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LSD touch down
1, 15, Novembro, 2009, 8:56 pm
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Via Kidids



Got to be a joker he just do what he please
1, 9, Novembro, 2009, 12:45 am
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Jean-Paul Jacob
1, 27, Outubro, 2009, 10:06 pm
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> Perfil e entrevista do matemático da IBM para a revista V # 35

7h18

Exatamente nesse horário, todo santo dia o matemático brasileiro Jean-Paul Jacob desperta para sua agradável rotina como professor da Universidade de Berkeley e pesquisador emérito da IBM: prever o futuro

Sim, exatamente 7h18. Afinal, números devem ser implacavelmente exatos na vida de um sujeito acostumado às variáveis do porvir. E lidar com paradoxos é o esporte favorito deste paulistano de 73 anos, que há quase 50 deixou o país para trabalhar na IBM. Formado em engenharia eletrônica pelo ITA de São José dos Campos, PhD em matemática e engenharia em Berkeley, hoje está aposentado como gerente de pesquisas no Centro IBM de Pesquisas em Almaden, Califórnia, mas continua no batente como pesquisador emérito e segue dando aulas na Universidade de Califórnia. O mesmo lugar onde, nos anos 60, durante os confrontos entre estudantes e policiais, foi preso – por jogar bridge na porta da universidade, impedindo a passagem.

Era a primeira vez que eu ganhava no bridge, não podia parar de jogar“, conta ele à V, por telefone, em duas horas de entrevista. Hoje o cientista não se permite tais galhofas – devido a seus probleminhas com o diabetes, quase não sai de casa. “Todos os dias, invariavelmente, enquanto não for pro www.beleleu.com, estudo duas horas. Isso me dá mais acesso a informação do que pessoas que na mesma hora vão ao cinema ou ao restaurante. Leio 20 fontes de informação, publicações técnicas e de notícia, estou o tempo todo criando associações. Não tem nenhum louco que estuda como eu, acho!“, afirma.

Jacob mora num subúrbio de Berkeley cujo nome prefere ocultar. “Só digo que é um lugar que pratica o chamado autogoverno – não vou dizer o nome pra ninguém vir pra cá. Mesmo San Francisco não agüenta mais turistas! Só dou uma dica: meus vizinhos são supercriativos e trabalham na Pixar, têm 5 Oscars. Perto tem um instituto de criogenia, corpos congelados são meus vizinhos… E tem gente que deixa só a cabeça pra congelar, imaginou a confusão quando descongelarem?” A diabetes impede este infatigável conferencista e professor de escrever, por conta de uma neuropatia, e mesmo de ler – o faz numa tela plana gigante. Ficção, a última vez que leu tinha 17 anos, “Sherlock Holmes, acho. Me interesso é por ciência, sou um hipernerd. O meu hobby é o meu trabalho mesmo“.

E o trabalho é organizar o imprevisível – imaginar o que a IBM pode criar em cinco, dez ou cinqüenta anos, de acordo com as pesquisas que realiza junto a pessoas comuns. Uma de suas profecias, já velha em 30 anos, se chama convergência – a idéia, hoje banal, que coisas tão diferentes como um telefone, uma câmera, um computador e um tocador de música pudessem partilhar o mesmo ínfimo espaço. No momento, o que entusiasma Jacob é o chocolate, um de seus autodeclarados vícios (“só como aqueles com 75% de cacau, sem açúcar“, diz). No futuro, depois que o genoma do cacau for decifrado, poderá ser criada uma nova espécie imune a pragas. Outra predição de Jacob também tem a ver com gastronomia: a criação do nariz artificial.

Quando você está doente, exala substâncias químicas que informam que você tem determinada enfermidade. O nariz eletrônico, assim, pode ajudar à medicina. Essa tecnologia também pode ser aplicada em outras coisas: você poderá baixar cheiros pela internet. Ou ligar a TV e no meio da cena de um filme sentir, junto com os atores, o cheiro da feijoada deliciosa que eles estão comendo. Já pensou?” Para se fazer mais perguntas do tipo “Já pensou?” e “E se…?”, siga o ótimo papo com Jacob.

JPJ

Você trabalhou com computação analógica e recentemente disse que esta forma de tecnologia é muito semelhante à quântica e à biológica. Como andam as pesquisas em relação à computação biológica e quântica? Pra falar da computação analógica é fácil: basta pensar no cérebro, muito mais poderoso do que qualquer supercomputador. Só para dar um exemplo: você vê do outro lado da rua uma pessoa e diz “aquele senhor” ou “aquela senhora”. Isso é reconhecimento de padrões, coisa que o cérebro faz muito fácil. Computadores até fazem bem um reconhecimento de padrões, mas não satisfatoriamente, não podemos garantir que tudo está entendido, simplesmente porque o computador ainda não compreende algo que para nós é comum: o contexto.

E por que não usar o cérebro como modelo para novos computadores? Não é fácil. Ele é análogico, sinapses têm um poder computacional fenomenal. Gostaríamos de entender como funciona o cérebro para avançar nas pesquisas sobre saúde: afinal, ele comanda o corpo, faz criar anticorpos, etc., talvez se conseguirmos imitar o cérebro pudéssemos curar pessoas. Já começamos pelo Projeto Genoma, queremos entender como as proteínas mal dobradas são parte da receita de um DNA. Ainda não sabemos como se dobram, e uma proteína maldobrada traz doenças.

Já conseguimos listar as proteínas – é como você pegar uma fita de tecido composta de várias pequenas fitas coloridas todas juntas em 22 cores diferentes: cada fita é um aminoácido – o total de cores forma a proteina ou o genoma de alguma coisa. Para você ter uma idéia da complexidade disso, temos 35 mil fitas no corpo. O Projeto Genoma é um livro listando essas fitas. A fita é amarelo/verde/verde/azul/vermelho para dizer se você tem um resfriado ou não, por exemplo. Uma vez que a proteína se dobrou no corpo, temos um problema muito difícil de computar, não há poder computacional suficiente. Para resolver esse problema é que surgiu a idéia de inventar um novo tipo de computação: a quântica. Porque para essa operação, precisamos pensar em tetraflops. Um tetraflop é um milhão de bilhões de operações por segundo. Tem um supercomputador na Arábia Saudita assim, a IBM tem 18, a Petrobras e a USP têm, mas não chegam a 500 no mundo todo.

Explique um pouco mais por que é tão complicado um computador entender o contexto… Nossa conversa aqui, apesar de parecer simples, é fenomenal. Nosso entendimento depende de circunstâncias contextuais, históricas, sociais. Se você disser “Todas as sextas-feiras eu almoço com a minha mãe, e você?”, uma frase simples, uma inteligência artificial ainda não entende isso. A clássica sentença “Please write to Mr Right right now” ["Por favor escreva ao Sr. Right agora mesmo"] dá um nó no coitadinho. Outra complicada é você falar “eu vim verificar”, ele pode entender “eu vim ver e ficar”.

Você tem algum método para fazer as previsões? Em geral olho três coisas para prever o futuro: primeiro, o que as pessoas querem? Tem uma coisa na IBM chamada Innovation Jam, todo mundo em harmonia improvisando, é a maneira Wiki de pensar, colaborativa. Abrimos à população mundial para sugerir 5 coisas que querem ver em 5 anos.

No último Innovative Jam, de 2005, 150 mil pessoas de 50 países participaram, e baseado nas respostas deles, investimos 100 milhões de dólares para desenvolver essas 5 idéias. As idéias mudam a cada 3 anos, têm importância relativa. As mais recentes são reconhecimento de fala e entendimento semântico, que cai naquela história de contexto . A segunda coisa pergunto é: “Quais são os grandes problemas do mundo?” Hoje é saúde, reaproveitamento de fontes renováveis de energia, e, pelo menos nos EUA, economia. Finalmente, em terceiro lugar: “quais são as tecnologias que estão surgindo e que ainda podem ser desenvolvidas?”.

Por que ainda engatinhamos na computação quântica? Houve uma aceleração inicial e depois emperramos. Para falar nisso precisamos abordar o que em matemática chamamos de teoria dos conjuntos. Simples: pares, ímpares, conjunto de automóveis, de sapatos, de carecas etc. A lógica é desenvolvida para que perguntemos: este objeto pertence a algum conjunto? Sim ou não. Aí, há 20 anos, na minha universidade, um sujeito percebeu que a teoria de conjuntos não serve para nada na vida real. Porque não temos conjuntos definidos, e sim conjuntos nebulosos. Por exemplo, o citado conjunto dos homens carecas, aí vai da perspectiva da cabeça de cada um [risos].

Então, um colega meu de Berkely, Lotfi Zadeh, inventou a teoria dos conjuntos nebulosos, a lógica difusa ou fuzzy logic. E aí partimos para um desafio: fazer um computador que não pense exatamente em zero e um, sim ou não – existe o estado quântico que não está nem no um nem no zero, e ele funciona com essa incerteza. É o tal negócio, o computador vê uma pessoa do outro lado da rua e se pergunta, “é homem ou mulher?” Você pode responder, “bem, depende do jeito como a pessoa rebola”, mas até aí, como determinar com precisão o que é rebolar mais ou menos?

Como estão as pesquisas da IBM em relação à inteligência artificial? Primeiro precisamos definir o que é inteligência natural. Aliás, o que é inteligência? Aqui, em um programa de TV de perguntas e respostas, tipo Quem quer ser um milionário?, chamado Jeopardy, um cara ganhou 36 milhões de dólares – e foi descoberto que ele tem um baixíssimo QI. A inteligência prejudica? Seres humanos não são precisos como a matemática.

A IBM teve o computador Deep Blue, que ganhou no xadrez de Kasparov. Mas isso não é nada: como diz o professor Zadeh, o problema mais dificil em tecnologia é criar um computador que jogue Jeopardy melhor que qualquer ser humano. A IBM aceitou o desafio e está construindo um campeão mundial de Jeopardy: seu nome é Watson. Você pode acompanhar essas pesquisas encontrando meu avatar no Second Life – meu nome lá é Jampa Babeli, e ele mora em um tapete voador. É um cara muito legal, discute muito comigo. Afinal, não existe a verdade absoluta [risos].

JeanPaulJacob

Fora as pesquisas em computação quântica, há também a computação cognitiva… Ainda estamos muito no começo disso, ainda não fizemos um computador que processe mais que 5 qubits – o qubit é o bit quântico, que pode querer dizer, ao mesmo tempo sim e/ou não. Daqui a uns 50 anos, talvez descubramos outra maneira de trabalhar com a computação quântica. Em paralelo, fazemos cognitive computing, em que pesquisamos como restaurar parcialmente a visão de um cego, restaurando funções do córtex.

Tudo isso ainda está bem no começo ainda: a maneira que a IBM ataca para tentar entender o cérebro é tentar copiar um. Já até modelamos o cérebro de um rato. Você pode achar fácil, afinal só se trata de um rato, mas pense bem, um rato é inteligente demais para vir a ser um senador [risos].

