o clássico da moça…

No Telegraph, saiu um artigo interessante sobre ela, escrito pela Lucy Jones. Segue um sha-la-la do tempo em que ela assinava Lizzy Grant.

Tá bom, só mais uma… Que verso: ‘A voice of Nirvana says Come As You Are’.

Apocalipse macho

Connery antecipa a inominável sunga-colete de Borat em Zardoz

Os boatos sobre a derrocada do homem-alfa têm sido apressados. Mas atenção: há inquietantes sinais de fumaça. Pensata-playground publicada na revista Vida Simples de maio de 2010

É fato: o cromossomo Y, que determina o sexo masculino, está com os dias contados. As más notícias foram trazidas por cientistas australianos. “O cromossomo Y tem uma larga faixa de DNA, mas está cheio de ‘lixo’, e há apenas 45 genes nele. Não dá para comparar com o os 1345 genes do cromossomo X“, despreza a doutora Jenny Graves, da Universidade de Canberra. Observando a fauna australiana – incluindo cangurus –, o laboratório australiano descobriu que a cada milhão de anos 7.8 genes Y são perdidos. “Há 166 milhões de anos, o cromossomo Y também tinha 1345 genes“, explica. Ou seja – o crepúsculo do macho está em pleno processo. Mas vocês não vão se livrar de nós tão cedo, garotas: “A essa velocidade, o cromossomo Y vai desaparecer em 6 milhões de anos“, sentencia a australiana.

Antes que eu jogasse pedra na doutora Jenny por seu catastrofismo, o bioquímico Franklin Rumjanek, da UFRJ, refletia: uma vez que o cromossomo Y se especializou em determinar o sexo masculino, se esse ajuste foi aprovado pela seleção natural o Y pode permanecer entre nós por muito tempo. 
”O que sabemos é que o cromossomo Y já não tem mais origem exclusiva das gônadas masculinas e, além disso, corre o risco de desaparecer“, diz Franklin, lembrando de um experimento da Universidade de Newcastle que criou espermatozóides humanos a partir de células-tronco originárias de um embrião feminino. “Essa bifurcação evolutiva pode significar o fim da hegemonia masculina. Mas também pode ser o arauto da extinção da espécie“, afirma o bioquímico.

Os sinais da derrocada macha se demonstram em estudos biológicos e também em narrativas contemporâneas – como a sensacional graphic novel Y: O Último Homem (Vertigo), de Brian Vaughn e Pia Guerra, que enquadra um mundo em que uma catástrofe exterminou todos os homens do planeta à exceção de um, o perseguido Yorick Brown.

Pobre Yorick: enquanto a macharia teima em largar a toalha molhada na cama, berrar palavrões na arquibancada e encerar o capô do carro, a trilha evolutiva desdenha e olha para o outro lado da rua. O deus-nos-acuda agora vem de um estudo comportamental publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society: mulheres de sociedades mais civilizadas se interessam por homens que não pareçam tão homens assim. Continue lendo

O bairro que nasceu de um cometa


Mais uma materinha recuperada de meus hds. A vida em Vargem Grande, comunidade que habita um astroblema – cratera formada pelo impacto de um corpo celeste – em plena periferia de São Paulo. Reportagem publicada na revista Continuum no começo de 2010

Saci-Pererê tem 44 anos e usa uma gravata azul com listras cinzentas e pretas. No bolso esquerdo de sua impecável camisa branca, leva um papelzinho com uma lista de tarefas laboriosamente escritas em letras maiúsculas azuis. “É para não me embananar e não esquecer de nada“, explica o Saci em suavizado sotaque carioca, os dentes muito brancos brilhando na cara muito escura. Como o Saci veio parar ali no cemitério de Colônia? Do alto de seus 1,80 m, muito bem posto sobre as duas pernas, Saci coça de leve a cabeça de cabelos cortados bem rente – ele não usa mais carapuça – e respira fundo: “Ih, rapá, é uma longa história. Minha vida dava um livro…“.

São cinco da tarde de uma quarta-feira de outono e o sol se aconchega numa das bordas da Cratera de Colônia, próxima ao cemitério onde trabalha o ilustre morador do bairro vizinho, Vargem Grande. Antes de contar como o Saci assombra o mais antigo campo-santo da cidade, mergulhemos em outro mistério de além mundo. Pouca gente sabe, mas a periferia da quarta maior cidade do planeta oculta um astroblema, cratera provocada pela colisão de um corpo celeste. “O evento ocorreu entre 5 e 35 milhões de anos atrás“, calcula o geólogo Victor Velásquez, da USP, que estuda a cratera há cinco anos.

Só em 1961 foi descoberta a depressão entre os distritos de Parelheiros e Engenheiro Marsilac, extremo sul de São Paulo, a 50 km do centro, um círculo de 3,6 km de diâmetro e bordas entre 150 e 250 metros de profundidade, que pode ter sido formada pelo impacto de um asteróide, talvez meteoro, quem sabe cometa. Até então, a Cratera de Colônia escondia-se na chácara de um certo João Rinsberg. Seu único habitante era um índio proscrito pelos krucutus, uma das duas aldeias guaranis que residem em Parelheiros. “O índio sumiu pouco depois que a gente veio para cá“, conta o bibliotecário Eduardo Francisco entre os 18 mil volumes que guarda na biblioteca pública de Vargem Grande, bairro paulistano cercado pela Mata Atlântica. Continue lendo

