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O Estilingão custou R$233 milhões. Dinheiro suficiente para construir 1000 quilômetros de ciclovias em São Paulo ou então para fazer a ligação por trilhos entre o aeroporto de Congonhas e o metrô. Também poderia ser usado para manter faixas de pedestre pintadas em todas as esquinas da capital durante uma década, construir 100 quilômetros de corredores de ônibus ou muitas praças. [Siga...]
Curiosos que desejavam ver de perto o novo cartão-postal paulistano, a Ponte Octavio Frias de Oliveira, chegaram a se arriscar para apenas conhecer ou fotografar a estrutura na manhã deste domingo (11). A pé, houve quem transformasse a passagem de emergência em trilha para o turismo não autorizado.
A passagem de bicicletas e de pedestres pelo local é proibida. Por isso foi mais comum ver nesta manhã famílias inteiras em festa dentro dos carros ou condutores solitários que encontraram um bom motivo para tirar da garagem motos possantes ou carros de placa-preta. Mas, apesar da presença de um carro da Guarda Civil Metropolitana, muita gente que estava a pé também conheceu e se disse encantada com a ‘ponte estaiada’.
Emocionado, o aposentado Alfredo Rodrigues, de 83 anos, não parava de agradecer a filha e o genro pelo passeio a pé no local. “Foi o maior presente que eles me deram”, disse. [Siga...]
Não é bem uma crítica, uma vez que o resultado final não é exatamente ruim… e tem preciosidades como o delicado lullaby “I wish I was at New Orleans”.
Mas é bizarro como o pós-punk eletrônico na produça, cheio de reverbs e teclados grandiosos e paredes sonoras que lembram às vezes o New Order e às vezes o Angelo Badalamenti, fez com que as canções de Tom Waits interpretadas pelo tesão larger-than-life Scarlett Johansson soassem como… Abba!
É sério. Mete um pancadão em “Anywhere I lay my head” e você terá uma coisa bem próxima de “Dancing Queen”. Esquisito? Em tempos de sucuris à solta, padre voador, pai atirador e craque pegador levando bola no costado, o velho raindog virando ícone de sauna e pista gay é uma possibilidade, né não?
“Tem um negócio aí que eu escrevi, mas tá ruim… Melhor deixar na gaveta”, esquivou-se Lourenço ao telefone. “Mandae, pô”, insisti. Com Joca Terron, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, estava envolvido na criação da Risco:Ruído, coleção de livros provocadores velhos & novíssimos, vivos & mortos, que a DBA lançou há uns 4 anos.
Lourenço Mutarelli afinal enviou o arquivo de O Natimorto. É óbvio que, como da outra vez, quando achou que O cheiro do ralo era só uma diversão de um cartunista meio de saco cheio de desenhar, ele estava errado. O Natimorto era ainda melhor que O cheiro - porque mais conciso, mais preciso, mais orgânico, mais denso, com diálogos mais afiados e mais ampla possibilidade de leituras em sua estrutura, que aproximava os balões das HQs a frases minimais quase poemas. Publicamos, lógico.
Anos depois, Mário Bortolotto decidiu levar a obra ao teatro, em peça que estreou ano passado e reestréia amanhã, 3a, 6 de maio, no Parlapatões, às 21h30, ficando até dia 28. Marião leu Mutarelli com inteligência, trazendo o Beckett de periferia mutarelliano perto do estilo punk do dramaturgo. O grande mérito da montagem, a meu ver, foi limar passagens que ao vivo soariam desnecessárias e enxugar o texto ao osso. De todas as montagens que vi do Marião, certamente é das mais clássicas: do seco cenário à trilha hardcore passando pelo figurino monocromático, nada parece fora de lugar.
A performance dos atores também é exata. Nilton Bicudo, o verborrágico Agente, está assustadoramente parecido com o Lourenço, e tem uma dicção impressionante - encara uns bifes enormes sem nos deixar perder o sentido das histórias dentro da história. Martha Nowill, a Esposa, faz uma megera assustadora e hilariante, a mulher castradora, possessiva, perversa, infiel e no limite da assassina [Na estréia da peça rolou uma coisa bizarra: na cena em que investe contra Niltinho com uma faca de cozinha, Martha chegou a tocá-lo de verdade, acima da sobrancelha. Niltinho depois me disse que a culpa foi dele, porque estava um passo à frente da marcação - mas que tudo bem: sangrar em cena dá sorte, segundo reza a lenda atrás dos filós].