O cientista Eric Horvitz presidiu, em fevereiro, uma conferência fechada da Associação para o Avanço da Inteligência Artificial, em que houve um consenso sobre a necessidade de se impor limites às pesquisas que resultem na perda do controle humano sobre sistemas computacionais, para não pôr em risco a sobrevivência do Homo sapiens… Estou permanentemente discutindo isso: se robôs dominarão a humanidade. Mas primeiro precisamos saber o que é inteligência natural. Uma das características da minha pessoa é que eu gosto de simplificar as coisas; se não conseguir simplificar, não entendo. Assim, simplificando, acho que inteligência é a capacidade de extrapolar para uma nova situação conhecimentos ou vivências já definidos. Um índio, infelizmente, não consegue provar um teorema. Se eu disse para um índio que no Brasil não existem mais canibais porque comemos o último o mês passado [risos], ele não vai entender e vai me comer [risos].

Enfim, devemos temer a inteligência artificial? Muitas pessoas acham que sim, mesmo dentro do Vale do Silicio. Aqui há a Singularity University, que investiga o momento em que o ser humano será ultrapassado por uma inteligência artificial – que é quando ocorre a Singularidade. Eu particularmente acredito que o ser humano terá sempre controle sobre aquilo que constrói.

Ray Kurzweil, o grande teórico da Singularidade, quando afirma ser possível fazer um “upload” de sua mente em um corpo mais jovem, em cerca de 30 anos… Certamente que não em 10 anos. Kurzweil é uma dessas pessoas obsessivas que a gente vê de vez em quando. Digamos que você vê que é doente. Uma dor no dedo vira uma paranóia. A crença dele é que seremos dominados por máquinas. Se você disser a um robô “você vai me dominar”, somos nós que dominamos. Agora, é fácil fazer previsões desse tipo, quando você já está com quase 70 anos… [risos]

Alguma previsão sua foi criticada? Tem duas previsões que tive coragem de fazer e que criaram reboliço, mas são triviais – mesmo assim, na época quiseram me despedir da IBM por causa delas. Nos anos 1970, eu disse que o vinil iria desaparecer e o pessoal ficava zangado comigo, por conta da afinidade sentimental com as capas de discos… Nos anos 80, eu disse que o livro iria desaparecer. Agora, digo que os jornais vão desaparecer, assim como a sua revista. Não interessa o invólucro, e sim o conteúdo, e é isso que sua revista produz.

E alguma que deu certo? A que fez com que eu ficasse mais conhecido foi o computador JPC-2K, que inventei nos anos 70. Era um notebook: não tinha fios, se comunicava por ondas eletromagnéticas, tinha tela sensível ao toque, autofalantes, câmera – a única diferença era que o meu JPC tinha uma ranhuma por onde você colocava um papel e saí do outro lado impresso.

O conceito de cloud computing ainda é novo, mas pode ser revolucionário. É viável usar uma grande massa computacional ao redor do mundo para aumentar a capacidade de processamento para um problema – a dobragem de uma proteína, por exemplo? No momento não. A computação em nuvem não é apropriada para computação em paralelo. O objetivo não foi esse, e a arquitetura não foi feita para isso. O futuro da cloud computing é excelente, todos nós acabaremos migrando para isso, ninguém vai precisar carregar um dispositivo para qualquer lugar, porque tudo estará salvo lá na nuvem.

Como você vê a aceleração do tempo que vivemos, aliada à fragmentação do conhecimento exposta em plataformas como o Twitter? Esta é uma geração diferente; eu, por exemplo, nem tenho celular, não sei fazer multiprocessamento, entraria em pânico se tivesse que parar algo que estou fazendo pra fazer outra coisa. Enquanto eu guio não mando mensagens, tento prestar atenção no trânsito. Por outro lado, tenho um raciocínio mais rápido que de muitos jovens. A aceleração tecnológica é realmente incrível. Mas eu guardo o sentido comum, a verificação, a intuição.

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Conhece a Curva de Aceitação de Tecnologia? É assim: surge uma nova tecnologia, aí ela voa até o Pico de Expectativas Exageradas; em seguida, cai até que vai ao Vale da Desilusão; daí, sobe de novo, e finalmente atinge o Patamar de Aceitação. Isso serve para tudo. Eu estou sempre estudando as tecnlogias mais velhas, mais aceitas. Os jovens vão para a mais rápida, e se desiludem fácil. É preciso manter a idéia do macro para entender essa velocidade tecnológica.

O que haverá depois da Internet? Será um ambiente habitado majoritariamente por não-humanos. Hoje já existem mais usuários da internet não-humanos, só dez entre cem são pessoas. Dentro de poucos anos teremos um trilhão de usuários de internet. Afinal, todos os objetos serão interligados. Vamos “sensoriar” o mundo muito melhor. A IBM chama isso de Smarter Planet. Saberemos tudo: a condição dos rios, dos peixes, do trânsito, do desmatamento, tomaremos decisões mais inteligentes. Poderemos monitorar uma artéria e agir no momento exato que uma pessoa está prestes a ter um enfarte.

Com o excesso de objetos interligando tudo, será que já não vivemos num mundo orwelliano? Essas medidas não serão medidas de controle, e sim para comprender o mundo. Sobretudo porque as informações serão todas disponíveis para todos. Devemos usar a tecnologia para melhorar nossa qualidade de vida, e não para controlar os outros. A área de saúde vai se beneficiar muito. Imagine um hospital tendo acesso a todos os dados de pessoas que já tiveram o que você já teve.

Sempre sob supervisão médica, o computador pode ser melhor que um médico. No futuro, espero que breve, remédios não servirão para curar doenças, e sim uma pessoa para uma doença: o remédio será on demand, criado a partir do seu material genético. O remédio não será feito para curar uma doença, mas para uma única pessoa com essa doença. É o remédio personalizado.

No futuro tudo será massificado porém personalizado, é isso? A palavra que melhor descrevo para o futuro é Colaboração. O cliente hoje já colabora com o produto e o serviço. O leitor poderá dizer ao escritor no que ele se interessa. O Horizon Project Report, um relatório espetacular, bíblia da educação do futuro, foi elaborado por 50 professores, mas ninguém assina. Sou uma deles.

A WikiPédia desbancou todas as enciclopédias porque é feita por colaboração. Se alguém me perguntasse qual matéria todos os alunos deveriam estudar, digo que seria Técnicas de Colaboração em Web 2.0. Aliás, obrigatório para jornalistas. Porque os jornais, já disse, estão indo para as cucuias.

Chris Anderson, editor da Wired, criou o conceito “cauda longa” que prega que a era digital tornará todos os serviços gratuitos. Você concorda com isso ou acredita, como muitos, de que ‘não existe almoço grátis’ na internet? Música tem que ser grátis se o ato de baixar da internet faz com as pessoas vão a mais concertos e shows. Mas depende de cada produto e serviço. Acho que uma primeira consulta deveria ser grátis, como num médico. No momento, não vejo um grande conflito se você dispõe o seu produto online. Quanto mais pessoas lerem sua matéria, você poderia ganhar mais. Seria pago pela produtividade e pelo sucesso. Os modelos devem ser repensados.

Como vê a posição do Brasil hoje em termos de criação, desenvolvimento e produção de altas tecnologias? Ainda somos muito atrasados… Nem tudo. Meus colegas de ITA criaram a Embraer, eu estava lá quando foi criada. Um dos grandes azares da minha vida foi não ter confiado no Brigadeiro Montenegro, e até briguei com ele, porque não acreditei que a gente pudesse competir com Boeing ou Aerospaciale. E a Embraer é um sucesso hoje.

O Brasil tem capacidade de fazer o que quiser. Vontade política… eu já não sei. Infelizmente o modelo de remuneração é insuficiente. Professores são ridiculamente mal pagos no Brasil. Na França ainda é melhor que nos EUA, o professor se aposenta e recebe 110% do seu salário. Mas não entendo nada da política brasileira. Tem gente até boa no governo, só não sei o quanto mandam. Um dos que passaram pelo ITA hoje está à frente do avançadíssimo Projeto CESAR em Pernambuco, o Silvio Meira.

Você me parece um otimista, mas temos hoje previsões sombrias, como o aquecimento global… acha que vamos dar um jeito nisso antes de a coisa ficar preta? Se você não for otimista fazendo pesquisa, nunca vai tentar coisas impossíveis. Só alcançamos o possível por acaso: procurávamos umas coisonas e achamos coisinhas. Uma vez, em matemática, eu estudava teoria dos grupos, queria criar uma teoria nova para escrever um artigo e fazer um dinheiro – e de repente pensei: aquele estudo serviria para criar códigos de criptografia. Hoje esses estudos estão adotados pela IBM.

Outra coisa foi a extrema miniaturização de câmeras, que não passa de um sensor de imagem. Queríamos câmeras pequenas, para colocar na moldura de um espelho – a idéia era criar espelhos inteligentes para festas, reuniões. Se tivesse nos óculos uma câmera discreta, poderia captar a imagem para enviá-la a um computador. Então pensamos: se tenho uma câmera olhando alguma coisa, estamos transformando essa imagem em sinais elétricos; por que não retornar a informação ao córtex para excitar os nervos de uma pessoa cega, e assim restituir a visão a um cego? Na IBM acontece o tempo todo atirar no que se vê e acertar no que não se viu. Um exemplo é o colete à prova de balas que avisa quando alguém atirou uma bala em você – uma microcâmera percebe a aproximação rapidíssima de um pequeno objeto. Foi sem querer que inventamos isso…



Seu monstro!
1, 26, Outubro, 2009, 8:58 am
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>> Resenhol de sábado pro Outlook no BrasilEconômico

Monstros Ilimitados

Clássico infantil de Maurice Sendak é finalmente lançado no Brasil, seguido por recriação de David Eggers e filme de Spike Jonze

Todo menino de oito anos é um monstro. Os dentes de leite estão caindo, a segunda infância mal chegou, a adolescência parece um lugar nojento e o universo adulto é detestável. De repente, o mundo administrado surge triturando todo indício de sonho. Qual a saída para este serzinho estranho? Fugir para onde vivem seus iguais – os monstros. Esta seria uma interpretação à clássica fábula moderna Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak (finíssima edição da Cosac Naify), que, traduzido em 20 países e com 19 milhões de exemplares desde o lançamento em 1963, reúne entre seus fãs do presidente Barack Obama ao diretor John Lasseter (de, como você viu pelo vídeo acima, Monstros S/A – no AMC Movie Blog tem uma reveladora comparação entre as duas obras).

O livro não agradou de cara. “Só críticas negativas… Aí, dois anos depois, descobriram que nas bibliotecas as crianças estavam loucas por ele!“, recorda o escritor e desenhista Sendak, um ranzinza novaiorquino de 81 anos. Narrativa revolucionária para época, a história é narrada quase sem palavras. Max, um capeta em forma de guri que não desgruda da fantasia de lobo, um dia apronta tanto que a mãe o manda para o quarto sem jantar. Seu quarto vira uma floresta, e, ali perto, um barco o convida à aventura no oceano. Dias e dias velejando, Max aporta em uma ilha habitada por bichos gigantescos, que querem comê-lo. Max os domina com seu charme; e se torna O Rei dos Monstros. A ilha é uma festa. Porém, logo vem o tédio, a saudade… e o menino ouve de novo o chamado do mar. E retorna ao quarto – onde o jantar o espera, quentinho.