A casa da dor de cabeça

Alguém dê uma aspirina ao pobre Tomas

Um poema em prosa do nobelizado Tomas Tranströmer

Eu acordei dentro da dor da cabeça. A dor de cabeça é um quarto onde tenho que ficar enquanto não consigo pagar o aluguel de outro lugar. Cada cabelo dói até ficar grisalho. Existe uma dor dentro daquele nó górdio, o cérebro, que quer fazer tantas coisas em tantas direções. A dor também é uma meia-lua pendurada no céu azul-claro; a cor desaparece da minha cara; meu nariz está inclinado pra baixo; e eu tenho essa forquilha de adivinhação que deixo toda apontada para uma corrente subterrânea lá embaixo. Me mudei para uma casa construída no lugar errado; existe um pólo magnético logo embaixo da cama, logo embaixo do travesseiro, e quando as condições metereológicas mudam sob a cama, eu fico carregado. O tempo passa e eu tento imaginar que um quiropata celestial está me beliscando com um alicante milagroso na minha vértebra cervical, um alicate que irá me repor vida de uma vez por todas. Mas a casa da dor de cabeça ainda não está pronta para ser escrita. Primeiro eu tenho de viver ali por uma, duas horas, metade de um dia. E, se eu comecei dizendo que era um quarto, agora mudei para uma casa. A questão então é: não será uma cidade inteira? O trânsito está insuportavelmente lento aqui. Logo as notícias vão sair. E em algum lugar um telefone está tocando.

> Traduzido do inglês via New Yorker (John Matthias e Lars-Hakan Svensson o verteram do sueco). O El País bateu um bom papo com o poeta.

Sosseguim ataca novamente

Junio Barreto visto por Edu Kerges

> Release para Setembro, de Junio Barreto

Sete anos levou Junio Barreto para espantar a “maldição do segundo disco”, esse clichezão da crítica musical. Espantou do jeito mais solar que podia. Afinal, o chamado Caymmi de Caruaru – pela voz grave e pela lentidão ao compor – também passou um bom tempo espantando umas e outras desilusões. Quarou a dor no varal: sobrou só o sumo do sangue derramado, virada a mágoa em magia. Pacificado, não por acaso o nome do álbum é Setembro, mês em que o sol volta de longo inverno.

Se a música de Junio aperfeiçoou harmonia e melodia, tornando-as mais intrincadas mas também mais leves, sua poética ficou mais paradoxal. Amante dos diminutivos, o Sosseguim até que não abusa das miniaturas neste álbum, preferindo largar a notória timidez para abraçar termos grandiosos como “império”, “glória” e “paraíso”. E embora a sintaxe das frases seja rebuscada, lembrando Guimarães Rosa e Manoel de Barros, seu vocabulário é naturalista, mínimo, léxico de poeta árcade: a onipresente luz da manhã, o sol, o mar, os ribeiros, a chuva, as matas, os coqueiros, as areias, as tardes serenas, as flores – e, contraditório como o afrosamba se renova no contato com o manguebeat, um jardim elétrico pode rimar com um jardim imperial.

Coisa fina, burilada por Junio e lavrada na bateia de Pupillo, um dos maiores bateristas do Brasil, da Nação Zumbi, agora amadurecido como produtor. Pupillo e seu gêmeo, o baixista Dengue, ocupam quase todas as faixas, estreladas ainda por belezas como as vozes de Céu, Marina de la Riva e Luiza Maita, o violão de Seu Jorge, os teclados de Chiquinho e Victor Araújo, as guitarras de Gustavo Ruiz e Junior Boca, a Orquestra Experimental de Cordas e a banda Mombojó, entre muitos talentos da nova música contemporânea brasileira. Tudo forma um conjunto orgânico, tudo se parece com Junio Barreto e também com o samba atemporal, canções que ouvimos como se existissem aí há tanto tempo – como todo setembro, quando chega, depois de tanta espera, espantando o frio com as asas das aleluias. Continue lendo

Uma ruga circunflexa e umbilical

“- Minha oferta é a mesma.
– É muito baixa – disse Quinto, embora já estivesse decidido a aceitá-la.
A cara do homem, larga e carnuda, era como feita de uma matéria demasiado informe para conservar lineamentos e expressões, e estes eram logo levados a desmanchar-se, a desmoronar, quase sorvidos não tanto pelas rugas marcadas com certa profundidade apenas nos cantos dos olhos e da boca, mas pela porosidade arenosa de toda a superfície do rosto. O nariz era curto, quase achatado, e o excessivo espaço deixado à mostra entre as narinas e o lábio superior dava ao rosto uma ênfase ora estúpida, ora brutal, conforme a boca estivesse aberta ou fechada. Os lábios eram altos em torno ao centro da boca, como aureolados de ardor, mas sumiam inteiramente nas extremidades, como se a boca se prolongasse num corte fino até a metade da face; isso lhe dava um aspecto de tubarão, reforçado pelo escasso relevo do queixo sobre a garganta larga. Porém os movimentos mais inaturais e penosos eram os que diziam respeito às sobrancelhas: ao ouvir, por exemplo, a seca resposta de Quinto ‘É muito baixa’, Caisotti fez que ia recolher as sobrancelhas claras e ralas no meio da fronte, mas só conseguiu erguer um meio centímetro de pele sobre o ápice do nariz, fixando-a numa instável ruga circunflexa e quase umbilical; repuxadas para cima por esta, as curtas sobrancelhas caninas, de caídas que eram, se tornaram quase verticais, ambas trêmulas no esforço que as mantinha tesas, propagando sua crispação para as pálpebras que se retorciam numa franja de ruguinhas minúsculas e vibrantes, como se quisessem esconder a inexistência dos cílios.”

> Felizmente não havia ainda botox na Itália de 1956 – ou não leríamos essa beleza de descrição de um empreiteiro em ascensão, o vilão de A Especulação Imobiliária, de Ítalo Calvino.