Maria Manoella, no papel da Voz, traz uma densidade insuspeitada no texto original. No livro, a Voz é pouco mais que uma mulher diáfana, ideal, a fuga perfeita para a vida medíocre do Agente. Em cena, Manu é tudo isso, mas também uma arrivista, uma doce irmã, uma aproveitadora, uma sedutora, uma mãe amorosa - e talvez não mais do que um fantasma. Assim, sua personagem vertigina uma mera comédia de humor negro na direção do drama moderno de um homem perdido nos labirintos do Feminino.
Semana que vem, o texto de Mutarelli entra em nova dimensão: o cinema. Porém, se na mão de Bortolotto o livro se transformou em comédia noir, para Paulo Machline, o diretor [em seu primeiro longa], O Natimorto será um drama psicológico, um romance de humor negro - afinal, se trata a princípio da história de amor entre um Agente que não age e uma Voz que não canta. No filme prestes a ser rodado, a Voz será vivida por Simone Spoladore, e Beth Goiffman encara a Esposa. Já o Agente é uma total surpresa - e, creio, absolutamente inédito: será o próprio Lourenço Mutarelli. Não me lembro de nenhum outro filme que tenha sido estrelado pelo autor do romance que originou a produção.
O escritor, que n’ O cheiro foi o esquisito assistente de Selton Mello e revelou dispor de mais um talento - a famosa camera appeal, a qualidade de fazer com que o espectador só queira olhar pra ele [algo parecido com o que acontece com o Paulo Miklos n'O Invasor], pela primeira vez será protagonista - e de uma obra em que o protagonista ocupa 90% das cenas. Como é que ele vai se sair? Por enquanto, só jogando tarô - ou lendo os versos dos maços de cigarros - para saber. Nada mal para um texto que estava no fundo da gaveta, hein?
Já fazia algum tempo que gente como Cecil Taylor estava agitando, mas foi o quarteto de Ornette, no Five Spot, que nos desentupiu os ouvidos. Parecia uma briga de cachorros, ou melhor, os instantes que precedem uma briga de cachorros, você os ouve na esquina e imagina a cena, os donos puxando as guias e chamando os cães, e os dois bichos mordendo o ar, tentando voar um pra cima do outro, eles puxam, rosnam, latem, babam, e as vozes dos donos mandando parar, flexionando os bíceps, falam com os cães como se fossem gente, mas sem convicção: no fundo estão fingindo, a verdade é que estão orgulhosos da força e dos colhões de seus animais, riem por baixo dos bigodes…
Um trecho que é uma boa definição da estrutura de New Thing, um estranho romance policial - escrito por Wu Ming 1, pseudônimo chinês para o fundador de um grupo de escritores anarquistas italianos chamado Wu Ming [sem nome], anteriormente reunidos sob o nome-guarda-chuva Luther Blisset.
Roberto Bui, seu nome real, é um cara evidentemente influenciado pelo Gil Scott-Heron de O Abutre e suas vozes múltiplas, se harmonizando às dentadas como em um free jazz. Este bolonhês que escreve sobre assassinatos em série na cena jazz da Nova York de 1967 também leu o clássico punk Please kill me [Legs McNeil & Gillian McCain] e ainda, conforme confessa no posfácio, o divertido Gauleses irredutíveis [Álisson Ávila, Cristiano Bastos. Eduardo Müller], que passeia pelo rock gaúcho dos anos 80.
Uma escrita libertária que briga com o racismo, o fundamentalismo e o consumismo, prega o copyleft, a apropriação de qualquer influência, a polifonia narrativa e a invenção de heróis falsos como vírus para detonar o sistema de culto à celebridade… é, tem tanto idealismo aí quanto um pouco de ingenuidade, principalmente na européia babação de ovo em cima dos niggas superheroes [Blisset é o nome de um craque jamaicano que jogou no Milan e foi o primeiro negro a defender o English Team].
Sei não, amo Coltrane e seus asseclas, mas meu desconfiômetro dedura: acho que um dia tudo isso será usado pra vender tênis. A revolução não será televisionada… antes de ser customizada.