A idéia de que toda criança é um ser diferente que deseja governar um território selvagem (o título original é “Where the wild things are”) não surgiu assim tão clara a Sendak. Para desenhar os maravilhosos monstros, o autor se inspirou nos tios e avós, judeus que fugiam do Holocausto e foram acolhidos pelos pais. “Tudo neles era tão alienígena! Eu e minha irmã éramos americanos; não queríamos ser estrangeiros. E eles falavam iídiche; não os entendíamos… Não os queríamos por perto. Em seu jeito rude de demonstrar afeto, me assustavam. Achava que poderiam me comer!“, contou Sendak ao guia NYCGo. Outra inspiração veio da própria Nova York: Sendak é do Brooklyn, e a primeira visão dos iluminados edifícios de Manhattan imprimiu em sua imaginação uma cidade amedrontadora, povoada por seres fantásticos.

Na Newsweek, o genial e genioso Sendak mandou pro inferno os pais que reclamam do caráter assustador do livro. “Que as crianças molhem as calças, ora!“, chiou o autor de mais de 100 histórias infantis, cujo mítico mau humor distancia sua figura de duende da de um bom velhinho fabulista – como se nota nessa ótima conversa à National Public Radio .

Sendak me determinou que o filme deveria parecer perigoso; que respeitasse as crianças e não as tratasse como inferiores“, detalhou o cineasta Spike Jonze sobre as filmagens de Wild Things, realista adaptação roteirizada por ele e David Eggers – Sendak, que detesta Walt Disney, era contra o livro ser recriado como animação. O longa de Jonze (Quero ser John Malkovich) recém-estreou nos EUA, conquistando crítica e público; no Brasil, será lançado em janeiro de 2010. Enquanto isso, o leitor terá em breve o romance Os monstros (Companhia das Letras), que Eggers burilou sobre o roteiro – as 37 páginas do livro de Sendak foram amplificadas para mais de 300 no novo livro. Hábil na investigação da psique infantil, o jovem autor de O Que é o Quê renovou o argumento de Sendak: além dos seres bizarros, Max confronta-se com pai ausente, mãe namoradeira, irmã egoísta, escola chata, amigos cruéis. Monstros bem mais assustadores que um fofinho galo de quatro metros de altura resfolegando “Eu vou te comer“.



Vamo colaborar ae, porra
1, 21, Outubro, 2009, 12:25 pm
Arquivado em: livros, mags, mundo real, negócio de arte, oncotô, periodismo


>> Pensata-playground do mês pra siempre fuefa Vida Simples

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Consciente coletivo

Socializou geral: a criação individual (e, eventualmente, o egoísmo) passou a ser questionada por uma série de artistas, produtores de conteúdo e até comerciantes. São os tempos da “cultura wiki” (de Wikipédia). Mas será mesmo possível que o conhecimento seja criado coletivamente?

Enquanto pensava na pauta que o editor me havia entregue, sem a menor idéia de como começar, resolvi procrastinar mais um pouco o início da escrita deste artigo assistindo ao segundo episódio da sexta temporada de House – quando me dei conta de que ele ainda não havia passado no Brasil (só chegaria à TV a cabo uma semana antes desta edição de Vida Simples chegar às suas mãos). Via Twitter, uma amiga, a escritora Ivana Arruda Leite, deu a dica de onde baixar o episódio para meu HD – e legendado: seis horas depois de passar na TV norte-americana, uma rede brasileira de fãs do sarcástico supermédico já havia feito voluntariamente esse trabalho, e muito bem.

A história, chamada Um belo tropeço (spoiler: vou descrever o episódio por cima…), enquadra um gênio dos videogames de realidade virtual “acometido por uma doença misteriosa” (desculpe, Humberto Werneck*). Doutor Gregory House, ainda em tratamento psiquiátrico, declina da chefia do departamento no hospital. Seu auxiliar direto, o doutor Eric Foreman, resolve agarrar a chance de ser o novo astro médico e encara o caso. O problema é que o paciente não consegue se desplugar da internet e não engole os diagnósticos de Foreman e seus assistentes, o narigudo Taubman e a deusa Thirteen, aliás namorada do novo chefe. Então o irritante gênio da informática, de temperamento muito semelhante ao de House, resolve jogar na internet uma recompensa de US$ 25 mil para quem encontrar primeiro a cura para sua doença.

Foreman fica maluco de raiva, mas no seu jeitão frio, como sempre, tenta descobrir que raios tem o impaciente paciente. Não pode vacilar: além de ser seu primeiro caso depois da derrocada do ex-chefe, sua namorada é agora sua funcionária. Querendo ser salvo na mesma velocidade com que se compra um produto no eBay, o doente meganerd o confronta: o que vale a opinião do chefe de diagnóstico de um único hospital perto da opinião estatística de dezenas de médicos anônimos espalhados pelo mundo, loucos para descolar aquela grana? Quem chega primeiro na cura, o indivíduo ou o grupo?

Exagerando no paralelo midiático, a situação é quase a de uma concorrência entre um velho modelo de informação (a equipe do Dr. Foreman, ou os jornais) contra um novo (os médicos que o acessariam pela internet, ou os blogs, microblogs, portais na internet alimentados pela audiência), todos em busca de uma convergência (o paciente, ou o leitor/consumidor). Quer dizer – graças àquela twittada da minha amiga, eu encontrava o percurso para a escrita deste artigo, do lado de cá, e sua leitura, do lado daí.

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Um percurso desenhado pelas mesmas perguntas lançadas tanto pelo seriado quanto pelo editor: quais são as fronteiras entre individualidade e colaboracionismo na solução de um problema? Dentro da nova consciência de socialização do pensamento trazida pelo colaboracionismo na web, é possível sobreviver sendo um individualista extremo como um Gregory House? No telecatch competição X colaboração, quando é que acontece a passagem de bastão entre a mentalidade das Décadas do Eu (os anos pós-revolução sexual, 70, 80, 90) para a nova mentalidade colaborativa dos anos 00? E afinal: existe mesmo uma criatividade coletiva? Se sim, ela pressupõe o fim da autoria?

O tema é um amplo e sedutor buraco negro tentando fazer com que despenquemos numa deriva infinita. Mas façamos uma diferença clara, binária, entre a inteligência individualista, da obra fechada, do ponto fixo, e a colaborativa, da obra aberta, da rede. Sobre esta segunda é fundamental a Obra aberta de Umberto Eco, revolucionário estudo da teoria da informação lançado, não por acaso, no ano de 1968. Ali o ensaísta italiano propõe uma divisão entre o discurso aberto (pense na internet, de múltiplos emissores e receptores) e no discurso persuasivo (pense na TV, um só emissor, vários receptores). Ao contrário do discurso persuasivo, que nos indica soluções definitivas, o aberto é um discurso ambíguo: “A mensagem não se consome jamais, permanece sempre como fonte de informações possíveis e responde de modo diverso a diversos tipos de sensibilidade e cultura; é um apelo à escolha”, afirma o italiano.

A não ser nos Woodstocks de então, nem se usava muito a palavra interatividade, mas por certo era nisso que Eco estava pensando. Em 1985, um outro escritor italiano, Italo Calvino, propunha que uma das características da obra de arte do século 21 fosse a Multiplicidade. Baseando-se na Obra aberta de Eco, aponta um exemplo de estrutura aberta à intervenção: Vida, modo de usar, de Georges Peréc (1974) – um hiper-romance cujos 99 capítulos podem ter sua leitura intercambiada livremente, como a montagem de um quebra-cabeças. Experiência parecida com a leitura do inovador Jogo de amarelinha, publicado em 1963 pelo argentino Julio Cortázar, em que a literatura, mais individualista das artes, pede a intervenção direta do leitor para ser fruída em sua totalidade.

Quando falava em “multiplicidade”, Calvino talvez não sonhasse com a existência do termo hyperlink – a sinapse internética que sintetiza o estilo de vida contemporâneo, 24 horas online. E quando sugeria a “obra aberta”, Eco apenas intuía a formulação de um modelo de produção somente viável graças à nossa aceleração tecnológica. O impacto da internet tornou possível tanto idéias como o open source (do software aberto, como o Linux) quanto a disseminação de redes sociais que sustentam a idéia de uma imaginação colaborativa: nas artes plásticas, na música, na mídia, no comércio. (Ainda falta a instância política, mas um dia chegamos lá.)

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Inteligência Coletiva X Burrice das Multidões
A inteligência colaborativa foi definida nos termos de hoje pela cientista norte-americana Vera John-Steiner, em Creative Collaboration (sem tradução aqui). Neste livro, Vera investiga como as idéias surgem através da observação do método de trabalho de parcerias famosas, como entre os artistas Georges Braque & Pablo Picasso, Georgia O’Keefe & Alfred Stieglitz, ou os físicos Marie & Pierre Curie, Albert Einstein & Niels Bohr. Embora enfoque como a aproximação – literária e amorosa – entre os escritores Anaïs Nin & Henry Miller foi determinante para a criação de cada um, por certo o estudo de Vera seria ainda mais interessante se ela se detivesse no curioso caso dos escritores argentinos Jorge Luis Borges & Adolfo Bioy-Casares, que narravam “sob uma terceira” persona”, um tal Bustos Domecq. Ou, em exemplo mais próximo, na intrigante maneira como os jovens escritores paulistanos Vanessa Barbara & Emilio Fraia construíram uma identidade literária comum inventando a quatro mãos o elogiado romance Verão de Chibo (Alfaguara).

Pesquisando inteligência colaborativa na web (onde mais eu arranjaria tanto assunto?), topei com o blog de Gilberto Jr., um esperto designer de interfaces (http://desta.ca/pratica/) que se dedica a estudar tanto a ciência das redes quanto orientar um grupo de leitura coletiva da… Bíblia. Atendo-se aos aspectos terrenos da web 2.0, Gilberto indica a leitura de um excelente artigo de Kathy Sierra sobre a sabedoria das multidões. Segundo esta crítica professora de programação e criadora de games norte-americana, aproveitar a inteligência coletiva pode trazer muitos benefícios – desde que não seja necessário um consenso prévio entre a comunidade em questão: assim, agrega-se de algum modo a sabedoria de cada indivíduo independente (e a interdependência é a senha aqui). Kathy exemplifica:

* inteligência coletiva é um monte de gente escrevendo resenhas de livros na Amazon. Burrice das multidões é um monte de gente tentando escrever um romance juntos;

* inteligência coletiva são todas as fotos no Flickr, tiradas por indivíduos independentes, e as novas idéias criadas por este grupo de fotos (e o API). Burrice das multidões é esperar que um grupo de pessoas crie e edite uma foto juntas;

* inteligência coletiva é pegar idéias de diferentes perspectivas e pessoas. Burrice das multidões é tirar cegamente uma média das idéias de diferentes pessoas e esperar um grande avanço.

Segundo Kathy, um link não fica em primeiro lugar no google depois que todos os usuários da internet chegam a um consenso de que aquele link é o melhor. Mas o Google aproveita a inteligência coletiva contando mais pontos para os links que são citados por muitos indivíduos independentes. Por buscar consenso entre os editores dos artigos, a enciclopédia colaborativa Wikipédia poderia ser um fracasso, mas o trabalho dos administradores (tomando decisões nem sempre geradas pelo consenso) determina a qualidade do conteúdo. Isto signifiva que, mesmo socializada, a inteligência colaborativa não dispensa um eixo organizativo; em outras palavras, é preciso um editor.

A inteligência colaborativa deu origem a uma nova disciplina: a ciência das redes. Um de seus principais divulgadores no país é Augusto Franco, que arranjou para a dinâmica da educação em rede através de pressupostos de otimistas da sociedade da informação, como Pierre Lévy (A inteligência coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço, Loyola, 1998) e Fritjof Capra (A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos, 1996). No site Escola de Redes, Franco dá o caminho das pedras: “A idéia é conectar pessoas ou redes de pessoas (nunca instituições hierárquicas) de modo distribuído – o que compreende estrutura (forma de organização distribuída) e dinâmica (modo de regulação pluriárquico). O modo de regulação pluriárquico, compatível com a topologia distribuída, não adota procedimentos e mecanismos que produzam artificialmente escassez, como a votação, o sorteio, o rodízio ou a construção administrada de consenso.” Ou seja, é uma entidade que se auto-organiza a partir de regras fixas.

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Nem todo mundo, claro, vê com olhos tão felizes a inteligência coletiva. É o caso de Eugênio Trivinho, professor do programa de estudos pós-graduados em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autor de A Dromocracia Cibercultural. Dromo, do grego, significa velocidade, marca da contemporaneidade. Trivinho é um cético.

As redes sociais são um fenômeno. Podemos considerá-las um grande horizonte do humano, porque criam possibilidade de laços, de aprendizado e crescimento coletivo“, ele aceita. Porém dá um passo para trás: “Fala-se hoje de inteligência coletiva como forma de reprodução da criatividade, da inovação. Tudo isso é verdadeiro do ponto de vista dos horizontes que a cibercultura nos coloca, mas temos de ter um olhar menos entregue. Não é simplesmente o caso de abraçarmos o discurso vigente, que é ciberufanista. Ele é ufanista porque promove produto, governo, o acesso universal. Hoje, temos dispositivos que articulam um corpo ao outro, uma casa a outra, uma empresa a outra. E não obstante isso não aboliu a nossa solidão. Nós somos talvez os seres mais solitários e, por isso, precisamos de vínculo“, analisa o professor.

O homem-engradado
Como vimos, a internet tornou possível agregar muitos talentos em esforços sem gerentes (Wikipedia, Linux). Um bom exemplo é a ação coordenada pela agência LiveAD, um braço do Grupo Box1824, pioneiro no Brasil na investigação de tendências da juventude (entre 18 e 24 anos, daí o nome) e mais quente pólo de cool hunters (“caçadores de bacaneza”) do país. Para dar publicidade à missérie Dom Casmurro, na Rede Globo, em 2008, que buscava falar com um público tradicionalmente desconectado da televisão modernizando o clássico de Machado de Assis, a agência criou o projeto Mil Casmurros, uma rede social online de leitura coletiva da obra. O livro foi dividido em 1000 trechos que foram hospedados num site em que qualquer internauta podia escolher e gravar sua leitura direto da webcam. Líderes de opinião da mídia brasileira começaram gravando seus trechos, para que estimulassem outros leitores à participação. Em um mês a leitura estava completa: foi uma das primeiras e mais impactantes leituras coletivas de um livro na internet – até mesmo faturou um Leão de Ouro em Cannes na novíssima categoria de Public Relations.

Migrando da publicidade para o mercado livre, o modelo colaborativo está presente na original loja Endossa, em São Paulo. Ali, todos os produtos de diferentes marcas ficam em boxes, e, dependendo da sua circulação, perde ou ganha seu espaço. Ou seja, o cliente é o responsável direto pela organização da loja. “A regra do endosso dá poder para que os consumidores decidam quais marcas participam da loja. Quanto mais você compra, mais a loja se molda à seu gosto e ao seu estilo”, propõem os proprietários do espaço, na rua Augusta.

Além da forte interação com o público, o modelo colaborativo tem uma faceta ainda mais radical: a dissolução da autoria. É fenômeno já velho nas artes plásticas – pense em grupos como o Wu Ming, um coletivo italiano de escritores que publicam romances de temática política (New thing, editora Conrad) –, mas aos poucos vem transitando naquele “território de ninguém” entre a arte e o comércio, entre a marca pessoal e uma solução específica para um cliente.

Nesse terreno batalham os coletivos profissionais de fotógrafos, que começam a surgir com força no contexto ibero-americano. A massificação da oferta de imagens e a saturação dos meios de difusão tradicionais apresentam aos autores a necessidade de gerar novos modelos de representação, capazes de destacar sua produção entre milhões. Assim, os coletivos atuam tanto como banco de imagens, como plataforma comum para furar um mercado fechado, ou como máquina de criação conjunta, gerando interessantes sinergias e fóruns de discussão entre os membros da equipe. No Brasil, grupos como o paulistano Cia de Foto e o carioca Fotonauta fazem seus autores desaparecerem por trás de suas lentes – mais ou menos como se Lennon e McCartney jamais assinassem canções sob seus nomes, e sim sempre como os Beatles. Uma idéia crítica, no caso da arte fotográfica – afinal, é um único dedo que dispara uma foto.

Voltando à arte, mais poético é o exemplo dos cratemen. São bonecões gigantes, criados a partir de engradados de bebidas, dispostos nos lugares mais bizarros da Austrália. Ninguém sabe quem começou a criá-los: parecem ter surgido do nada, no início do século. A poesia da intervenção dessa arte urbana não reside somente nas diversas poses dos cratemen – bonecões pescando, andando de bicicleta, saltando muros, dormindo… –, e sim no fato de que ninguém reinvindicar sua autoria. É um terrorismo poético sem causa, sem assinatura, sem violência e sem motivo nenhum. Seu único objetivo é arrancar o passante de sua rotina, tirar um sorriso do observador distraído – quase como uma flor que nascesse do concreto. Mas uma flor de plástico, criada por muitas mãos humanas.

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Chegamos ao fim do passeio, retorno à solução para aquele episódio do House. A cura para o paciente nerd acaba vindo de dois lugares: da mente do Dr. Foreman – e de um e-mail anônimo. O paciente prova assim sua tese: poderia sim ser salvo através da colaboração de várias inteligências. Acontece que o autor daquele e-mail anônimo, como você pode intuir, é ninguém menos do que… sim, ele mesmo, o doutor Gregory House. Que, não custa lembrar, é personagem principal de uma obra criada por milhares de profissionais, mas que nasceu lá no fundo da mente insana do roteirista David Shore. Ainda na dúvida sobre quem vence a briga pela criação, se o bloco do eu-sozinho ou o circo dos conectados? Fique com um trecho de uma carta de Mário de Andrade, pinçada do blog da Cia de Foto, escrita para Otto Lara Resende, que tinha 22 anos na época. Mário, líder do mais importante movimento cultural brasileiro no século 20, o Modernismo, incitava Otto e colegas (Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos) ao exercício da criação coletiva:

“Queria louvar o grupo que vocês fazem, pela força de cada um, pela diferença de cada um, pelo exercício da amizade que soube escolher sem por isso depender de nenhum estreito ‘espírito de grupo’. Isso é um bem grande, uma felicidade, um exercício digníssimo de vida humana, uma grave modéstia, e um conforto sempre. Como invejo isso em vocês! Talvez tenha sido o que mais me faltou. E os meus companheiros de geração, guardo deles este ressentimento, ainda vinham oitocentistamente tão apegados ao exercício do individualismo, nesta terra sem tradições nem raciais nem culturais, que jamais pudemos viver os benefícios, os confortos, as forças do grupo. Vocês também não possuem tradições nem raciais nem culturais que permitam só por si o exercício do grupo. Mas já tem maior consciência dos coletivos, que o sofrimento deste tempo novo lhes dá. Já não estão enceguecidos pela mania vaidosa do exercício interior dos individualistas. São individualistamente caracterizados, e tão diferentes mesmo uns dos outros, mas nesse exercício exterior do individualismo, que deriva das tendências pessoais e das convicções. O que eu chamo depreciativamente de exercício ‘interior’ do individualismo, interior e menos profundo, era aquele em que vivíamos, nascido apenas da preliminar perniciosa de que era preciso ser diferente, já conseguia duvidar da torre de marfim, mas não passava duma derivação dela, e propunha abertamente o slogan ‘nada de grupo! nada de escolas!’, feito sapos que se quisessem elefantes, gorgolejando ‘eu sou eu!’… Vocês precisam amar o vosso grupo e não será invejar demais se me ponho antes de mais nada amando o grupo de vocês e refazendo nele o que eu nunca pude ter. Não é inveja, é saudade.”

Mário de Andrade escreveu esta linda carta em 25 de setembro de 1944. Se você, como eu, saiu deste artigo com mais perguntas do que respostas, tranquilo. A inteligência colaborativa apenas começou – e nada indica que ela irá se tornar o paradigma do conhecimento no século 21, lembre-se que às vanguardas artísticas do século 20 seguiu-se a barbárie nazista; para cada onda de liberdade, uma ressaca de repressão… Caso queira uma iluminaçãozinha que seja, aqui vai uma, apoiada em lugar-comum: nada substitui o talento. Porém, também o talento não substitui o nada que circunda uma inteligência solitária. Isto é tão óbvio como dois e dois são cinco. Certo, Roberto?

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* Verdadeiro wiki dos clichês é O Pai dos Burros, compilação de lugares-comuns e frases feitas criada pelo jornalista Humberto Werneck (Arquipélago)



Ficção homeopata
1, 18, Outubro, 2009, 11:29 pm
Arquivado em: livros, oncotô, periodismo

> Resenhol de sábado pro caderno Outlook do Brasil Econômico

José Saramago no clic de Renato Parada. Why so serious?

José Saramago no clic de Renato Parada. Why so serious?

Em romance ora previsível ora inventivo, José Saramago outra vez usa parábolas cristãs para – outra vez – atacar a Igreja

Em Caim, Saramago prossegue seu esporte favorito: jogar pedra na cruz. O sistemático ataque do Nobel de 87 anos à Igreja usa os ardis da crença cristã – mais ou menos como se um desafeto da axé music recorresse à harmonia da baianidade para enxovalhar o eufórico gênero. Uma ficção assim corre o risco de trazer ao leitor os mesmos resultados do princípio médico similia similibus curantur, o semelhante cura o semelhante: um efeito inócuo. Cristãos sairiam da leitura tão cristãos quanto antes, bem como os ateus. Mas mudar crenças talvez não seja exatamente o alvo de Saramago.