Ok, um dia eu jogo meu desconfiômetro pela janela…
Por que não existe comida azul? Essa pergunta ficou no passado. Com o sucesso da antocianina, antioxidante que azuleja as supersaudáveis blueberries e promete vida longa, no futuro todo rango que se preze pode ser azulzinho como o amor de Djavan. [Texto pra garantir o leite da criança, costurado na Trip do mês]
Por Ronaldo Bressane
“Então eu vou ficar cego, porque não existe comida azul.” Foi com seus olhos implacavelmente azuis que meu filho de cinco anos venceu o caô que inventei para tentar fazê-lo comer. Segundo minha revolucionária dieta das cores, para um moleque ficar forte, teria de ingerir todas as peças do prato, cada uma equivalente à cor de um órgão – tomate pro sangue, carne pros músculos, mandioquinha pro pâncreas, feijão pro intestino, rúcula pro estômago, arroz pra pele e batata pro cabelo (ele é louro).
“E por que não tem comida azul, papai?”
Dammit. Por que as crianças fazem as perguntas mais difíceis bem na hora do almoço? “Não tem porque… porque não tem, ora. Come antes que esfrie.”
“‘Porque não’ não é resposta.”
Se já tinha sido complicado explicar por que o céu era azul – faz uns vinte anos que deixei o ensino fundamental –, imagine o motivo pela ausência de alimentos na mais melancólica das cores. Não tinha a menor idéia, pô. Lembrava vagamente de uma obsessão do colega Armando Antenore com isso (espero que o bravo jornalista não tenha curado sua fixação à base de uma dieta com Viagras).
“Bom. Tem uva…”
“Uva é roxa. Ou então rosa! Não é azul. Eu vou ficar cego! Eu vou ficar cego!” E saiu da mesa. Dammit. Será que vou ter de misturar M&M’s azuis ao rango do Lorenzo para fazê-lo comer mais?
Radicais livres go home
Na verdade, azul foi a última das cores a se tornar um M&M, sete anos atrás. Foram gastos milhões em pesquisas de marketing, estudos de branding e, imagino, consultoria em feng shui para espantar um possível fracasso de vendas. É que, assim como vermelho dá vontade de comer, e amarelo, de jogar o prato fora (por isso o MacDonald’s usa essa paleta), a pacífica cor azul é um clássico supressor de apetite. Teóricos do emagrecimento sugerem que se você meter um bistecão sobre um prato azul não vai chegar à metade. Outro truque para os gordinhos dietantes é ligar uma lâmpada azul na geladeira para entristecer a fominha noturna, ou colocar as luzes da sala de jantar into the blue. Mas por que essa cor seria um afasta-larica?
Simplesmente porque comidas e animais azuis (não estou falando no Bidu) são quase inexistentes. A razão é o velho e bom darwinismo. O azul é associado ao ph alcalino, enquanto que a maioria da vida orgânica é básica ou, amiúde, como canta o Chico Buarque, amarga. Milhões de anos atrás, o que havia de azul, púrpura e negro na natureza estava envenenado ou estragado. Essas cores certamente não trariam água na boca de nossos avós chimpanzés. Portanto, o azul é algo que o hipotálamo – o dono do apetite – nem tchuns.
Tudo bem, há os queijos azuis – o italiano, gorgonzola, feito com leite de vaca, e o francês, roquefort, com leite de ovelha. Mas o azul ali é do mofo, penicilium, que traz o sabor característico. Existe também o blue steak, bifão texano que deixa à mostra os veios da carne azulados de acordo com a temperatura de cozimento. A kale, um repolho siberiano rico em vitamina A que de uns tempos pra cá virou vip nas saladas bacanas. Azul de nascença é a batata azul escocesa, descoberta há um século porém há só uma década causando na Inglaterra (claro, lá eles nem reparam direito no que comem). É ótima frita ou em purê. Seu indigo blue vem da antocianina, poderoso antioxidante que combate os radicais livres, moléculas instáveis cujo processo de degeneração está ligado ao câncer e ao envelhecimento.
Azul é o novo preto
A antocianina está ainda em algumas berries (bagas), como as raspberries (framboesas) mexicanas ou as blackberries (amoras) e ainda as blueberries (mirtilos) norte-americanas. São plantas originárias de clima frio: há somente sete anos começou-se a plantar blueberries no Brasil, em Campos do Jordão (SP). Pesquisas de 2002 apontam a wild blueberry como a próxima rainha da cocada-preta dos cardápios – embora a torta de blueberry não seja o prato mais vendido no bistrô do Jude Law em My Blueberry Nights (me recuso a citar o cretino título em português).