Sob a pena do neo-Voltaire, o assassino de Abel ganha vida de cinema: fantasia-se o que lhe teria acontecido depois que Deus o condena a “ser um vagabundo na terra”, ao mesmo tempo amaldiçoando quem ousasse matá-lo. Saramago rouba esse grão de enredo e inventa um périplo de Caim pelo Gênesis. Seu primeiro desafio é Lilith – na mitologia feminina, a fêmea primordial mesopotâmica, demônio que seduz e destrói os homens. Mas o primogênito de Adão tira Lilith de letra e, qual um Forrest Gump bíblico, sai pelo mundo cruzando gente como Abraão, Isaac, Moisés e , presenciando da queda da Torre de Babel à destruição de Sodoma e Gomorra.

As peripécias vão acumulando no homicida descrenças na justiça divina – até que se acende uma ira santa contra o Senhor. O encadeamento de encontros chega a parecer maneirismo, quando enfim Caim resolve dar uma força a Noé para erguer a arca; e aí Saramago tira da cartola uma solução tão engenhosa e engraçada que por si vale o romance. Batem cartão no livro as metáforas, parábolas e orações caudalosas, os nomes próprios em caixa baixa, os saborosos ditos populares que, no que dizem, parecem dizer o seu contrário graças à ironia, a pontuação quase monótona de tão exata, bem como a extraordinária capacidade fabulatória do autor de Evangelho segundo Jesus Cristo.

Anti-fundamentalismo
Curiosamente, ao narrar na onisciente terceira pessoa, Saramago maneja Caim como títere ao deus-dará e expõe a arbitrariedade do “rancoroso” Deus judaico-cristão – ao mesmo tempo em que a aceita. Em outras palavras, com este procedimento narrativo o escritor português se coloca na mesma posição do seu odiado Deus (ou deus, como prefere). Se ironia ou tiro no pé, ainda não decidi. De qualquer forma, nessa arrogância vislumbro o paradoxo “homeopático” do livro. E daí intuo que, segundo escreveu o amigo Umberto Eco no El País, o ateu autor esteja atrás de outro escalpo: “Saramago não se dirige contra Deus: seu desgosto se dirige contra as religiões (e por essa razão o atacam desde várias frentes: negar a Deus é algo que se concede a todo mundo, já polemizar com as religiões põe em discussão as estruturas sociais)“. O discurso se esclarece quando Saramago cutuca o arquiinimigo Bento XVI, como semana passada em Turim: “Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas seu absoluto cinismo intelectual!“, detonou.

Ou seja – para além de um aparente materialismo fascinado pela mitologia cristã, mais seguro seria afirmar no Caim de Saramago uma profissão de fé no homem. Contudo, para não bater na mesma tecla no próximo livro (e esperamos que muitos venham ainda), talvez não fosse demasiada impertinência do resenhista sugerir que o nobre Nobel abandonasse o euro e o teocentrismo e dirigisse suas vírgulas e pontos a outros fundamentalismos tão obscurantistas quanto, do islamismo ao neopentecostalismo e outros ismos, como, sei lá, o nauseante credo do neoverdeamarelismo – em vez de malhar Deus, que tal dar uns croques no Lula, no Kaká e no Galvão Bueno?



Tudo azul para o tarja-preta
1, 13, Outubro, 2009, 6:01 pm
Arquivado em: filmes, hq, livros, oncotô, perfil, perfis, periodismo

Perfilete do amigo Lourenço Mutarelli para o caderno Outlook, do Brasil Econômico

Mutarelli por Mutarelli

Mutarelli por Mutarelli

Romances, drogas e cartões de crédito

Como tem lidado com o reconhecimento o multiartista Lourenço Mutarelli, que lança dois livros e vive no cinema papel escrito por ele mesmo no romance O Natimorto

Mutarelli está feliz, hiperprodutivo, mas anda meio paranóico. Enquanto tenta reduzir o consumo do Lorax, tranqüilizante que o embala há 15 anos, mantendo diariamente uma Sertralina rebatida com meia garrafa de Chivas, estréia como protagonista em O Natimorto, filme baseado no romance homônimo, e lança Miguel e os demônios, trama policial que equilibra em doses iguais múmias, travestis, possessão e pedofilia. Contudo, não são as drogas nem as insólitas obras que lhe trouxeram mania de perseguição – e sim a fama, inusitada aos 45 anos deste desenhista/escritor/ator.

A quem se espante com a naturalidade em tocar no assunto drogas, Mutarelli é ambíguo. “Não faço apologia. É uma questão pessoal, de saber usar. A droga faz parte da minha vida”, afirma este ex-gerente de farmácia, fã do notório drug abuser William S. Burroughs. Já a fama, este poderoso estupefaciente, ele diz manter sob controle estrito. Mas se o recente sucesso não embriagou o artista paulistano, causou estrago nas finanças. Em 2000, Mutarelli vivia com um salário de R$ 300, saía de casa duas vezes por mês, vivia no Itaim Paulista. Hoje mora na Vila Mariana, guia um carro novo, tem livros filmados, muitos projetos, obras lindamente editadas – e uma fúria consumista por cultura, que o jogou nas garras dos cartões de crédito. “Entrei o ano no vermelho, só consegui zerar minhas dívidas em julho”, conta. “Nunca me deslumbrei com a melhora financeira, mas aumentei muito os gastos com livros, CDs, filmes… É que na época da dureza ir ao cinema era um programa anual: só ia no aniversário de namoro!”, ri.

Para além de temas de sua narrativa, drogas e distúrbios psíquicos são mesmo responsáveis pela estrutura das obras mutarellianas. Houvesse uma linhagem na literatura brasileira dando conta de um interesse psiquiátrico (e não psicanalítico, perceba), Mutarelli ali estaria, ao lado de gente como Qorpo Santo, José Agrippino de Paula, Maura Lopes Cançado, Lima Barreto e o recentemente desaparecido Rodrigo de Souza Leão. Ele aceita a estirpe. E vai mais longe: “Acho que até mesmo a própria manifestação artística é uma expressão de distúrbio psíquico. Há quem aceite esse distúrbio e se torne artista. E há quem não consiga lidar com essa força”, sugere Mutarelli, indicando o próprio irmão como exemplo. “Investigador de polícia como o meu pai, ele não segurou a onda do que viu no trabalho. Hoje está tratando a esquizofrenia”, conta o artista – que revela ter escutado do irmão muitas das histórias encarnadas pelo investigador Miguel, de Miguel e os Demônios.

Contudo, Mutarelli não se limita a adaptar horrores alheios à sua escrita. Também folheia avidamente ensaios como os de Alice Flaherty, uma pioneira no entrelace literatura/psiquiatria (como se percebe no excepcional capítulo “Hipergrafia”, que se pode ler na Serrote #2, excerto de The midnight disease). E está sempre de olho nos desvarios catalogados no DSM-IV, a bíblia da sociedade norte-americana de psicopatologia. Não à toa romances como O Natimorto enfileirem velhos conhecidos dos homens de avental branco – folie à deux, psicose maníaco-depressiva, compulsão obsessiva, mania de grandeza e outras doces esquisitices.

O homônimo filme de Paulo Machline, que se distancia do humor negro do livro para dar a uma estranha história de amor um tom trágico, foi ovacionado no Festival do Rio. Até então, Mutarelli tinha rodado alguns curtas e se preparava para estrelar uma minissérie na Globo. A boa acolhida d’O Natimorto e o sucesso de O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia, adaptação do primeiro livro, fez pensar que deslancharia a tardia carreira de ator. Ele desdenha: “Nunca mais vou atuar! Imagem toma conta de tudo. As pessoas que antes te tratavam mal agora tratam bem, e detesto bajuladores“, chia. A pior chegada foi num cinema: “Estava no banheiro quando um cara me estende a mão. E eu ali com as mãos ocupadas… Que situação!”, diverte-se. “Ando com vontade de sumir”, promete.

Assim, tão cedo Mutarelli não sai do estúdio. Depois de cinco anos longe dos quadrinhos, voltará ao romance gráfico com a história de um velho decadente que tem uma experiência com ETs. Finaliza E ninguém gritava na ponte, livro ambientado em Nova York, sobre um triângulo amoroso formado por pai racista, filho bobo e sua namorada negra. E rabisca Nada me faltará, narrativa sobre um sujeito desmemoriado que perde mulher e filha durante uma viagem. “Um romance bem experimental”, resume Mutarelli, que não teme o possível aburguesamento que a fama traz. “Vivo fácil no osso. Ruim mesmo seria se a profissionalização afrouxasse minha arte”, analisa. A se fiar pela hiperatividade, um risco tão remoto quanto o do artista perder de vista os amados remedinhos.



Nessa janela bate sol
1, 9, Outubro, 2009, 8:50 am
Arquivado em: convivas, ouvi por aí, som na caixa


Quinho & Botika. Refrão gruda igual chiclete de morango com limão. Tem lugares onde a poesia só chega assim, de violão e falsete – mas sem falseta. Puta som:




Vaidosos Anônimos
1, 5, Outubro, 2009, 6:07 pm
Arquivado em: egotrip, livros, orelhada, periodismo


Enquanto tolos & totós inimputáveis maltratam os teclados bancados por suas mamães, a caravana se garante, assinando tudo com o próprio nome. Daí que segue outra pensata-playground pra pagar a Germana das crianças. É a capa da Vida Simples do mês, edição Vaidade. Vai o texto original – mas sugiro ir às bancas conferir a matéria editada pelo Leandro Sarmatz, jornalista da rara estirpe editor-barbeiro, aquele que lida bem com a tesoura e faz seu texto se parecer mais com você mesmo. Bueno, findos alfinetes & confetes, eis o bolo; bom apetite.

Mirror talking

A Era da Hipervaidade

Enquanto psiquiatras norte-americanos se assustam com o narcisismo dos adolescentes viciados em Facebook e filósofos franceses debatem a influência do comprimento das saias da primeira-dama sobre o zeitgeist, as revistas de celebridades exaltam: além das aparências, não há nada mais. E ainda bem

“Bacana teu óculos”, falei. Leves, classudos, num tom esportivamente escuro, cada lente com uma sombra que subia de baixo para cima, tornavam misterioso o olhar do amigo, um jovem editor. Comentei que nunca o tinha visto de óculos. Ele devolveu: “Pois é, mas eu estava com a vista cada vez mais cansada… até que fui ao oculista e ele me disse que precisava usar… Dois graus de miopia. Excesso de leitura. Fazer o quê…”, compungiu-se, o olhar vago, empurrando o par de lentes nariz acima com um charme intelectualmente sofrido. Mês depois, encontrei uma amiga cujo pai é oftalmologista. Entre anedota e outra, ela me contou que um curioso cliente do pai havia pedido um modelo de óculos sem grau. É, era ele mesmo – o editor.

Talvez influência da aura cerebral do meu amigo, o fato me lembrou o conto “O espelho”, de Machado de Assis (da coletânea Papéis avulsos). Uma das raras narrativas fantásticas do bruxo dos oclinhos, conta um estranho evento na vida de um oficial do exército. O sujeito havia recém obtido a posição de alferes, hoje segundo-tenente – pouco acima de cabo. Fascinado pelo uniforme, pegou a mania de ficar se namorando no belo espelho da fazenda de uma tia. O novo status logo lhe subiu ao quepe. Começou a destratar todo mundo, parentes, amigos, escravos. Certa vez, a tia precisou viajar, e o alferes viu-se a sós com os escravos – que não paravam de lhe puxar o saco, “Nhô alferes é muito bonito”…

Distraído, nem se tocou que os escravos tocaiavam uma fuga. E ficou só na fazenda. De repente, bateu uma opressão terrível. Uma sensação de morte. Caiu em depressão. Até que um dia, ao se mirar no famoso espelho, não conseguiu ver nada: “O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não se estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”. Aterrorizado, sem lograr refletir-se, o alferes resolveu cair fora da roça. Foi vestir o uniforme… mas, quando estava arrumado, reconheceu-se de novo. Só podia se ver ao espelho no papel de alferes: “Não era mais um autômato; era um ente animado”.

A moral machadiana é cristalina como as nebulosas lentes do óculos do meu amigo, e tão ridiculamente inofensiva quanto. Ridiculamente inofensiva, enfim, é a vaidade – essa propriedade vaga que todos nós temos em pelo menos dois graus, culpa, por certo, de nosso excessivo apreço à cultura. Parece fácil, mas vaidade, como parâmetro norteador desta época, é algo bastante volátil para definir. Vai longe o tempo em que ser vaidoso bastava para condenar um cidadão, alferes ou editor, ao inferno. No início da cristandade, a vaidade, sob a alcunha de vanglória, foi pecado capital; por volta de 1500, integrou a lista na forma de orgulho ou soberba; ainda é a mais diabólica contravenção para os cristãos ortodoxos; segue relacionada à Prostituta da Babilônia no Apocalipse.

Foi o que conduziu Lúcifer, mais belo dos anjos, do lado direito do Senhor aos portões do inferno, por rejeitar a imagem de Deus em benefício da própria. Vanitas vanitatum, omnia vanitatum, diz o Qohélet (Eclesiastes), sobre o sentido da vida – a tradução corrente é “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, porém o poeta e transdutor Haroldo de Campos prefere cercar a expressão “vacuidade” do hebraico ao termo “ilusão”. E, quando iniciamos o passeio pelo significado da palavra, este se adensa, ao mesmo tempo que esfumaça… Bem, estamos falando de aparências.

mirror teeth

Pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, inexplicavelmente esgotado desde 1984, “vaidade” tem 71 substantivos afins, incluindo “ânsia incontida de despertar a admiração”, “parlapatonice”, “exibicionismo”, “pretensão”, “megalomania”, “egoísmo”, “inchaço”, e, claro, “narcisismo”. (Um dicionário analógico não traz sinônimos, e sim conceitos dispersos pelo campo semântico das palavras; este do lendário Santos Azevedo, mestre de Sergio Buarque de Hollanda, estrutura-se em exatos mil verbetes, começando em “existência” e terminando em “templo”; “vaidade” está entre “ostentação” e “orgulho”.)

Meu sinônimo favorito, o que ilumina nosso tempo, é “inchaço”. Até por conta da característica física da palavra – como se o vaidoso estivesse “cheio de si”. Mas que seria concretamente esse “si”? O ser, ou o nada? Batom, botox ou fotos bacanas no Facebook? Sapatos Gucci, um iPod novo ou um belo currículo na Casa do Saber? O cabelo do Justus, a peruca da Dilma, os pneus de Ronaldo, o bigode do Sarney, o retrato de Dorian Gray? A obsessão pela juventude dos sessentões vampirescos, a susanavieirização do mulherio? A vaidade sempre seria ruim, ou poderia ser um componente positivo da competitividade, um estímulo à auto-afirmação? Ou seria mesmo um vício – e um vício letal, matando tanto anônimos que tentam ficar lindos na mesa da lipoaspiração quanto os Michael Jacksons que lutam pela glória através de remédios contra a dor e horas de torturantes exercícios físicos?

Síndrome do Pequeno Imperador
Óbvio que, na sua psiquiatrização do cotidiano, os norte-americanos já tratam a vaidade como patologia. Em 2006, a psicóloga Kali H. Trzesniewski lançou um calhamaço de pesquisas feitas com adolescentes desde 1978, que originou o livro Generation Me: Why today’s Americans are more confident, assertive, entitled – and more miserable than ever before (Free Press), da também psicóloga Jean Twenge.

A pesquisadora crê que a autoconfiante geração nascida em 1980 – que passa horas entre o Facebook e o Myspace – é muito mais narcisista do que as gerações anteriores. A doutora Twenge trabalhou com o colega W. Keith Campbell no recém-lançado best-seller a analisar os miolos moles dos yankees: The Narcissism Epidemic – Living in the Age of Entitlement (Hardcover). Para a dupla, a coisa ficou preta e o espelho trincou – e o resultado, ora vejam, é a crise econômica.

Parece meio infame, tanto quanto o transtorno obsessivo narcisista [box abaixo]. Mas faz sentido – sobretudo para a alma norte-americana, sempre tão disposta a diagnosticar-se e tratar-se e partir para o próximo transtorno como se não houvesse amanhã, caso a doença mexa no bolso. Em entrevista à revista de educação US World Report, Campbell afirma ter comparado as pesquisas com jovens entre narcisistas e obesos: “os resultados foram bem semelhantes”, diz. Numa amostragem de 35 mil jovens, a dupla de psicólogos descobriu que 6% sofriam de transtorno obsessivo narcisista. Contudo, somente 3% das pessoas acima de 65 anos tinham esse transtorno. “Um dado a comprovar que estamos em uma epidemia fora de controle”, assevera o psicólogo.

Ele enumera quatro causas: a educação dos pais, a cultura de celebridades, a mídia e o crédito barato. “Muitos pais tratam seus filhos como reis”, critica. “Reality shows são altamente narcisistas, e supõe-se que são a vida real; neles, subentende-se que o narcisismo é algo normal.” Campbell é especialmente duro com a rede: “As pessoas nunca falam que lêem Guerra e paz, de Tolstói, no Myspace”, reflete. “Em vez disso, colocam fotos sensuais, a coleção de amigos, as músicas legais. Para piorar, crédito barato faz com que os jovens gastem para se parecerem melhores do que realmente são”, adiciona. “Eles têm coisas que não fizeram força nenhuma para pagar.”

Para a dupla de psicólogos, o fenômeno é mundial. “Na China, há a Síndrome do Pequeno Imperador [nos centros urbanos, cada família só pode ter um filho único, que se tornam miniditadores]. Na Escandinávia, estudos provam que nos jornais aumenta o número de palavras individualistas em detrimento de palavras comunitárias. Mas claro que os EUA são o número 1 em narcisismo. Não necessariamente em termos de performance, mas pensamos que somos os primeiros”, analisa Campbell – um tanto narcisisticamente, eu diria.

mirror spaniard

A burqa de Rubem Fonseca
Provavelmente, a valorização do discurso da auto-estima e a febre da auto-ajuda são culpadas dessa apoteose ao me-achismo. Porém, como depois da tempestade sempre vem a ambulância, conforme deduziria o pensador Vicente Matheus, imagino que daqui a alguns anos a loucura narcísica dará valor à auto-casca-de-banana, auto-epa, auto-fail: aprenderemos a puxar em público nosso próprio tapete. Como bem o faz esse grande vaidoso que é Woody Allen (vai dizer que deixar de ir receber um Oscar porque a data caía no mesmo dia em que ele toca com sua banda de jazz não é o extremo da vaidade?). Esse culto desenfreado ao amor-próprio ainda vai produzir coisas estranhas… em breve, abrirão inscrições para os Vaidosos Anônimos. Pode escrever.

Por enquanto, vamos vivendo a grande época da vaidade, o pecado favorito de Al Pacino em O advogado do diabo. A imodéstia saiu do armário: não à toa a burqa foi proibida na França pelo presidente Sarkozy (cuja soberba se estende dos saltos nos sapatos que o elevam à não menos digna de vaidade primeira-dama Carla Bruni). Mas… não seria também a burqa, ao esconder a figura feminina (ou os filhos de Michael Jackson), sinal de extrema vaidade? Não é cinismo: segundo o islã, o véu torna as mulheres atraentes porque sutilmente apela à sua vaidade. Não importa quão feia ou velha é a muçulmana: qualquer homem fica louco à mera visão de seus cabelos descobertos. Assim, sob seu modesto esconderijo, uma muçulmana é a mais desejável das criaturas.

Já as pobres ocidentais, agindo livres, encontrando-se com homens em situações prosaicas, acabam, pela rotina, se tornando sem graça. A não ser que sejam jovens e belas, cairão fatalmente sob o olhar indiferente dos pares – deixarão de ser tratadas como objeto de mistério para virarem meros objetos sexuais. O que me faz pensar na pretensa vaidade de sujeitos como Thomas Pynchon, JD Salinger, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Todos escritores que fogem de entrevistas e retratos como Madonna do anonimato: o véu que os cobre não os tornará mais valorizados?

Na outra ponta do estudo do narcisismo, o filósofo francês Gilles Lipovetsky faz uma abordagem ao mesmo tempo eufórica e catastrófica – espelho fiel do espírito da época, a que ele nomeia A Era do Vazio. O próprio texto de Lipovetsky é hiperbólico, contaminado pela velocidade e adrenalina do consumo. Uma escrita extremamente vaidosa, ciosa de si. Mas deliciosa, e crivada de teses brilhantes. Em O império do efêmero (Companhia das Letras), Lipovetsky faz uma leitura original da cultura contemporânea através da importância crescente da moda. Muito gaulesmente, diz que a moda – especificamente a florescida em Paris – condensa na idéia de individualidade os ideais da Revolução: liberdade, igualdade, fraternidade.

“A promoção das frivolidades só se pôde efetuar porque novas normas se impuseram, desqualificando o culto heróico de essência feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado do orgulho”, afirma. “Da idéia de altivez relativa à dignificação das coisas terrestres saiu o culto moderno da moda, uma das manifestações (…) da humanização do sublime.” O filósofo não separa a moda – e assim, o fascínio pelo Novo – da ideologia individualista, do culto ao bem-estar, aos gozos materiais, ao desejo de liberdade, à vontade de enfraquecer a autoridade e as coações morais, ao triunfo da ideologia do prazer.

mirror teaching

No entanto, ele lembra que a busca dos valores individuais trazem um fenômeno mais estranho que o estudado pelos senhores psicólogos acima: a “solidão em massa” refletida no número cada vez maior de suicídios. “A era da moda consumada é inseparável da fratura na comunidade e do déficit de comunicação: as pessoas se queixam de não serem compreendidas ou ouvidas, de não saberem se exprimir” – uma festa de autistas que lembra um pouco uma rave impulsionada por ecstasy, ou uma sessão furibunda de Twitter movida a banda larga.