Fora o combate ao envelhecimento, a antocianina encara males cardíacos, arredonda o tratamento de tumores e até refresca a memória de curto alcance. Como fruta mais rica em antocianina, a baga selvagem tem três vezes mais antioxidantes que o espinafre, o que pode fazer do doce favorito de Norah Jones (no longa de Wong Kar-Wai, uma metáfora do amor desprezado) um hype total nas mesas dos obcecados em atrasar a própria morte. Afinal, há algo mais cool que azul?
Caso estejam corretos “os especialistas” – essa volúvel e suspeita raça –, em breve supermercados e restaurantes serão invadidos pelo tom azul e o sabor cítrico das berries. No futuro, tal como o chiclete perfeito criado por Willy Wonka na Fantástica Fábrica de Chocolate (que juntava uma refeição completa, mais sopa e sobremesa, e não acabava nunca), as comidas mais sensacionais serão azuis. Talvez nem seja preciso colocar corante na comida como se faz no musubi, um sushi havaiano em que o arroz é azulzinho feito o amor de Djavan. Fora, Adrià: blue is the new black. Lasanhas azuis. Hambúrgueres azuis. Agriões azuis. Pizzas azuis. O Lorenzo vai ver!
Como aconteceu com o primeiro jornal, o primeiro rádio e a primeira sinagoga da América do Sul, a inovadora Recife tem desde a manhã desta quarta-feira (30) o primeiro contador de homicídios de rua - do mundo. A iniciativa é uma parceria do PEbodycount e da Faculdade Maurício de Nassau. O equipamento eletrônico fica na esquina das Ruas Joaquim Nabuco e Guilherme Pinto, nas Graças; é atualizado uma vez por dia e dará o número de registros de homicídios no dia, no mês e no ano.
Repercussão internacional: violência no Recife é notícia em mais de 30 jornais mundo afora
Desde a última sexta-feira, os leitores do Miami Herald, do Los Angeles Times, do Chicago Tribune e de dezenas de jornais dos Estados Unidos e de outros países estão podendo constatar um pouco do dia-a-dia na capital mais violenta do Brasil. Segue matéria do repórter Michael Astor, da Associated Press:
RECIFE, Brasil.
Com o olhar perdido no vazio, Inês Maria da Silva descreve, em frente ao seu barraco, como perdeu seus cincos filhos para a violência que coloca o Recife como a cidade mais violenta do Brasil. Seu primeiro filho morreu há 15 anos em uma briga por uma garota. Outro por tentar impedir que um tarado fosse morto em frente à sua casa. O terceiro foi esfaqueado em uma discussão com um amigo. O quarto foi morto a tiros confundido com um ladrão. O que restava, caiu abatido por uma bala perdida enquanto brincava Carnaval no ano passado.
“Só quero que me digam: por que ninguém é punido?”, afirma a viúva de 68 anos, que agora cuida de seis netos e três filhas desempregadas e recolhe lata, garrafas e lixo para alimentar seus porcos, na Favela do Coque. “Tem gente que mata só por diversão”, explicou da Silva. Dois dos homens que mataram meus filhos são meus vizinhos. Se eu tivesse para onde ir, já teria partido há muito tempo”
Esta cidade litorânea, preferida dos turistas europeus, recebe muito mais atenção pelos ataques de tubarão que mataram 18 pessoas desde 1992 que pelos homicídios, pelo menos 2.617 na região metropolitana, no ano passado. Ainda que se advirtam os turistas para que não levem objetos de valor para as praias, da mesma forma que na maioria das cidades brasileiras, pouco se diz sobre a taxa de homicídios, principalmente porque a violência se restringe às zonas pobres.
As violentas disputas entre traficantes no Rio de Janeiro ganham as manchetes internacionais. Enquanto que esta cidade, de um milhão e meio de habitantes, tem uma taxa de homicídios de 90,9 para cada 100 mil habitantes, mas do que o dobro do Rio, segundo o Mapa da Violência da Rede Tecnológica da América Latina.
Atualmente, um grupo de repórteres policiais locais trabalha para mostrar o custo humano dessa violência. “Durante os últimos dez anos estamos escrevendo a mesma história, o que muda é o nome das vítimas, dos assassinos e das autoridades que dão a desculpa do momento”, explica João Valadares. “Isso só vai mudar quando toda a sociedade se mobilizar contra essa situação, não apenas quando a violência bater na sua porta e sim quando todos se conscientizarem que são seres humanos sendo mortos”.
Valadares e três colegas lançaram o site www.pebodycount.com.br com números atualizados de assassinatos no estado de Pernambuco. No dia 21 de abril, o contador alcançava 1.403 casos e seguia subindo. Os jornalistas estão associados a outro site que utilizada a tecnologia do Google para marcar o local de cada morte com uma bandeira vermelha.
O grupo também usou tinta vermelha para marcar os locais de assassinatos no Recife durante um mês. No próximo dia 30 de abril, planejam inaugurar um contador eletrônico em uma das vias mais movimentadas do Recife, a Rua Joaquim Nabuco, que irá somando o número de vítimas, assim como o site PEBodyCount.
O ministro da Educação, Fernando Haddad [quem?], assinou nesta segunda-feira [28 abr] o texto final do projeto de lei que visa à expansão do ensino técnico no Brasil - espertamente valendo-se dos recursos recolhidos pelo SESC - uma das poucas instituições seriamente comprometidas com a democratização da cultura no país.
Em carta aberta, Danilo Miranda reage. A carta, a repercussão na imprensa e o abaixo-assinado estão disponíveis no Portal SESCSP. Para ir direto à página do manifesto, aponte para www.sescsp.org.br/sesc/intervencaoSESC/index.htm.
“O autor de si mesmo”
por Machado de Assis [crônica de 16 de junho de 1895]
GUIMARÃES chama-se ele; ela Cristina. Tinham um filho, a quem puseram o nome de Abílio. Cansados de lhe dar maus tratos, pegaram do filho, meteram-no dentro de um caixão e foram pô-lo em uma estrebaria, onde o pequeno passou três dias, sem comer nem beber, coberto de chagas, recebendo bicadas de galinhas, até que veio a falecer. Contava dous anos de idade. Sucedeu este caso em Porto Alegre, segundo as últimas folhas, que acrescentam terem sido os pais recolhidos à cadeia, e aberto o inquérito. A dor do pequeno foi naturalmente grandíssima, não só pela tenra idade, como porque bicada de galinha dói muito, mormente em cima de chaga aberta. Tudo isto, com fome e sede, fê-lo passar “um mau quarto de hora”, como dizem os franceses, mas um quarto de hora de três dias; donde se pode inferir que o organismo do menino Abílio era apropriado aos tormentos. Se chegasse a homem, dava um lutador resistente; mas a prova de que não iria até lá, é que morreu.
Se não fosse Schopenhauer, é provável que eu não tratasse deste caso diminuto, simples notícia de gazetilha. Mas há na principal das obras daquele filósofo um capítulo destinado a explicar as causas transcendentes do amor. Ele, que não era modesto, afirma que esse estudo é uma pérola. A explicação é que dous namorados não se escolhem um ao outro pelas causas individuais que presumem, mas porque um ser, que só pode vir deles, os incita e conjuga. Apliquemos esta teoria ao caso Abílio.
Um dia Guimarães viu Cristina, e Cristina viu Guimarães. Os olhos de um e de outro trocaram-se, e o coração de ambos bateu fortemente. Guimarães achou em Cristina uma graça particular, alguma cousa que nenhuma outra mulher possuía. Cristina gostou da figura de Guimarães, reconhecendo que entre todos os homens era um homem único. E cada um disse consigo: “Bom consorte para mim!”. O resto foi o namoro mais ou menos longo, o pedido da mão da moça, as formalidades, as bodas. Se havia sol ou chuva, quando eles casaram, não sei; mas, suponho um céu escuro e o vento minuano, valeram tanto como a mais fresca das brisas debaixo de um céu claro. Bem-aventurados os que se possuem, porque eles possuirão a terra. Assim pensaram eles. Mas o autor de tudo, segundo o nosso filósofo, foi unicamente Abílio. O menino, que ainda não era menino nem nada, disse consigo, logo que os dous se encontraram: “Guimarães há de ser meu pai e Cristina há de ser minha mãe; é preciso que nasça deles, levando comigo, em resumo, as qualidades que estão separadas nos dous”. As entrevistas dos namorados era o futuro Abílio que as preparava; se eram difíceis, ele dava coragem a Guimarães para afrontar os riscos, e paciência a Cristina para esperá-lo. As cartas eram ditadas por ele. Abílio andava no pensamento de ambos, mascarado com o rosto dela, quando estava no dele, e com o dele, se era no pensamento dela. E fazia isso a um tempo, como pessoa que, não tendo figura própria, não sendo mais que uma idéia específica, podia viver inteiro em dous lugares, sem quebra da identidade nem da integridade. Falava nos sonhos de Cristina com a voz de Guimarães, e nos de Guimarães com a de Cristina, e ambos sentiam que nenhuma outra voz era tão doce, tão pura, tão deleitosa.