Lipovetsky sugere que vivemos um segundo momento da Era do Vazio, em que a “a busca da riqueza não tem nenhum objetivo senão excitar admiração ou inveja”. Nesse mundo ultracompetitivo, o Outro só faz sentido se viabilizar o sucesso do Eu. No sombrio e triunfante A Era do Vazio (Manole), Lipovetsky aproxima os conceitos de vacuidade e vaidade, vazio e Narciso: “Que outra imagem é melhor para significar a emergência de individualismo na sensibilidade psicológica, centrada sobre a realização emocional de si mesma, ávida de juventude, de esportes, de ritmo? (…) O neonarcisismo é psicologia pop: a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário”.

Em uma imagem: o alferes satisfeito por reencontrar sua identidade no espelho, conforme Machado previa há mais de cem anos. Ou meu elegante amigo observando-me superior por trás das lentes falsas, feliz da vida por enganar a si mesmo.

mirror multiuse

SE ENXERGA

Você precisa estar no centro das atenções (médicas) se…

1 Possui senso grandioso de auto-importância (supervaloriza realizações e talentos, espera ser reconhecido como superior sem que tenha feito ações à altura)
2 Preocupa-se com fantasias de sucesso, poder, brilho, beleza ou amor ideal ilimitados
3 Acredita que é “especial” e único e que só pode ser compreendido por outras pessoas (ou instituições) especiais ou de status elevado
4 Precisa de admiração excessiva
5 Sente-se em uma posição de possuir direitos, isto é, tem expectativas irrazoáveis de receber tratamento favorável ou de aceitação automática das duas expectativas
6 Aproveita-se de relacionamentos interpessoais; isto é, manipula os demais para atingir seus próprios objetivos
7 Não demonstra empatia; não tem disposição para reconhecer os sentimentos e as necessidades alheias ou identificar-se com isso
8 Muitas vezes inveja os demais ou acredita que os outros o invejam
9 Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes
10 Leu este teste observando-se ao espelho (ops, esse é falso, brincadeira…)

Fonte: DSM-IV, Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders, ©American Psychiatric Association



Cildo, o ET
1, 25, Setembro, 2009, 12:56 pm
Arquivado em: negócio de arte, perfil, perfis, periodismo


Coroado pelo Zero Dollar, Cildo Meireles em sua mesa de trabalho

Coroado pelo Zero Dollar, Cildo Meireles em sua mesa de trabalho

Cildo Meireles, o primeiro artista brasileiro a ter uma retrospectiva na Tate Modern londrina fala de relâmpagos, sorte, discos voadores, pede a dissolução da Bienal de São Paulo e é tema de documentário que ganha sessão de gala no Festival do Rio de Janeiro

Cildo Meirelles é um extraterrestre cordial. Repara. Comecemos nos fiando nas aparências – o único porto seguro para pessoas sensatas. Ele usa roupas comuns. Comuns demais. Altura mediana, barriguinha incipiente. Careca, tem as orelhas um pouco pensas pros lados, os olhos um tanto tristes; neles, às vezes pousa um relâmpago. Falaremos muito de relâmpagos. Os lábios grossos fazem movimentos estranhos a cada súbita reviravolta nas idéias. E decididamente suas idéias são de outro planeta.

Não à toa um de seus filhos é batizado Orson: o tributo é menos ao diretor de Cidadão Kane que ao célebre narrador radiofônico de A guerra dos mundos, de HG Wells, feito que ultrapassou as fronteiras entre realidade e ficção – muita gente entrou em pânico ao acreditar que a Terra estava mesmo sendo invadida por marcianos. Ao observar Cildo passeando por Botafogo suavemente, sub-repticiamente, enquanto entabula de leve uma conversa sobre arte conceitual ou perde o olhar em um par de tênis jogados nos fios dos postes, talvez pensando em uma futura obra, você não duvida – a Terra já é habitada por extraterrestres.

O próprio confirma. Em duas ocasiões o passeio de um disco-voador brilhou em suas retinas. “Na primeira vez, em 1970, morava no Jardim Botânico, a varanda do meu apartamento dava pro Cristo. Um dia eu tava saindo, cinco da tarde, vi um objeto luminoso ali perto do Corcovado – achei que era um Boeing pegando fogo. Aí a coisa sumiu. Só eu vi isso”, lembra este carioca de 61 anos.

Na segunda, todo mundo viu, menos eu. Quando morava em Santa Teresa, descia de bonde, pegava um ônibus e ia parar em Niterói, onde tomava um café olhando aquela paisagem que cartão postal nenhum resume. No percurso, anotava idéias… Perto da Presidente Vargas, todo mundo desce e fica apontando pro céu. Nem me toquei. Já em Niterói, perguntei pro motorista o que tinha sido aquilo, ele falou meio mole: ‘ah, foi um disco voador aí’” ri o artista, para quem a aparição de OVNIs parece algo tão prosaico quanto uma média com pão com manteiga – acepipe sem o qual Cildo não consegue começar um dia, e sobre cuja feitura ele consegue discorrer por longos minutos.

Desvio para o vermelho, 1967-84

Desvio para o vermelho, 1967-84

Um bom papo furado faz sua alegria. Grande conversador, Cildo Meireles papeou com o Impostor por quatro horas em seu ateliê, em Botafogo, “a coisa mais cara que já comprei”, diz ele – cujas obras Zero cruzeiro e Zero dollar ele não vende nem por todo o dinheiro do mundo. Questão de coerência: os trabalhos brincam com a relação entre valores e coisas, e, se postos à venda, perderiam o valor icônico. O mesmo ocorre com as célebres notas carimbadas com as frases “Yankees Go Home” e “Quem Matou Herzog?”, também dos anos 1970, cuja conotação política acabou sombreando toda a obra deste artista completamente avesso a partidos, movimentos ou aglomerações.

Em artes plásticas, cada relâmpago novo te permite usar materiais, procedimentos, conteúdos e gramáticas diferentes. Por isso nunca restringi meu trabalho à leitura política. Instintivamente, procurei trabalhar sob esta norma. A política tradicional no Brasil é lamentável, nunca me filiei a nada. E sempre tendi a privilegiar o indivíduo em minhas obras. Só em futebol é que eu suportava o convívio do jogo”, conta ele, que, torcedor do Fluminense, quando adolescente chegou a treinar no Flamengo e no Botafogo como meia-direita.

Nunca gostei de ir a festa em grupo, não curto mesas grandes, aglomerações de gente… Minha posição política sempre foi à parte dessa coisa de espírito de corpo, de confraria, de movimento. Olha, se serve mais aí…”, oferece gentil, apontando a garrafa de uísque, um pacote de amendoins e um cacho de banana, aperitivos frugais para um sábado ensolarado no Rio de Janeiro. E acende outro cigarro – serão onze ao longo da entrevista. “Dá câncer, né? Tem vezes que eu paro seis meses, aí volto. Disciplina é difícil, né?

Zero Dollar, 1978-84

Zero Dollar, 1978-84

Sorte e azar S/A
A aversão à rotina fez com que Cildo fugisse da faculdade. Em casa perdia-se na bela biblioteca do pai, Francisco Meirelles – um dos primeiros antrópologos a denunciar os massacres indígenas no Norte, fato marcante na obra do artista, que morou 10 anos no Pará (o irmão, de Cildo, Apoena, ex-presidente da Funai, foi assassinado em 2004; o crime, nunca esclarecido, aponta para as investigações que Apoena fazia sobre chacinas promovidas por garimpeiros). Mais tarde, vivendo em Brasília, Cildo estudou com o artista peruano Félix Barrenechea. Com somente 19 anos fez a primeira exposição individual, no MAM baiano. Passou por duas escolas de arte no Rio, em um total de 5 meses de estudo.

Pra mim sempre foi complicada essa coisa de ensino da arte. O que as pessoas esperam de você, como artista, deveria ser o que não existe. E o que não existe você não pode instrumentalizar. ‘Artista plástico profissional’ é uma contradição em termos”, afirma. Um ano desliza em um ateliê em Paraty, e, em 1971, Cildo vai a Nova York, onde mora até 1973, seu “período rimbaudiano”, como diz – em que trabalha com pintura em veludo com uns jamaicanos mucho locos e como mensageiro de bike, reunindo os trocos necessários para freqüentar museus e galerias, ver documentários de boxe e filmes de arte, comer empadinhas macrobióticas e participar de festas ao lado de gente como Hélio Oiticica e Júlio Bressane.

A nascente Brasília teve um impacto essencial em sua obra. “Imagina você ser menino e ver um pneu de 4 metros. Jogar bola em um lugar que virou um lago imenso. Entrar em um cano e sair quilômetros depois”, conta ele no belo documentário Cildo, de Gustavo Rosa de Moura. Viver em uma cidade em conflito de escala entre prédios monumentais e céu onipresente lhe deu a permanente sensação liliputiana. O jogo entre tamanhos e escalas vai aparecer em Cruzeiro do Sul (um cubo de madeira de 9mm cercado por 200 m de nada), ou Deserto (um anel de ouro em formato de pirâmide, de cujo topo, em safira transparente, se vê um único grão de areia), obras dos anos 70, e na recente Glovetrotter – Admiráveis mundos novos, de 1991 (várias bolas, de diferentes tamanhos, envoltas por uma malha de aço, semelhando planetas que caíram numa rede de pescador). Isso sem falar na impressionante Babel, torre feita de rádios – cada um sintonizado numa diferente estação – cuja inspiração Cildo teve passeando pelas barracas de eletrônicos usados em Portobello Road, Londres.

Babel, 2001

Babel, 2001

Em outra dimensão, menos física que metafísica, a arte de Cildo tem muito a ver com o arbitrário – e este, sua ligação com a sorte. Em sua nada glamourosa mesa de trabalho é emoldurada pelo inestimável Zero Dollar, por um calendário vagabundo e dois relógios chineses, cada um errado em uma hora – ambos eram acompanhados por mais 998 relógios na instalação Fontes –, este carioca pouco afeito a religiosidade reflete ser impossível não acreditar em sorte, né. “Me acontecem coisas“, diz. “Um tempo atrás eu tava parado na esquina da Voluntários com a Real Grandeza. De repente eu falei para a Caherine [Bompuis, sua mulher, pesquisadora de arte], ‘vamos ali comer um doce’. Dois passos depois chega um ônibus, avança um sinal e afunda inteiramente bem onde a gente estava!… Outro lance curioso é o ritual da folha caída. Em determinados momentos, quando preciso de uma confirmação de algo, deixo cair uma folha oficio. Tem vezes que ela cai assim de pé. Aconteceu várias vezes, sei que é raríssimo, pela probabilidade. Já rolou até em lugar onde venta… às vezes não estou nem pensando nisso e acontece.”

Pelo fim da Bienal
Observar o mundo de outro ponto de vista também é imagem recorrente na vida de quem tinha 21 anos ao presenciar o homem pisar na Lua. Contudo o ângulo favorito de Cildo não é o dos astronautas Armstrong e Aldrin, e sim o de Michael Collins – o que ficou na nave, enquanto os colegas passeavam pelo satélite e eram vistos por quase toda a humanidade. “Este é o lugar do artista”, diz.