Enfim, nasceu Abílio. Não contam as folhas cousa alguma acerca dos primeiros dias daquele menino. Podiam ser bons. Há dias bons debaixo do sol. Também não se sabe quando começaram os castigos, — refiro-me aos castigos duros, os que abriram as primeiras chagas, não as pancadinhas do princípio, visto que todas as cousas têm um princípio, e muito provável é que nos primeiros tempos da criança os golpes fossem aplicados diminutivamente. Se chorava, é porque a lágrima é o suco da dor. Demais, é livre — mais livre ainda nas crianças que mamam, que nos homens que não mamam.
Chagado, encaixotado, foi levado à estrebaria, onde, por um desconcerto das cousas humanas, em vez de cavalos, havia galinhas. Sabeis já que estas, mariscando, comiam ou arrancavam somente pedaços da carne de Abílio. Aí, nesses três dias, podemos imaginar que Abílio, inclinado aos monólogos, recitasse este outro de sua invenção: “Quem mandou aqueles dous casarem-se para me trazerem a este mundo? Estava tão sossegado, tão fora dele, que bem podiam fazer-me o pequeno favor de me deixarem lá. Que mal lhes fiz eu antes, se não era nascido? Que banquete é este em que o convidado é que é comido?”.
Nesse ponto do discurso é que o filósofo de Dantzig, se fosse vivo e estivesse em Porto Alegre, bradaria com a sua velha irritação: “Cala a boca, Abílio. Tu não só ignoras a verdade, mas até esqueces o passado. Que culpa podem ter essas duas criaturas humanas, se tu mesmo é que os ligaste? Não te lembras que, quando Guimarães passava e olhava para Cristina, e Cristina para ele cada um cuidando de si, tu é que os fizeste atraídos e namorados? Foi a tua ânsia de vir a este mundo que os ligou sob a forma de paixão e de escolha pessoal. Eles cuidaram fazer o seu negócio, e fizeram o teu. Se te saiu mal o negócio, a culpa não é deles, mas tua, e não sei se tua somente… Sobre isto, é melhor que aproveites o tempo que ainda te sobrar das galinhas para ler o trecho da minha grande obra, em que explico as cousas pelo miúdo. É uma pérola. Está no tomo II, livro IV, capítulo XLIV… Anda, Abílio, a verdade é verdade — ainda à hora da morte. Não creias nos professores de filosofia, nem na peste de Hegel …
E Abílio, entre duas bicadas:
— Será verdade o que dizes, Artur; mas é também verdade que, antes de cá vir, não me doía nada, e se eu soubesse que teria de acabar assim, às mãos dos meus próprios autores, não teria vindo cá. Ui! Ai!
Albert Hoffmann [1906-2008]. Good trip doc!
Tá certo que ele não parece saber direito a letra. Mas com esse falsete e essa guitarra, precisa? O fato é que Prince gritando ‘I’m a creep’ soa verdadeiro… Acha bizarro? Volte 15 anos:
Você se situa na beira do mundo
E eu, na cratera de um vulcão extinto;
E em pé à sombra da porta,
Perfilam palavras cujas letras se perderam.
Lagarta adormecida que a lua ilumina,
Peixinhos que chovem do firmamento,
E do lado de fora da janela
Soldados de espírito decidido.
Numa cadeira à beira-mar, Kafka
Pensa no pêndulo que move o mundo.
O ciclo espiritual se completa,
E da esfinge que não vai a lugar algum
A sombra em faca se transforma
E trespassa seus sonhos.
Os dedos da menina que se afogou
Tateiam e buscam a pedra da entrada.
Ela arregaça a barra do vestido azul
E contempla Kafka à beira-mar.
De Kafka à beira-mar, Haruki Murakami