Mesmo entre seus pares Cildo é um ET. Aquele palavrório que acompanha toda arte conceitual – há obras que necessitam de bulas para serem compreendidas, experenciadas ou sentidas – não tem vez na arte cildiana. Ao contrário, ele retira a arte conceitual de seu cabecismo através do humor. Uma obra como Babel é autoexplicativa: uma torre circular formada por rádios dos mais variados tipos, cada um ligado em uma estação diversa. Simples, né? Ele conta como um amigo o comoveu ao contar que, na cadeia, criava obras de arte com caixas de fósforo. “Aquilo me deu o relâmpago de que a arte conceitual é a mais democrática das artes. Basta ter uma idéia!”, ensina.

Glovetrotter, 1991

Glovetrotter, 1991

Os bem-humorados relâmpagos de Cildo têm ganhado o planeta. Após o documentário de Rosa de Moura, que ganha sessão de gala no Festival do Rio neste próximo domingo, em outubro as idéias surgem em “voz escrita” em um livro de entrevistas organizadas por Felipe Scovino para a editora Azougue, na série Encontros. No início de 2009 Cildo foi o primeiro artista brasileiro a ganhar retrospectiva na Tate Modern, em Londres. Carimbou os passaportes de suas obras monumentais na Documenta de Kassel, nas Bienais de Veneza (nesta de 2009 e em outras três), Sidney, Johannesburg e Paris. Mesmo com todo o sucesso internacional, o chateia saber que não teve exposição do mesmo porte no Brasil. Numa das raras ocasiões em que se mostra contrariado, ao abordar o assunto Bienal do Vazio (em 2008, a organização da Bienal deixou um andar inteiro desabitado), sugere acabar com o modelo paulistano.

O vazio legitimou uma incompetência administrativa. Era melhor ter deixado a Bienal em branco mesmo. Numa cidade como 20 milhões de habitantes como São Paulo, não tem sentido fazer uma Bienal com 240 artistas durante 2 meses. Seria muito mais produtivo pegar os mesmos 240 e fazer 10 exposições por mês durante 2 anos. Isso dinamizaria a cena artística, tornaria a coisa produtiva pro estudante, haveria workshops. A gente transformaria o evento em programa, usando o mesmo espaço da Bienal, e até fora da Bienal, integrando a comunidade. Bom, mas talvez com essa idéia a gente simplesmente dissolveria a Bienal…”, ri Cildo, enquanto fecha o ateliê com uma constelação de chaves. Ele põe o repórter no táxi e sai andando devagar ao lado da mulher Catherine, espiando vagamente o céu brilhante que ressurge entre nuvens, árvores e fios de postes. Talvez fosse efeito do uísque matutino… mas o artista parece mesmo caminhar a meio centímetro do chão.


______
Cildo, dirigido por Gustavo Rosa de Moura. Sessão de Gala: 27 de setembro [domingo] às 17h15, Odeon Petrobras, Praça Mahatma Gandhi n°7 Cinelândia, RSVP cildo@matizar.com.br. Sessões: 29 de setembro [terça-feira] às 13h50, Vivo Gávea 1, 29 de setembro [terça-feira] às 18h_ Vivo Gávea 3, 01 de outubro [quinta-feira] às 19h, Cinema Nosso [Lapa], 03 de outubro [sábado] às 18h, Ponto Cine Guadalupe.



Tem culpa eu?
1, 17, Setembro, 2009, 12:36 pm
Arquivado em: periodismo


Reflexão irracional sobre a culpa para a ótima reportagem da Tpm

Culpa

Não é você, sou eu

– Você não se comportou como uma boa menina?
– Sim… juro que não fiz nada…
– Venha aqui, sua menina suja. Vou te dar uma lição!
– Não, por favor, não, não… Sim, sim, sim!
[Corta para gritos e murmúrios de prazer.]
“Você pode não saber porque está batendo, mas ela sabe bem porque está apanhando.” Esta frase de quinta e o diálogo de pornochanchada de sétima foram as primeiras coisas que vieram à cabeça quando comecei a pensar na tal da culpa feminina. Clichezaços do cafajestismo brasileiro, estilhaços de uma moralidade que, numa revista como a Tpm, parece mais ultrapassada que desculpa do Rubinho; mas lá fora, no mundo Zorra Total, mulher sempre tem culpa no cartório.

O machismo teria acabado por, para usar uma expressão cara a “especialistas”, introjetar a culpa nas damas? Teriam as moças modernas desenvolvido novas expressões do peso na consciência? Culpa seria transmissível de avó para mãe e aí para filha? Minhas tias judaico-cristãs sempre provaram que sim, sadomasoquistamente vendo um senso de responsabilidade privada em qualquer desgraça coletiva, da inflação a Auschwitz, passando pelas derrotas na Copa do Mundo de 1982. A mensalidade na escolinha da culpa é cobrado via chantagem emocional. Quando íamos visitar minha avó, ficávamos longamente dando adeus. Meu pai descia o carro e fazia o balão no fim da rua. Quando passávamos de novo em frente à casa daquela frágil senhorinha, réplica do papa João Paulo II de saias e avental sujo de ovo, grossas lágrimas pendiam de seus olhos azuis. Toda vez era isso, esse “vocês estão me abandonando” impresso na alma. Outro dia me peguei lacrimejando ao ver meu filho entrando na van que o leva para a aula. Culpa é mesmo um troço contagiante.

Para investigar a sensação de culpa de outro ponto de vista, resolvi que atrasaria de propósito a entrega deste texto. Escreveria com peso, imaginando as colegas da Tpm comendo a pizza que o Paulo Lima amassou, coitadinhas, sob as parcas luzes do fechamento na redação, todas à espera desta pensata para liberar a edição… A cada frase digitada, sentiria por trás do meu quengo os olhos de chicote da Renata Leão, a admoestar-me com críticas à minha irresponsabilidade e falta de senso de noção… (Além das rimas ruins.) Não rolou: o hábito de ser perdoado me fazia levitar os dedos no Mac. Ou este seria um prazer roubado à culpa, numa perversão tipicamente católica? Sim, pecadores só pecam para receber o perdão. Mas esse mecanismo se parece demais com aquela cena de pornô lá do começo…

Até os anos 60, os mitos de Eva e Pandora deduravam nas minas as minas de todos os males, eu conversava com minha namorada, uma bem resolvida filha de psicanalista. Ela lembrava: antes as mulheres se sentiam culpadas por simplesmente desejar algo além de suas possibilidades; lhes era vedado sonhar. Hoje, mais que liberados como necessários os desejos – uma mulher sem vontades não é uma mulher em 2009 –, a mulher sentiria culpa por não atender às expectativas nela depositadas: mãe, gata, inteligente, gente fina, bem-sucedida e tesuda. Expectativas depositadas por quem? Homens, suas amigas, Freud, Facebook? Ou ela mesma?

Talvez as mulheres tenham de se mirar em nossos políticos, que jamais sentem culpa. E quando sentem, jogam sobre um colega. Se jogar no colo do colega pegar mal, o negócio é culpar a imprensa “nazista” ou a mídia “inimiga”. Não, nada disso. Desisto: ainda prefiro encarar uma moça transtornada com o Lancôme derretido da angústia a uma dama serena maquiada em óleo de peroba. Se vocês deixarem de se sentir culpadas, que faremos com nossa submissa e covarde vocação para o consolo?



Ficção científica?
1, 16, Setembro, 2009, 8:02 pm
Arquivado em: mundo real



Mod from outer space
1, 15, Setembro, 2009, 6:49 pm
Arquivado em: convivas, som na caixa



O pai do fim do mundo
1, 11, Setembro, 2009, 1:54 pm
Arquivado em: filmes, livros


Sob um céu eternamente cinza, um homem e seu filho viajam do nada ao lugar nenhum. Passando por paisagens desoladas, passam frio, brigam por comida, fogem de canibais – e tocam com profundidade alguns dos mistérios em seguir vivo. Com The Road, Cormac McCarthy ganhou o Pulitzer de 2007.Em outubro, a narrativa – a exemplo de outro livro de McCarthy, No country for old men – estréia nos cinemas. Como a direção é do australiano John Hillcoat, craque em paisagens desérticas (é dele o pós-faroeste The proposition, filmado a partir de um argumento do amigo Nick Cave) e o ator principal é o poeta Viggo Mortensen, coadjuvado por gente como Charlize Theron e Robert Duvall, não parece exagero profetizar que o apocalíptico filme se torne um kit de Oscars – a exemplo de outra história original de McCarthy enquadrada pelos Irmãos Coen.

Nascido em 1933 em Rhode Island, o escritor, que costuma ambientar suas narrativas secas nas planícies idem entre sul do Texas e norte do México, tem sido a salvação da lavoura do faroeste. Todos os elementos do gênero estão em seus livros: a obsessão pela honra, a lealdade entre os homens, o mundo como um lugar dominado pelo Mal, a esperança como última qualidade humana. Tudo isso está extremado no romance que no Brasil saiu pela Alfaguara sob o título A estrada. Em entrevista a Oprah Winfrey, ano passado – em que a apresentadora transformou o premiado mas obscuro escritor em best-seller –, Cormac revela que teve a idéia do livro quando ele e o filho de 4 anos estavam num hotel de El Paso, Texas. Enquanto o menino dormia, o escritor olhou pela janela e imaginou como a cidade pareceria em 100 anos. Pensou na solidão dele e do filho e viu El Paso com seus fogos acesos na distância como algo absolutamente destruído, morto. Ali estava uma história sobre o fim do mundo.

Cormac McCarthy no clique de Jim Herrington

Cormac McCarthy no clique de Jim Herrington

Não quero dinheiro

“Fora isso, é só um livro sobre um homem viajando com seu filho”, resumiu. E pouco mais Cormac revelou na entrevista, das raras que concedeu em vida: “Escritores devem escrever, não falar”, manda. Nascido Charles, o autor rebatizou-se sob a forma gaélica de seu nome, homônimo de um rei irlandês do século III, Cormac Mac Art. Casado três vezes, dois filhos, passou 4 anos na Força Aérea, dois deles no Alasca; viveu 3 anos na Europa, especialmente em Ibiza, onde finalizou seu romance Outer dark; foi mecânico, criador de porcos e fazendeiro. De poucos amigos, prefere a companhia de cientistas – gosta de visitar o Santa Fe Institute em Novo México, organização que reúne pesquisadores em economia, tecnologia e ecologia, para “entender como as coisas funcionam; isso me ajuda a escrever”.

Cormac não usa computador: prefere uma Olivetti Lettera 32 – ali batucou dez romances, que hoje o colocam ao lado de Thomas Pynchon e Philip Roth no mais alto grau da literatura norte-americana. Um desfecho lógico para quem, entre escassas palavras, disse que a prioridade sempre foi a literatura. “Nunca me interessei em ter dinheiro. A vida é breve e fazer o que alguma outra pessoa quer que você faça não é um jeito de viver.” Assim fala um pistoleiro solitário puro-sangue.



desculpe mas eu vou chorar
1, 10, Setembro, 2009, 9:41 pm
Arquivado em: futiba